Ceci ne pas un textão de Facebook

Do que me adianta o seu textão agora, cara?
Do que me adianta essa tua demonstração infla-ego de que tu entende horrores da atual-conjuntura-política-nacional? Do que me adianta a tua declaração de que “não apoiou o golpe”, como se tivesse avisando a família que se declarou doador de órgãos? Do que me adianta o teu “primeiramente fora Temer”?

Do que me adianta a sua argumentação alicerçada em algum europeu morto , quando a realidade tá amargando a boca de gente bem viva, ainda que vivendo pelas beiradas? Do que me adianta ficar esperando que a “História” aja como tribunal enquanto o ar do trem entupido de gente cabisbaixa pesa cada dia mais? Deixa de ser ingênuo que a nossa narrativa não é a única e não é a nossa versão que vai entrar pros livros. Nós vamos ser só uns manifestantes arruaceiros que se manifestavam por redes sociais e foram quebrar a Paulista, tendo que ser contidos pela Polícia Militar. (Não, eu não acho que vão lembrar da bomba de gás lacrimogêneo que quase te cegou).

Será que esse título de eleitor que você disse que vai passar a usar de porta-copo algum dia teve todo esse valor que você começou a dar pra ele? Se líder de greve sindical tem que dar a mão pra coronel pra conseguir exercer o poder que a gente teoricamente deu pra ele, meu amigo, seu voto não é tudo isso que cê tá achando. Se um monte de deputado conseguiu entrar na Câmara de gaiato por causa da votação em massa de um deputado caricato que não falta a nenhuma sessão, que bonitinho ele, foda-se o seu título de eleitor.

Eu também tive orgulho de ver a Presidente que eu escolhi, mesmo que num voto meio a contra-gosto de segundo turno, se defendendo por horas em meio a um Senado hostil. Só que esse orgulho queimou meu peito ao lembrar que o destino dela já tinha sido traçado em um julgamento de corredor.

Vi gente dizendo que nós já tínhamos derrubado um golpe, que iríamos derrubar outro. De que golpe você tá falando, rapaz? Daquele de 64? Que estabeleceu uma ditadura de 20 anos, da qual a gente não aprende quase nada, que ninguém ainda conseguiu digerir, elaborar, assimilar? Aquela ditadura que acabou porque os militares simplesmente cansaram de brincar de política e devolveram o governo para os civis em uma abertura “democrática” “lenta e gradual”? Aquela em que nós não tivemos julgamento de culpados e a lembrança mais forte que passaram pra gente é a de uma música do Geraldo Vandré? Você não pode tá falando sério, a gente não derrubou porra nenhuma. Pelo menos eu não consigo considerar vitória viver em um país em que torturador ganhou direito à aposentadoria.

E agora a gente vai fazer o quê? Se tem gente dizendo que é golpista, mesmo, se teve panelaço vestido de verde&amarelo e misoginia até em adesivo de carro?

Do que seu textão vai me adiantar se você só tá falando pra sua bolha, se seu tio reaça já te excluiu do Facebook e foi reclamar de você pra tua mãe? Se você silenciou o grupo de WhatsApp da família e se ninguém fala de política na macarronada do domingo?

Do que me adianta seu textão se metade da população do país não tem acesso à internet e os únicos que podem mostrar seus textões pra todo mundo são aquela dúzia com concessão de TV e Rádio ou dinheiro pra comprar bastante papel jornal?

O seu textão de Facebook não me adianta de nada.