“They fuck you up, your mum and daddy”

Eu faço terapia há quatro anos e já passei por três profissionais. Nenhum deles, jamais, não chegou nem perto do clichê de “me fale sobre a sua infância”. Talvez porque isso sempre acabe chegando naturalmente, pelo menos comigo? Canceriano, você sabe como é. Ou não. Vai ver você não manja nada de astrologia, ou nem acredita. Não importa.
Depois de pensar muito (pensar provavelmente é o que eu faço mais — mas não o que eu faço melhor, necessariamente), eu fui começando a construir a teoria de que a gente enxerga o mundo por meio de um óculos feito de um mosaico de vidrinhos coloridos. A gente não consegue ver tudo como realmente é e alguns assuntos mais sensíveis (pra mim podem ser uns, pra você outros, mas eles existem pra todo mundo) sempre acabam tendo uma saturação mais forte. E a nossa criação é o que mais influi nessa pigmentação.
Não é uma relação causa-e-consequência. Dentro de casa, a gente vai aprendendo vários padrões de mundo. Como expressar amor, como resolver conflitos, como interpretar o silêncio, como lidar com adversidades, como agir quando sob pressão. E alguma coisa dentro da gente, que não sei bem precisar o quê, mas que sei estar fora do controle, tanto nosso quanto dos nossos pais, reage; a gente elabora esses estímulos recebidos durante a nossa formação e o resultado dita a forma de a gente ver o mundo.
E são trocentas as possibilidades de resultados. Se você cresce em uma casa em que seus pais não dão bola pra demonstrações de angústia, você pode aprender que isso é uma coisa pequena; ou pode se sentir incompreendido e ver todas as suas dores se ampliando. Se cresce cercado de brigas, pode resolver tudo na base do grito; ou fugir de qualquer tipo de discussão. Se cresce em meio a muitas proteções, pode acabar sem saber se defender sozinho ou pode se sentir sufocado e querendo se libertar. São incontáveis reações resultadas de incontáveis situações. Não dá pra prever nada disso no hercúleo trabalho de Criar Uma Pessoa.
O único fato aqui é: seus pais te foderam de algum jeito. Do mesmo jeito que eles foram fodidos pelos seus avós. Do mesmo jeito que os pais de Todo Mundo foderam Todo Mundo.
Eles te fodem, sua mamãe e seu papai
Talvez não seja a intenção deles, mas eles te fodem
Eles te dão os defeitos que eles tinham
E acrescentam mais alguns, só pra vocêMas eles foram fodidos na vez deles
Por idiotas com chapéus fora de moda e de casacos
Que metade do tempo eram rígidos e sentimentais
E na outra metade atacavam a jugular um dos outrosO homem entrega em mãos a miséria para o homem
Ela vai se aprofundando como a costa marítima
Saia disso o mais rápido que você puder
E não tenha filhos seus(Philip Larkin, “This be the Verse”, numa tradução bem livre)
Conviver com Pessoas é um eterno enfrentamento desses pequenos traumas que moldaram a nossa forma de ver o mundo, uma negociação em que você entra sem saber direito o que foi colocado na mesa. Você não tá só lidando com uma Situação que está ali, na sua frente; existem gerações de feridas entrando em jogo. Não existe nada a ser feito quanto a isso, é só a Condição Humana. Mas fica o lembrete pra próxima vez que você precisar resolver alguma coisa: todo mundo carrega uma ancestralidade de sombras que você não consegue ver, mas com as quais você está lidando também.
(Eu publiquei esse texto pela primeira vez na minha newsletter, Meu Coração É Um Nervo Exposto. Você pode assinar aqui. Vem conversar comigo no Twitter ou manda um alou por aqui mesmo, vou adorar saber o que você achou do texto!)
