Em nome do Pai

“Você está treinando para ultra maratona?”

Foi assim que começou a conversa, enquanto eu subia a estrada do Sumaré dividindo o percurso com um casal de ciclistas. De alguma maneira meu ritmo chamou a atenção deles, seja pelo fato de ver poucos correndo por ali ou simplesmente por que estava super focado tentando baixar meu tempo (quando essas coisas ainda faziam minha cabeça), e me fizeram essa pergunta, minha resposta foi rápida e direta, um notório “não”, mas a conversa não acabou por ali, após alguns elogios eles soltaram mais uma pergunta daquelas que nos desmontam: “você treina com qual equipe?” essa eu demorei um pouco mais pra responder, cerca de 2 segundos depois eu respondi: “meu pai me treina”.

Esse simpático senhor de 70 anos que me treina.

Aquela resposta me fez pensar, obviamente não foi por acaso que ela foi a primeira a vir, e hoje parece fazer muito sentido tudo isso, as vésperas da minha segunda maratona eu devo a ele minha “carreira” nas pistas, mas nem sempre foi assim.

Apesar de sempre ver a rotina do meu pai de correr e praticar musculação, houve uma fase de minha vida onde sua influência passou desapercebida e por mais que ele tentasse (de uma maneira que só ele sabe) chamar minha atenção para o caminho que eu estava seguindo, eu simplesmente ignorava tudo aquilo e preferia seguir minha vida, porém um dia, tudo aquilo que ele é começou a refletir em quem eu queria ser e então eu resolvi mudar.

Com meus 18 anos e pouco mais de 100 quilos, resolvi dar um basta, não aguentava mais a maneira com que a sociedade me olhava, não aguentava o sofrimento que é ser obeso, e então resolvi começar a correr, sim, com 105 quilos eu dei o pontapé inicial na corrida que no começo não era mais que 10 minutos. Lembro como se fosse hoje, peguei um tênis do meu pai sai pra correr, no começo parece que todos estão te olhando, mas na verdade ninguém liga pra você, são apenas neuras da sua cabeça, então começa a sentir a respiração acelerar o suor e calor toma conta de seu corpo, 10 minutos depois eu paro, ofegante e volto alternando entre caminhadas e trotes leves.

Aos poucos fui aumentando a distância, melhorando meu fôlego, comprei um tênis e rapidamente comecei a perder peso, num dado momento precisei viajar e não sabia o quanto a corrida fazia parte da minha vida, eu passei 5 dias fora e não levei meu tênis de corrida, mais ou menos no quarto dia eu já estava estressado e odiando o mundo. Quando cheguei em casa a primeira coisa que fiz foi ir correr e para minha surpresa acabei superando meus limites e fiz uma corrida de 16 quilômetros pela primeira vez na minha vida, no mesmo ano minha primeira meia maratona oficial, no ano seguinte a segunda e em 2015 a primeira maratona.

O motivo desse texto? Não é contar uma história bonitinha de superação, mas sim mostrar que nenhum exemplo passa desapercebido, um dia ele irá mudar a vida de alguém, seja bom ou ruim, estou as vésperas de minha segunda maratona e esse ano dedico a meu pai essa prova, em nome dele que hoje sou quem sou.

Like what you read? Give Odin Aguiar a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.