Criação do Ocidente — A Religião e Civilização Medieval, de Christopher Dawson

Este é o primeiro post, de uma série de 13, apresentando um resumo do livro Criação do Ocidente — A Religião e a Civilização Medieval, de Christopher Dawson, publicado pela editora É Realizações Editora, 1ª edição, 2016, traduzido por Maurício G. Righi e publicado originalmente sob o título Religion and the Rise of Western Culture. The Classical Study of Medieval Civilization, em 1950.

Aqueles que se interessarem pelo livro podem adquirir uma cópia no site da editora.


Capítulo 1 — Introdução: O Sentido do Desenvolvimento do Ocidente

Neste primeiro capítulo, Dawson inicia tratando de duas características fundamentais relacionadas ao estudo da cultura cristã: a farta disponibilidade de material de estudo — em quantidade muito superior ao que se tem disponível sobre outras culturas — e o fato de ser um conhecimento, para nós, ocidentais, mais íntimo. Nas palavras do autor, “A cultura do Ocidente é a atmosfera mental e emocional que há muito respiramos.”. Conhecemos a nossa cultura também por experiência.

O autor vai mais longe, ao afirmar que qualquer estudo de religião que não leve em conta a vivência interna sobre o nosso passado cristão e se baseie apenas em evidências (por vezes) precárias e parcialmente incompreensíveis de outras tradições religiosas ou de noções abstratas sobre a natureza e o conhecimento religiosos está “… fadado a se tornar incompleto, pueril e irreal.”. A relação entre cultura e religião é complexa, compreendendo ligações entre a vida social as crenças e os valores determinantes do comportamento social e individual, e deve ser estudada de forma concreta, sendo englobada a sua totalidade e abrangência influentes naquela sociedade. Não se trata, portanto, de teoria ou abstração sociológica, mas sim do conhecimento intrincado dessas relações interpessoais e sociais no mundo real.

No que tange a abundância de material de estudo, o cristianismo é raro, por conhecermos profundamente o cenário histórico no qual o cristianismo prosperou e se espalhou pela Europa, com grande evidência documental. O problema, nesse campo do estudo, é o oposto do que normalmente encontramos: há tanto material que a nossa capacidade individual de lidar com tudo é grandemente excedida. Como consequência, esse imenso campo de estudo foi dividido em ciências, as ciências em ramos especializados e, por fim, os últimos em campos de estudo autônomos. Se, por um lado, mais objetos de estudo foram investigados em minúcia, o conhecimento das suas inter-relações, do todo, foi prejudicado. Os historiadores profissionais concentraram-se na pesquisa de fontes e no estudo de documentos, enquanto que os estudiosos do cristianismo focaram nos dogmas e instituições eclesiásticas. A interação criativa entre religião e cultura foi deixada aos historiadores amadores e aos estudiosos das ciências humanas.

O desenvolvimento científico dos últimos séculos, no entanto, não abrandou a necessidade do homem por uma religião e, mais que isso, por uma fé histórica, promotora natural de uma síntese entre o mundo e o sagrado. Todavia, com o passar dos anos, novas ideologias e visões ideológicas da história surgiram, ocupando esse lugar. A doutrina marxista do materialismo histórico e os novos regimes totalitários — como o nazismo, que tenta construir um novo mito para a origem dos povos germânicos, um mito para a união desses povos — mostraram que a história não é o simples acúmulo de fatos, mas sim uma poderosa força modeladora da sociedade. Dawson comenta ainda que, na época (≈ 1950), o voto do europeu já havia se transformado em algo mais que um gesto político: era a afirmação de fé em determinada filosofia social ou teoria da história.

A transferência das questões relevantes da história e para a cultura da sala de estudos para o ambiente político, segundo o autor, não foi consequência do trabalho ativo e intencional da classe intelectual, mas antes a percepção dos atores políticos da importância dessas questões para a população. Para piorar, a especialização dos estudos afastou tais atores políticos do conhecimento científico e filosófico dessas questões e criou a necessidade de especialistas-consultores para essas questões. Os estudiosos, além de se reduzirem a especialistas, perderam a independência e a possibilidade de criticar as ideologias correntes.

C. Dawson começa então o trecho mais longo do primeiro capítulo, no qual o autor apresenta a idéia de que a liberdade espiritual do cristianismo é única, criando condições para o dinamismo observado na Europa. Tal liberdade teria sido fundamental para o surgimento das forças que subjugariam a própria cultura cristã — fato que seria agravado caso ocorresse concomitantemente a um crescente controle técnico do estado sobre a vida e o pensamento das pessoas.

“No sentido moderno da expressão, uma ideologia é algo muito diferente da fé, embora se destine a cumprir as mesmas funções sociológicas. A primeira constitui-se como produto inteiramente humano, um instrumento por meio do qual a vontade política tenta moldar a tradição social para que dela possa se servir. Todavia, a fé aponta para além do mundo dos homens e de suas obras. Ela introduz a humanidade num campo de realidade muito mais alto e universal, em comparação ao mundo finito e temporal ao qual o Estado e a ordem econômica pertencem. Logo, a fé introduz na vida humana um elemento de liberdade espiritual que pode exercer uma imensa influência transformadora e criativa sobre a cultura social dos homens, durante sua trajetória histórica; assim como exerce influências igualmente transformadores sobre a vida pessoal de cada um.”

A importância da liberdade espiritual para o dinamismo observado na cultura europeia e a importância deste para a construção do Ocidente é reforçada através da idéia de que existe uma relação íntima entre a fé religiosa e a realização do indivíduo e da sociedade. A religião, portanto, seria a chave da história, numa citação de Lord Acton.

Ainda sim, à primeira vista, a religião não parece ter o papel central na história da nossa civilização. Um exame mais atento e a comparação com as religiões orientais, no entanto, revela muito. No Oriente, o ideal religioso está ligado à adoração de uma perfeição intemporal e imutável, sendo o poder espiritual imobilizado em uma ordem social sagrada responsável pelo estado confuciano chinês (imutável) e no sistema de castas na Índia, por exemplo. No Ocidente, pelo contrário, ele adquiriu liberdade e autonomia social e, como consequência, a sua atividade não ficou restrita à esfera religiosa, sendo disseminada por toda a vida intelectual e social. Mesmo a cultura humanista do renascimento, muito secular, surge do intelecto de homens medievais — e profundamente cristãos. O iluminismo e as expansões do século XIX também seriam regados por esse manancial sagrado. Afinal, como explicar, por exemplo, tal expansionismo como resultado da agressão imperialista e da exploração econômica? A agressão e a exploração não eram novidades históricas, não podendo, portanto, explicá-lo. Ao lado da natureza agressiva e a ânsia por poder e riqueza de muitos homens da Europa, uma força espiritual trabalhava, os impulsionando pelo mundo.

“ As outras grandes culturas do mundo realizaram suas próprias sínteses entre religião e vida social, mantendo suas ordens sagradas imutáveis por séculos ou milênios. Mas a civilização ocidental foi esse grande fermento de mudança no mundo.”

Um racionalismo histórico “esclarecido”, no entanto, jogou fora toda a idade média, como se fosse uma lacuna gigante entre a antiguidade clássica e o iluminismo e a modernidade. A visão humanista baseou-se somente no ponto de vista econômico. O período inicial da Idade média[1], de fato, foi de pobreza material e de muito perigo, por conta do fim do Império Romano. Mas, nem de longe, foi um período de trevas, apenas. O cristianismo continuou a sua expansão mesmo após a queda do Império Romano do Ocidente [2], em 476, alcançando, por exemplo, a Irlanda, a Bélgica e a Inglaterra. Algo importante que se sedimentou durante a expansão do cristianismo na Europa ocidental, foi o dualismo entre liderança cultural e poder político, diferentemente do mundo bizantino, onde o centro político era também o centro cultural, comum nas sociedades antigas do Oriente.

Segundo Dawson, a independência entre a liderança cultural e o poder político foi um dos principais fatores responsáveis pela grande liberdade e dinamismo da cultura do Ocidente. O dinamismo é a marca do Ocidente.

O autor, então, passa um breve resumo de diversos movimentos de cristianização na Europa Ocidental, destacando a importância da independência entre a liderança cultural e o poder político como fatores responsáveis pela grande liberdade e dinamismo da cultural ocidental, bem como o papel da iniciativa espiritual do indivíduo, que acaba por se beneficiar da amplificação das diversas instituições construídas nesse período — a começar pelos próprios monastérios. Como exemplo deste último fator, são citados alguns exemplos das atividades missionárias de diversos santos. Não é deixada margem para análises sociológicas toscas que colocam grandes entidades ou grupos por trás de certos movimentos históricos, como se vontades e planos surgissem do nada em meio a instituições, permeando as almas de seus membros, simultaneamente, como que por mágica.

Sobre o dinamismo da cultura cristã, é colocado que, embora algum dinamismo seja da natureza de todo processo de desenvolvimento cultural, na Europa, é mais intenso o processo de mudança contínua. Tal intensidade é proporcionada pela permeação de toda a vida cultural da sociedade pelo cristianismo, os seus valores, a sua liberdade e o seu gérmen missionário. Na Europa, há uma sucessão e alternância de movimentos espirituais livres. Apenas com o Império Carolíngio houve a tentativa de criação de uma unidade totalizadora da ordem sagrada, comparável ao da cultura bizantina e aos demais modelos orientais. Foi um fato isolado, entretanto, e fracassou. De resto, na Idade Média, a unidade religiosa imposta pela Igreja nunca se estruturou como uma verdadeira teocracia, uma vez que havia um dualismo entre os poderes espiritual e temporal. Desse dualismo, surgiria uma tensão vital nas sociedades Ocidentais, através da qual surgiram movimentos de autocrítica e mudança. No Oriente, a concepção da ordem sagrada se impunha sobre cada aspecto da vida dos homens, sendo passada e transmitida sem nenhuma alteração a fim de garantir a sobrevivência da sociedade.

No início da Idade Média, tal dualidade era representada através de duas culturas, tradições sociais e mundos espirituais: a sociedade guerreira dos reis bárbaros e a sociedade pacífica cristã. Essa dualidade, de certo modo, permaneceu durante toda a Idade Média e foi o principal motor do dinamismo dessa época. Ela não gerou apenas oposição e conflito, mas foi sublimada, de modo que reis guerreiros se dedicassem ao estudo de filosofia, por exemplo.

O processo de assimilação cultural do cristianismo e transformação das culturas locais continuou por todo o período, operando tanto na consciência individual quanto na formação de novas instituições, deixando a sua marca nas vidas de santos, nas leis de reis, nas cartas dos missionários e eruditos e nas canções dos poetas.

Durante o iluminismo, no século XVIII, o período medieval foi legado ao esquecimento. Pior ainda, foi tido por um período de obscurantismo. Já no século XIX, as tendências nacionalistas europeias recuperaram o estudo do período medieval, idealizando de modo ingênuo povos bárbaros em detrimento da cultura do Ocidente. Por conta das suas consequências desastrosas na Segunda Guerra Mundial, é necessário que se lembre da força do barbarismo, uma força latente, pronta a entrar em ação “… sempre que a autoridade moral de uma civilização perde a sua identidade”.

Com o conhecimento de hoje, é possível compreender melhor a queda do Império Romano, sob a pressão de manter o alto padrão de sua vida urbana e cultural, diante do peso de uma burocracia gigantesca e das invasões e guerras. Também podemos compreender melhor o papel da religião, em toda a Idade Média, na criação da Europa ocidental, como a única força sobrevivente ao colapso da civilização antiga.

Como a religião tem por característica natural elevar o homem à relação com o transcendental e o eterno, foi justamente no fracasso humano, durante a queda do Império Romano, que ela se manifestou com toda a sua força.

[1] Nas línguas latinas, a idade média é dividia num primeiro período, a Alta Idade Média, e num segundo período, a Baixa Idade Média. Nos idiomas anglo-saxônicos, a divisão é feita em Early Middle Ages, entre os anos de 476 e 1000, High Middle Ages, entre 1000 e 1300 e Late Middle Ages, entre 1300 e 1453.

[2] Em 285 DC, o imperador Diocleciano (r. 284 DC — 305 DC) dividiu a administração imperdial em duas partes. Teodósio I (r. 379 DC — 395 DC) coloca o cristianismo como religião oficial do imério e, ao morrer, divide o Império em dois, legando cada um a um dos seus filhos herdeiros. Assim, surge o Império Romano do Oriente ou Império Bizantino, que persiste até a sua queda para o Império Otomano, em 1453 DC. Já o Sacro Império Romano-Germânico é fundado com a coroação de Carlos Magno, em 800 DC, tendo uma linha contínua de imperadores somente a partir de 962 DC, com Otão I.