Os 7951 caracteres de minha vida
“Há Física em qualquer drama humano, seja na explicação das fases da Lua, seja na incompreensão na existência de outro ser.” — Zé, o porteiro.

O celular toca uma música que, aparentemente, tem o dever de me acordar após uma noite de sono semiprofundo, sem que faça muito estardalhaço. Ainda é cedo — 5h de um dia útil — e os vizinhos repousam pacientemente em seus apartamentos. Levanto-me, ora pensando qual crime gera a penitência de acordar antes de o Sol nascer (e após seis horas de sono), ora pensando em como o dia será produtivo: começarei um conceito novo ou explicarei um exercício incompreendido pelos meus alunos e, de alguma forma, um deles finalmente dirá:
— Mas agora eu entendo! É por causa disso que precisamos estudar: para compreender o mundo ao nosso redor e fazer jus aos nossos antepassados que inovaram, descobriram, morreram em nome do novo conhecimento!
(Desculpem. Sempre sonho com coisas absurdas.)
Antes de chegar à cozinha, passo pelo banheiro e tento fixar o olhar no espelho. Não dá. Durante tempos o espelho refletia uma imagem de fracasso e de traumas quase incuráveis. Hoje, eu procuro me encantar com a reflexão da luz, as imaginárias linhas que tracejo entre meu rosto e a superfície do vidro e que explicam o que de fato vejo — o que serviu para mascarar esse encontro e desencontro de personalidades. Escovo meus dentes, observo o ambiente lá fora através da janela. Tudo escuro, perfeito para ver Antares imponente no céu, brilhando no coração da constelação de Escorpião. A temperatura parece amena, coisa de 15 °C, talvez faça calor, mas me corrijo mentalmente, não se deve associar calor e temperatura assim, sem pudores.
Me despido e deixo que a água quente (quente é o seu psicológico!) molhe meu corpo esteticamente fora dos padrões mundiais de beleza. Começo ensaboando todo meu lado esquerdo, não é nenhuma tradição, só uma escolha, em algum lugar a limpeza deve começar e eu continuo, ensaboando, molhando o que resta de cabelos, enxaguando, molhando o rosto, ouvindo o barulho da corrente elétrica atravessando em toda a sua dificuldade a resistência elétrica enquanto os 5400 W de potência estão ligados à rede 220 V para propiciar um banho relativamente confortável e eu mentalmente calculando o consumo de água e de energia elétrica. Fecho a torneira. Seco meu corpo e visto minhas roupas. Dirijo-me para a cozinha, a louça suja jaz sobre a pia; abro a geladeira, a segunda lei da Termodinâmica vem a minha mente, pego o leite e coloco em uma caneca branca, quase a única que utilizo no dia a dia. Programo 1min e 20s no forno de micro-ondas — é uma tradição pessoal este tempo para o aquecimento do leite, da mesma forma que aqueço meu almoço em 1min e 10s — e as vezes me encanto com a capacidade das ondas eletromagnéticas penetrarem os alimentos e agitarem as moléculas de água, de tal forma que depois de alguns minutos eu tenha o meu leite quente, pronto para ser adoçado e nos dias de vacas gordas, misturado ao achocolatado e sorvido junto com bolachas Maria.
Até então eu não pronunciei nenhuma palavra com ninguém. O som de minha voz ainda não foi ouvido por qualquer ser vivo e assim continuará até que eu, após terminar o desejum matinal e escovar meus dentes, pegue meu material, entre no carro e comece uma viagem de 50 km até meu destino. Até que efetivamente pegue a estrada, ouço em alguma rádio um locutor de extrema direita criticando o partido que está no poder a cada notícia que lê para os ouvintes. Algumas vezes exclamo alguma coisa, em outras permaneço em silêncio e desligo o rádio e ouço as músicas que estão no pendrive. Led Zeppelin, The Doors, David Bowie, Raul Seixas, The Killers, The Strokes. Uma sinfonia própria de frequências entre 20 Hz e 20 kHz me encanta e ajuda a continuar vivo em meio as curvas da estrada antiga e da imprudência dos corajosos (?) motoristas. Em alguns momentos chego a fazer algum exercício mental para quantificar os decibéis que saem das caixas de som, mas logo desisto: o Sol começa a nascer no horizonte enquanto um avião voa em elevada altitude, com suas luzes e vetores propiciando o equilíbrio de forças. Em vão, procuro Vênus em sua incansável aparição ao lado da Lua. Em vão, procuro uma explicação para a latência em minha vida.
Chego ao meu destino, estaciono o carro. O relógio avisa: tens vinte minutos, aproveita. Então reclino o banco a uns quarenta graus; mesmo com o cheio do óleo que parece vazar pelo motor do carro, fico deitado, imaginando como seria receber uma SMS de alguém que me diria que sente a minha falta, que tem saudades ou que deseja simplesmente que meu dia seja muito bom. Mas é hora de trabalhar, lecionar aquilo que me encantou durante todo o percurso de vida.
Infelizmente o mesmo encanto não é recíproco, de modo que por mais que me esforce, tudo o que parece ser exibido na lousa, nos resumos, nas piadas é um apunhado de palavras em um idioma desconhecido e desconexo:
- Por que o céu é azul, meus amigos?
Nenhuma resposta. Parece ser absurdo um sujeito como eu questionar a realidade na qual vivem há anos, sem se incomodar com os motivos que levam o céu ser azul.
Apesar de a realidade ser logo ali, compreende-la pode ser muito difícil e muito penoso, de modo que é preferível manter uma visão menos científica — ganhar dinheiro, ser rico, ter seu carro, sua mulher e seus passeios no litoral não dependem, segundo eles, das equações de Maxwell, das leis de Newton, do cálculo módulo da velocidade. Temo não conseguir tirar-lhes a razão, embora toda vez que viaje ao litoral eu observe o mar, suas ondas e os efeitos de maré alta e de maré baixa e sorrio ao ver toda a beleza que existe na atração gravitacional, onipotente e justa, capaz ao mesmo tempo de derrubar uma maçã e de manter os planetas orbitando ao redor do Sol. Eu consigo ver o rei nu, embora a grande maioria demonstre querer me castigar por não conseguir vê-lo da mesma forma.
No intervalo de aulas, um café forte e algumas revisões para as aulas seguintes, na vã esperança de que alguma coisa mude. E não muda. Ninguém vê beleza no fato (e na forma) das ondas eletromagnéticas serem capazes de transmitir informações, dados, voz em frações de segundo. Parece que reproduzem no conhecimento o que o mundo os enfia garganta abaixo, quando deveria ser o contrário, eles enfiando na garganta do mundo o conhecimento que recebem.
No entanto, não os culpo. Acho que falhamos, como sociedade, nesse aspecto e em tantos outros. Falhamos miseravelmente e morremos de vergonha de admitir isso.
Depois de muitas aulas, o último sinal toca. Hora de ir pra casa. Coloco meu material no porta-malas do carro, aciono o motor, olho ao meu redor. Dois pássaros voam ao redor do chafariz da praça, o que me faz recordar de quando descobri o porquê de galinhas não voarem e canários sim. Sei o que faz um pássaro voar, mas não sei explicar porque me sinto tão incomunicável neste vasto mundo.
Visualizo, mais uma vez, a tela do meu celular. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação perdida, dois e-mails com spam. E só.

Viagem de volta, mais 50 km entre subidas e curvas fechadas. Não tenho pressa, não há compromissos sociais para a noite. O Sol começa a se por, Vênus surge lá em cima enquanto aguardo no cruzamento para transpor a rodovia. Encosto o carro, começo a olhar o céu sem qualquer indício de pressa. As estrelas, os planetas, a Lua, todos estão lá, imponentes sobre nossas cabeças. Por um momento, não pensei em nada, apenas observei. Por qualquer motivo ignorável, decidi voltar ao carro e continuar minha viagem.
Sob um silêncio sepulcral, continuei minha viagem até chegar ao meu apartamento. Estaciono o carro, minha boca parece pesar, meu corpo tem dificuldade de obedecer. Entro no apartamento, ninguém me espera com um troféu ou com um beijo com ar de felicidade. Sentei no sofá. E foi então que compreendi: existia qualquer beleza na compreensão do mundo ao meu redor, uma beleza que era anacrônica, sutil, enigmática e absurdamente tentadora. E sorrindo, sussurrei:
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