eu vendo você beijar outras bocas

A escolha de Tsipras

Vou cometer mais um texto sobre a Grécia, sim, assim no calor do momento. A semana anda cheia de reviravoltas: da lua de mel do referendo ao inferno da conferência de Bruxelas do último final de semana. (amg, se você estiver lendo este texto daqui a muito tempo, por favor releve) Parece, meus caros, que babou pro Syriza. A situação já era ruim antes do referendo, mas ficou ainda pior. Nosso amigo Schäuble, ministro da Economia alemão, encostou os gregos na parede e, pimba, complicou. Ao olhar para baixo o abismo da saída da zona do euro, Tsipras titubeou. A saída foi assinar um acordo ainda mais nefasto que o proposto inicialmente. Nunca foi fácil ser de esquerda, amgs. Mas não entrem na onda: não tá fácil pra União Europeia também não. Pelo menos vamos ter muita calma nessa hora.

Permitam-me um aparte. O direito que todos temos de tomar decisões erradas é sagrado. Inclusive foi defendido por aquele jurista insuportável que, por ter uma voz esgarniçada e estridente, foi apelidado de "Águia de Haia". Sim, Rui Barbosa ajudou a consolidar a ideia de Igualdade Soberana entre os Estados na Conferência de Paz de 1907. Pois vejamos: por mais evidentemente mentiroso que este princípio seja, de fato há determinadas posições de autonomia resguardadas pela sociedade internacional. Não é belo? Também acho. Por menor e inexpressivo que seja um Estado, ele não pode ser invadido, agredido, submetido à condição de colônia, etc. Sabemos que tudo isto acontece, mas algo bastante significativo não pode ser feito: um Estado não pode ser destroçado e humilhado em nome dos princípios que a sociedade internacional escolheu para si. Parece pouco, mas é muito. No exato momento que ocorra, podemos muito bem levantar nossos dedos e dizer com todas as letras: opa, opa, opa! isso aí tá errado, filhão! Tipo agora. Pode soltar o grito da garganta e aderir, sem medo, ao coro geral: o acordo foi humilhante, vergonhoso e uma mácula na história da integração.

A Grécia não tem sido o melhor membro da União Europeia, nem da Eurozona, claro. Mas, digamos assim, pra não precisar entrar em maiores detalhes, tampouco a Alemanha foi o melhor país do mundo durante os anos 30 e 40. Hoje tão aí, esbeltos, bonitos, respeitados, industrializados, donos da mais pujante economia do continente, ganhando de 7 a 1 da gente e tal. Isto tudo ocorreu porque a burocracia europeia dos anos 50 entendeu muito bem o atoleiro no qual se meteram: não havia possibilidade de a Europa sair da crise do pós-guerra sem algum tipo de medidas cooperativas. Ninguém abre mão da soberania à toa, de boa vontade. Jean Monnet, principal articulador do projeto integrador da União Europeia, entendeu isto muito bem. A situação era tão catastrófica que não havia alternativa à Europa senão dar as mãos e agir conjuntamente. Tanto foi assim que toda as tretas das guerras franco-prussianas, lá de 1870(que remontam à criação do primeiro Reich alemão em pleno palácio de Versalhes!!!!!!!!! — o sete a um francês, que influenciou a primeira e a segunda guerras) foram momentaneamente deixadas de lado em prol de um futuro de paz. E não é que deu certo? Olha aí, a Europa dando exemplo pro mundo ao longo de quase toda a segunda metade do século XX. Já são quase 70 anos sem guerras entre os caras e isso é, no mínimo, digno de nota. Não são o que já foram, nem provavelmente jamais voltarão a ser o centro do sistema internacional, mas a contribuição deles é inegável. Não precisamos jogar fora o bebê junto com a água suja. Hoje em dia, regimes internacionais de Direitos Humanos e Ambiental, para ficar em apenas dois exemplos, têm nos europeus importantes posturas de vanguarda. Mas quando o assunto é economia, a situação muda de figura.

A ortodoxia econômica é um porre. Mas, hoje, para vocês terem uma ideia, até mesmo o Fundo Monetário Internacional não cansa de dirigir críticas à austeridade excessiva imposta pelo Banco Central Europeu. A Alemanha, enquanto paymaster da zona do euro e, em última instância, principal beneficiada pela artificial desvalorização da sua moeda, parece não gostar muito de ajudar seus aliados necessitados. O Estado alemão é o maior favorecido da zona do euro, enquanto que as menores economias sofrem a falta de competitividade oriunda de um câmbio excessivamente valorizado e falta de autonomia monetária. Esqueçam o economês: o que a Grécia precisa é de uma reestruturação da dívida, não de mais e mais e mais humilhação. Quem diz isso é o FMI, não eu. Enfim, a arquitetura da Zona do Euro é um fracasso, de tal maneira que os ingleses fizeram muito bem em nem entrar nesse barco furado. Na prática, o que a Alemanha pretende é, de um lado, punir a Grécia e, de outro, dar um exemplo a todos os demais. Hoje em dia, a saída da Grécia da Zona do Euro não seria mais um grande desastre para a Europa: o risco de default estava incluído nos juros absurdos cobrados pelos seguidos empréstimos de "salvamento". Com a arma apontada na cabeça, o Syriza teve que ceder. Pra vocês terem uma ideia, o Irã, hoje, conseguiu um acordo com os EUA com medidas menos draconianas do que a Grécia alcançou de seus aliados e parceiros de toda hora.

A partir daqui o que temos é pura especulação. Parece que o Syriza rachou. A ousada tentativa de referendo saiu pela culatra e deve ser utilizada para aumentar ainda mais o ressentimento grego. Não se sabe se o governo de esquerda permanecerá no poder, ou se conseguirá aplicar as medidas draconianas de austeridade. Tem gente com sorriso de orelha a orelha, no bom e velho hate to say I told you so, mas vamos devagar com o andor: os episódios dessa semana remontam à pior face da Europa, uma imagem que por muito tempo achamos estar ultrapassada. É a tutela colonial, daquela que considera que terminados povos não são "aptos" a controlar os próprios destinos. Este é um precedente periogoso. O Syriza teve o mérito, no mínimo, de demonstrar os mecanismos obscuros e questionáveis da hegemonia alemã. Os grandes perdedores disso tudo são os próprios europeus, muito embora as burocracias de seus países ainda não tenham percebido. Não há integração sem o apoio francês, que está claramente indicando descontentamento. O Reino Unido, como se o problema não fosse grande o suficiente, planeja um plebiscito sobre a retirada da União Europeia no ano que vem. O enfraquecimento europeu é evidente, enquanto o Putin tá ali abocanhando a Crimeia. A conferir.

Um último toque sobre a postura da esquerda sobre o tema: sair da zona do euro é o sonho de muitos intelectuais recém experts em assuntos gregos, um mundo da fantasia a partir do qual todos seremos felizes para sempre. Sabemos que não é bem assim. V de Varoufakis foi capaz de esmiuçar em seu livro os mecanismos perversos das finanças internacionais e europeias, mas apontar para caminhos alternativos não é assim tão simples quanto identificar o problema. O mínimo que podemos admitir é: não somos gregos, não sabemos o que é melhor para os caras e, acima de tudo, não seremos nós que arcaremos com as consequências de uma decisão tão importante. A discussão do futuro da Europa e da Grécia interessa a todos nós, mas não é por isso que ensinaremos o padre a rezar a missa. Em última instância, os gregos estão numa situação de derrota inevitável, a partir da qual eles, apenas eles, podem reconstruir os cacos de sua própria economia e sociedade. Mais uma vez, está evidenciado como a esquerda tem dificuldades tremendas de encontrar meios alternativos ao modelo econômico vigente. Eu também sou super favorável a um modelo de poder estruturado desde abajo, com democracia direta, maior representatividade, mas acontece que nada disso pode ocorrer sem um sistema econômico minimamente estabilizado. O Syriza sabe muito bem disso, motivo pelo qual não me canso de respeitar esses caras. Alguém por acaso achou que a tarefa seria fácil?

Enfim, engole o choro. Larga o discurso moralista da traição e vamos em frente.