Mil e Uma Noites de 7 a 1

impossível olvidar a barrinha de rolagem

Assisti ao fatídico jogo de oito de julho de dois mil e catorze na casa dos meus sogros. Feriado, clima de churrasco, tudo certo. À medida que o horário do jogo se aproximava, porém, a tensão aumentava. Eu, contudo, preciso admitir, sentia-me levemente sereno. Deixa ser como será, pensava. Uma Copa tão mal planejada, tão estupidamente cara, com estádios tão estapafúrdios não poderia ser legal. Mas foi. A Copa estava demais. Eu queria que ela não terminasse nunca. O futebol tem um quê de sagrado pra mim, o que o coloca para além de qualquer filhadaputagem extra-campo. Além disso, com relação ao jogo, uma das piores seleções brasileiras de todos os tempos não me deixava adotar o tom de otimismo em momento algum. Poxa vida, mas não tinha sido assim em quase todas as vezes que vencemos as Copas? A minha falta de otimismo apenas acendia uma pequena chance de esperança: poxa vida, estava na cara que essa copa tinha toda a cara de desastre total, mas imagina como seria a comemoração do Brasil campeão mundial em casa? O futebol não é o esporte mais maravilhoso do mundo justamente por questionar a razão e brindar-nos com resultados surpreendentes? É. E ele nos brindou com o resultado mais marcante da história do esporte.

Os relatos que leio daquele dia têm de tudo. Há pessoas que: gargalharam, se deliciaram, gozaram, choraram, se revoltaram, botaram a culpa na Dilma, no Lula, no Aécio, na Veja, nos coxinhas, nos governistas, na imprensa, no Galvão Bueno, no Felipão, na CBF, no David Luiz, no Fernandinho (não eu, o jogador). No meu caso, acho que foi diferente. Eu fiquei anestesiado. No final das contas, passei a fruir cada um daqueles gols que surgiam meio que do nada, em roubadas de bola logo depois da saída do meio-de-campo como quem observa golpes de beleza. Lembrei da época que eu jogava na escolhinha do bairro, com meus 7–8 anos. Éramos todos perebas. Perdíamos a bola exatamente daquele jeito e tomávamos de goleada. Pois fui obrigado a admirar tudo isso que acontecia na tela à minha frente, e que, no fim das contas, eu estava presenciando a história acontecer. O País do Futebol ser humilhado na Copa do País do Futebol — mas não apenas ser humilhado, sofrer a maior humilhação de todos os tempos. Não basta perder, é preciso perder com maestria, perder bonito, acrescentar algumas linhas ali nos livros de história. Meus sogros, minha namorada, meu cunhado adolescente, todos eles extravazaram a revolta naquele momento. Tudo o que consegui foi observar o surrealismo do esporte em silêncio. Naquele momento, eu poderia já ler a quantidade enorme de textos maravilhosos que surgiriam comentando o acontecido daquele dia. Eu era um velhinho de 60 anos explicando pros meus netos como tudo tinha acontecido, como era o mundo antes daquela derrota, exatamente como meu avô havia me contado da Copa de 50. Não foi um momento de angústia, mas de contemplação da enorme quantidade de tempos se chocando bem na minha frente. Eu era a criança comemorando a vitória de 94 no Méier e avô ensinando aos meus netos as lições da derrota na Copa de 2050. Depois daquela ferida narcísica eu sabia que nunca mais seríamos os mesmos. Um brinde ao 7 a 1.

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