O Céu É De Ninguém

sem palavras

No Man's Sky é o jogo do momento. Pela primeira vez, jogos de video-game enfrentarão, de fato, algo da ordem de uma infinitude. Como sabemos desde Cantor, o infinito não necessariamente significa algo que "não tem fim", mas uma experiência mais radical de desmesuramento. Senta aí e lê, se tiver paciência. Os velhos gregos sabiam muito bem que, ao compreender o átomo (um esforço do pensamento, diga-se, até hoje), estávamos no caminho da compreensão do universo. Por outro lado, os mais recentes jogos de mundo-aberto tentam emular as infinitas possibilidades de um personagem que acredita poder se locomover para onde bem entender. Uma falsa verdade, contudo. Sabemos que, em GTA, Assassin's Creed, mesmo Zelda, têm mundos bastante delimitados. Há muros intransponíveis, o código tem um fim, por melhor que seja a ilusão dos programadores em nos convencer do contrário. Mas e se fosse possível um jogo reproduzir esta experiência da infinitude? Como seria?

Os jogos atuais não são mais os mesmos, amgs. Não se trata apenas o DOTA/LoL/Counter-Strike, verdadeiros esportes, hoje jogados quase que profissionalmente por uma série de pessoas. Até mesmo a tendência atual de reproduzir a estética cinematográfica, como em The Last of Us, enfrentam esta última barreira: são jogos fantásticos que, contudo, estão presos ao seu próprio gênero. Hoje em dia, o que me interessa são os jogos que criam as próprias regras e consequentemente o próprio gênero, que desafiam as leis do mercado e das possibilidades, sem deixar de serem populares. O mundo atual é privilegiado porque temos um nome para este fenômeno: os jogos indie. Atualmente, temos condições básicas de tecnologia e financiamento a disposição de criadores independentes de jogos de video-game. Ainda não sabemos, mas pode acreditar: vivemos uma era de ouro nos video-games. É melhor aproveitar antes que termine. São esses criadores responsáveis por mostrar que jogos eletrônicos podem ser algo mais do que parecem: eles podem apontar para algo da ordem de uma experiência.

No Man's Sky é sobre isto: enfrentar o desconhecido, defrontar-se com o inexplorado. Reconhecer que, diante de um universo absurdamente grande (18 quintilhões de planetas), cada experiência de cada jogador será única. Cada planeto é único, criado por algoritmos aleatórios, em tamanho real, com sua própria fauna e flora, de acordo com a proximidade da estrela, poderá contar com vida terrestre, ou estar repleto de lama, ou completamente congelado, ou monstros muito doidos, não sabemos. Este é o ponto. Temos, senhores, a criação de um verdadeiro universo, desconhecido até mesmo para seus próprios criadores. Não haverá regras, não haverá caminhos pré-estabelecidos, apenas o impulso nos direcionando a outro lugar, seja ele qual for. Você pode estar pensando: mas 18 quintilhões é um número determinado, eu posso criar 19 quintilhões, se quiser! (como uma criança, que sagazmente diz "infinito+1"quando confrontada com o maior número do mundo) É verdade. Mas pense nos efeitos: mesmo que milhões de jogadores comprem e experimentem o jogo, é preciso que cada um descubra, por sua vez, outros bilhões de planetas — aqui, o que importa é as consequências de um universo tão grande. Mesmo nosso universo pode ter um fim — não sabemos, é verdade — mas o que importa mesmo é que boa parte dele permanece completamente inexplorada, mais ou menos como será No Man's Sky por um bom tempo. Os criadores do jogo podem não conhecer nada de psicanálise, mas não importa: eles sabem muito bem os meandros do desejo. É a falta que nos faz seguir adiante.

Há vários jogos de exploração. Jogos de pirata, jogos das grandes navegações, jogos de colonização. Mas nunca houve, até então, um jogo que nos confrontou com a experiência genuína do desconhecido. Até No Man's Sky.

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