Amor acima da orientação sexual
Jovens relatam suas experiências de aceitação e os desafios do preconceito na sociedade

Embora a sociedade tenha evoluído em vários aspectos, quando se fala em homossexualidade, ela nos apresenta homofobia e pouca oportunidade de direito à igualdade. Ainda vista como um tabu, muitas pessoas sentem dificuldade de aceitação de sua orientação sexual, seja no meio social ou para si próprio, criando uma insegurança comportamental da qual faz com que muitos não se revelem por receio: sentem-se sozinhos, rejeitados e alvo de críticas.
Luís Rudinei Lopes tem 40 anos, é auxiliar de limpeza e lembra que, nos tempos de escola, foi vítima de agressões físicas e verbais por causa da orientação sexual. “Lembro que eu apanhava no colégio, que eu era a ‘bixinha’ da escola, e aquilo foi horrível. Muitas vezes, desistia de estudar por medo de ser morto. Eu tinha vergonha e medo”, comenta.
O apoio da família é fundamental no momento de descoberta e aceitação, mas nem todos conseguem lidar facilmente com isso logo no início. Lopes comenta que sofreu dificuldade em tratar do assunto com o pai, sendo vítima de violência dentro da própria família “A relação com meu pai não foi uma das melhores. Ele me espancava muito, ele me amarrava, me dava de relho, de chicote. Eu apanhei muito dele”, relata.
Os direitos de igualdade ainda são poucos para a comunidade LGBT e, devido a isso, os casos de homofobia e violência não diminuem. Para Fernanda Bragato, professora de Pós-Graduação em Direito e Coordenadora do Núcleo de Direitos Humanos da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), é preciso desconstruir e desafiar permanentemente os discursos que inferiorizam esses grupos e enaltecem o padrão branco, heterossexual, proprietário. “É necessário questionar a fundo o discurso que converte diferença em hierarquia e encoraja o desrespeito e a opressão, mostrando a que interesses realmente serve”, afirma.
Somente em 2016 foram registradas mais de 343 mortes, entre janeiro a dezembro. Ou seja, a cada 24 horas, um LGBT foi assassinado, o que faz do Brasil o país com recorde mundial de crimes contra as minorias sexuais. Segundo Fernanda, ainda há várias formas de diminuir a violência à comunidade LGBT. “É preciso reconhecer que há homofobia, na mesma senda do que ocorreu com o racismo, feminicídio e violência doméstica contra a mulher. É preciso reconhecer a motivação, agravar as penas e criar estratégias para prevenir atentas à condição de vulnerabilidade das vítimas”, reforça.
Já para o estudante Nicolas Almeida, de 17 anos, foi diferente. O jovem relata que, ao assumir a homossexualidade, teve apoio da mãe e que isso aconteceu de forma natural. “A minha mãe sempre foi uma pessoa que me auxiliou, é minha melhor amiga, quando eu quero contar alguma coisa, ela é a primeira a saber de tudo na minha vida”, comenta.
Para a mãe, Rosilene Almeida, o amor fala mais alto. “Eu acredito que o que mais pesa é o amor, independentemente de tu ser quadrado, redondo. É amor. Se tu ama, tu vai amar de qualquer maneira. E isso é uma escolha dele. Eu vou amá-lo do mesmo jeito e, sendo meu filho, vou defendê-lo com unhas e dentes”, comenta.
A não aceitação da homossexualidade para si próprio pode ser refletida por vários motivos, dentre eles, os princípios que o indivíduo possui. Nelson Castro tem 22 anos, é professor da rede municipal de ensino e conta que não foi fácil assumir a condição. “Na Igreja, eu aprendi muitas coisas, mas eles não falavam a questão homossexual. E pelo fato de conhecer a Bíblia, e de ser tratado não necessariamente só como preconceito, mas sim um pecado, isso foi muito difícil. Eu aprendi que eu tenho que pregar o amor, não interessa de que forma, eu tenho que amar as pessoas. Então foi desse quesito que eu parti para a minha aceitação”, disse.
“Eu vou amá-lo do mesmo jeito e, sendo meu filho, vou defendê-lo com unhas e dentes” Rosilene Almeida
Para Cristiane Loreto da Silva, psicóloga especialista em terapia sistêmica individual, conjugal e familiar, muitos jovens possuem dificuldade de aceitação da homossexualidade pelo preconceito que a sociedade mostra. “A homofobia e o fato de muitos na sociedade considerarem a homossexualidade como algo desviante da norma estabelecida sócio-culturalmente, propicia que os jovens tenham dificuldades em aceitar a sexualidade”, afirma. Na opinião dela, o apoio da família e amigos próximos contribui bastante para a forma como a pessoa se percebe, assim como contribui para a aceitação da homossexualidade.
Temática LGBT é discutida na internet
O assunto também virou pauta de vários canais no YouTube, como o Põe na Roda e o canal do Daniel Bovolento, escritor e YouTuber. Em um dos vídeos postado na plataforma, Bovolento assume a homossexualidade ao público, mas comenta que não foi nada fácil. “O vídeo é um dos mais vistos do canal e teve muito apoio. Muita gente se identificou, elogiou a coragem, brincou que perdeu o crush. Muita gente também parou de me acompanhar (no mesmo dia, o canal perdeu um número considerável de seguidores). Mas foi a decisão mais acertada e feliz da minha vida”, disse.
