Sobre o “fenômeno do empoderamento” na visão de quem foi salva por ele
Daniele Cavalcante
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Olá, Daniele!

Eu não teria o direito de ficar bravo, ofendido ou reprimido com as coisas que escreveu. Seus apontamentos e críticas são excelentes para o debate e, não é porque contestam e às vezes se opõem à minha visão, que eu ficaria desapontado. Pelo contrário, cada consideração me fez refletir ainda mais, me instigou a continuar a pensar sobre o assunto, de uma maneira mais abrangente. Por isso eu agradeço pelo comentário.

Seria possível dizer sobre o lado positivo de todos os temas que foram tratados no texto ou ao menos tentar explorar novos caminhos e possibilidades. Sobre o empoderamento, o qual eu trato como um fenômeno de afirmação identitária e necessidade constante de demonstração de valor próprio, seja como medida de resistência e/ou superação de imposições e conquista de espaço, poderia falar do quão importante ele está sendo para pessoas trans, mulheres, gays etc, se fortalecerem, individualmente e uns com os outros. Sobre o advento dos avatares virtuais, poderia dizer o quão inofensivos são, e de que o problema não está nos avatares, e sim no uso que nós fazemos deles.

Mas não. Preferi reduzir a um enfoque que se estendeu, até o fim, para o lado inferior e maldito do tema, sem apelar pra nenhuma orientação ou contraposições animadas. A única orientação que quis dar é a da reflexão do lado ruim da coisa.

Veja só como a forma que abordei os assuntos no texto está diretamente ligada às minhas experiências de vida.

Nos últimos quatro anos, trabalhei com redes sociais e fui um entusiasta forte das novas tecnologias. Em vários aspectos, ainda sou. Mas me surgiu, de hora pra outra, um raro e estranho desinteresse e uma saturação que culminou numa leve necessidade de se desligar um pouco das mídias. Coincidentemente, na mesma época meu celular quebrou e fui obrigado a ficar quase um mês sem nenhum aparelho. Fazendo raro uso de qualquer rede social e sem celular, tive uma experiência curta, de algumas semanas, que me abriu a possibilidade de reflexão profunda sobre o impacto que as novas tecnologias de comunicação estão fazendo em nossas vidas. Eu andava nas ruas, pegava transportes públicos, esperava nas filas, subia os elevadores, dormia e acordava sem a interferência do celular e sem o escape de ter que, de momento em momento, acessar alguma coisa por ele. Chegava em casa e não ligava o computador. Fazia qualquer coisa que fosse sem ter que dividir o tempo com o mundo virtual. Nas ruas, sem ter os olhos e mãos ocupados, pude analisar mais o comportamento das pessoas, uma do lado das outras, mas atuando apenas no mundo intangível dos celulares. Foi preciso que eu me afastasse da vida virtual, ou sendo mais preciso, me desligasse da rede por um tempo, para começar a considerar seu lado nefasto.

A visão negativa não é a única possível. O fenômeno das selfies, por exemplo, eu não diria fascinante, mas, sem dúvida, interessante em vários aspectos. Agora sobre a visão que dou estar saturada, já não acho. Quando eu era só um entusiasta, social media, heavy user, também achava as críticas saturadas. Oscilei na questão e hoje volto a considerá-las válidas. Agora a intenção é me esforçar para conseguir solidificar e distinguir de maneira cada vez mais clara os aspectos bons e ruins de todas essas mudanças de impactos tão profundos na sociedade.

E sobre sobre felicidade… já que é um troço tão subjetivo, vou considerá-la sendo o que a ciência considera: apenas alterações químicas no nosso organismo que nos trazem sensações de bem-estar. Sendo assim, só posso achar que não: selfies e ego não só não mudam nosso conceito de felicidade como, salvo raras exceções, não contribuem no aumento da felicidade de ninguém; portanto, sim: elas podem ser ruins assim como apontei no texto.

Se felicidade é simplesmente sensação de bem-estar, eu, particularmente, percebo que quando sou feliz de maneira mais intensa é exatamente quando estou desapegado do maior número de coisas. Quando me livro da obrigação das coisas e da obrigação de mim mesmo, de ser eu mesmo (por isso vinculei tanto à ideia de vaidade). Se só sou alegre quando não tenho a consciência plena de mim mesmo, logo serei mais alegre ainda se não precisar ficar me olhando pelo espelho virtual quase a todo momento. Viver boas horas do dia em função dessa nova vida virtual é prerrogativa de que as necessidades consequentemente aumentaram. (Afinal, quem hoje vive sem celular ou não tem pelo menos uma rede social?) E, segundo o que acredito, quanto mais as necessidades aumentam, mais eu sofro.

Por isso que, se há caminho a indicar, o caminho é o do desapego de coisas. Não o total, mas pelo menos, que seja, um pouco da infinidade de coisas que temos e das quais acreditamos serem necessárias. Roupas, sapatos, cosméticos, comida, carros, aparelhos celulares e redes sociais também, por que não? Porém, hoje, quantos jovens ou mesmo adultos têm sido capazes de ficar pelo menos um mês vivendo a experiência de um ‘desligamento virtual’? As novas tecnologias, em menos de uma década, tomaram tempo precioso de nossas vidas, alavancaram os acontecimentos para um mundo inimaginável para qualquer época, e o problema nem é de fato a mudança em si, mas a falta de análise crítica sobre ela, de falta de distanciamento mínimo para podermos avaliá-la.

Não sou ninguém para falar que as selfies não salvaram sua vida. Se está falando que sim, é então porque salvaram, e você, como outras pessoas em mesma situação, foram corajosas e inteligentes. Tiveram capacidade de tirar o melhor proveito possível e são exemplos vivos de que nem tudo é só problema. Parabéns por isso.

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