Deixe de ser frango, Galo

Sei que a semana foi cheia e você quer descansar, Galo. Fachada nova na sede de Lourdes, lançamento da camisa 2016, estreia na Libertadores com uma vitória fora de casa. Foi um turbilhão de emoções, eu sei. Também vivi todas elas. O problema é que não tô feliz. Então me faz um favor e senta aqui. A gente precisa conversar.

Não sei se você reparou, mas a Elen Munaier e mais outras 20 mulheres fizeram uma nota de repúdio a uma atitude sua. Foi pelo desfile de apresentação do uniforme e por sua passividade “em relação às atitudes machistas dentro e fora do estádio”. Rendeu bastante esse caso, aliás.

Quando vocês receberem o clipping no final do mês, verão que saiu um monte de matérias sobre o assunto. O SporTv trouxe a Vanessa Riche pra discutir, a ESPN deu 7 minutos dentro do Bate-Bola e o Mário Marra também se posicionou. O Duke fez sua charge, saiu no Brasil Post e até mesmo no blog do rival. Tem muito mais do que isso. Você vai ver tudo no clipping.

E se pergunto se você reparou é porque até agora não se dignou a soltar uma nota em seus canais oficiais. Twitter, Facebook, Instagram, Tv Galo e site estão calados com relação a isso. O máximo que você se fez foi uma nota à imprensa que podia ser resumida em um emoticon: ¯\_(ツ)_/¯

Pra completar a desinformação, seu diretor de comunicação, o Domenico Bhering, não anda em seus melhores ânimos no Twitter e parece desconhecer (ou ignorar) o tamanho do problema que tem em mãos. Sabe como se chama isso? Despreparo geral.

O absurdo da situação já foi todo escancarado pelas moças, então não cabe a mim mostrar isso pra você. Escute elas. São as que têm razão nesse caso.

Nem era difícil colocar um short nas modelos — Foto: Bruno Cantini/Atlético

Toda essa pataquada só ajudou a mostrar uma coisa que todo mundo já sabia, que a briguinha com o rival pelo título de “time do povo” é só da boca para fora. Está certo que levar moradores de rua para o estádio foi uma atitude legal, mas foi a única feita até agora. E você teve a oportunidade de realmente fazer algo pelo povo, pelas mulheres que vão ao estádio gritar e ficar roucas em apoio ao time. Não fez nada e ainda menosprezou a crítica delas.

Aliás, não só por elas que você não faz nada. Outra coisa que acho que você não reparou até agora é no grito de “OOOOOOOOOOOOOOOOOOO BICHA” quando o goleiro adversário bate um tiro de meta. Ele acontece todo jogo. É homofóbico. É babaca. É desrespeitoso. O que você fez com relação a isso? Nada. Enquanto a CBF não punir (o que, convenhamos, dificilmente vai acontecer — embora a Fifa já esteja de olho), você será conivente.

Logo você, que teve uma oportunidade única de levantar essa bandeira. Lembra da Galo Queer, aquele movimento anti-homofobia e anti-sexismo no futebol? Ele ainda tá na ativa, lutando para que coisas como gritos de “OOOOOOOOOOOOO BICHA” não aconteçam e para que homossexuais e mulheres heterossexuais possam frequentar o estádio sem sofrer preconceito ou assédio.

Não é nada de outro mundo, sabe? As pessoas só querem ser respeitadas pelo que são. Querem que o clube do coração entenda isso. Que fique do lado delas quando precisarem. Que deixe elas participarem das atividades do dia a dia. Que tenham produtos voltados para elas. Que sejam vistas como as apaixonadas que são.

Sabe o que é melhor? Você, mais do que ninguém, está em uma posição privilegiada para fazer com que isso aconteça. Apoiar as mulheres não vai fazer com que o bando de marmanjo que hoje xinga e ameaça as moças que escreveram a carta de repúdio te abandone. Eles nunca vão fazer isso. Como disse o Drummond (o Roberto, não o Carlos),

“A gente muda de tudo na vida. Muda de cidade. Muda de roupa. Muda de partido político. Muda de religião. Muda de costumes. Até de amor a gente muda.

A gente só não muda de time de futebol, quando ele é uma tatuagem com as iniciais CAM, de Clube Atlético Mineiro, gravada em nosso coração. É um amor cego”

Quem decidiu entrar nessa disputa besta para descobrir quem é o “time do povo” foi você. Agora é preciso mostrar que não é apenas um slogan bonitinho e sem profundidade. É preciso assumir as consequências do que isso quer dizer. Deixar de ser frango e virar o Galo forte e vingador que tanto nos orgulhamos.

Você tem a chance perfeita para fazer história. Cabe só a você decidir se vai ser esse tal “verdadeiro time do povo” que tanto você estampa por BH.

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