não adianta tentar consertar
não sei se é possível encontrar algo que eu ainda não tenha tentado fazer para que a dor passasse

eu já tentei sair da cama, do quarto, de casa. eu já tentei fazer algumas coisas que importam e outras que nem tanto. eu já tentei — e consegui — encontrar um amor que me faz feliz. eu já tentei, e continuo tentando, ir à terapia. eu já tentei me entorpecer rotineiramente, fazer da ebriedade parte do cotidiano.
hoje mesmo eu tentei afogar a tristeza nos longos goles de vinho barato e queimar a soturnidade da alma com a fumaça do cigarro.
mas não adianta. o desconforto da existência resiste enquanto a minha cabeça fodida insistir na paralisia que decorre da depressão. viver cansa, machuca, pesa e dói. por isso, não adianta.
nada adianta. nada é capaz de resolver o problema porque enquanto eu permanecer sendo, eu vou ser obrigado a conviver com a angústia que é sentir que existo sozinho.
não adianta. eu não tenho conserto.
