Parte 01 –“O Êxodo”


JAMAIS

Leonardo Gonçalves

É que a gente sofre tanto por tudo que se desfaz

O infinito é tão distante pra frente ou para trás

Dele é o tempo

Deus infinito é

O dono de tudo

Mas chegará o tempo em que não morrerei

Jamais

E o tempo me deixará em paz

O antes e o depois não importam mais

O infinito é quantidade pra quem olha pra trás

Mas também é virtuosidade do Pai

Mas chegará o tempo em que não morrerei

Jamais

E o tempo me deixará em paz

O antes e o depois não importam mais


Capítulo I — Sítio do Riacho, 1948

– Quando eu casei com Manezinho, Sá Himina veio nos visitá e trouxe essas bolachinha de rapadura. Mas era tão gostosa, Cotinha! Foi aí que eu pedi logo a receita! Tu quer aprender, pra fazer em tua casa, pra Euclides?

– Quero sim, mãe.

– Minha fia, é assim: Tu pega dois tijolo de rapadura do engenho. Pode ser da batida, que é mió. Aí tu prepara um melado: pica com uma faca e quando acabá derrete no fogo, com uma cuia de água. Adispois tu vai colocando os adubo: erva-doce, cravo e canela. Quando acabá tu despeja o leite de coco espremido no pano e o fermento. Aí, minha fia, tu vai batendo e acrescentando o leite da vaca e meio litro de farinha de trigo. E bote uma pitada de sá, visse? Senão num presta. Quando acabá, tu enrola as bolinha e achata com um gaufo. Aí tu bota num tabuleiro untado e enfarinhado e assa no forno à lenha, até ficá douradinho.

– Mãe, é aquela bolacha que tu adora? Vamos fazer hoje pra Euclides e papai, pra eles comerem com café, quando chegarem da Casa de Farinha?

– Minha fia, tu é que vai fazer. Eu tenho que ir no roçado, catar mandioca. Tu faz as bolacha. E adispois vai descansar, que esse teu bucho tá ficando baixo. Esse menino não vai demorar a nascer não, minha fia! E pede pra Antônia te ajudar, olhando Izabé.

– Mas mãe, eu tô de sete meses! Será que meu filho vem antes da hora?

– Eu pari foi dez, Cotinha! Tu acha que não acerto a hora que os bichinhos vem vindo? Esse teu aí não espera outra lua não!

– Mãe, a senhora acha que eu vou ter um menino? Se for homem, Euclides quer que o nome seja João Batista, por causa da promessa que a senhora fez quando ia ganhar Bebé. Se for mulher, ele quer botar meu nome: Maria da Penha. Já viu isso? Que invenção é essa de Euclides?

– Pois tu obedeça teu marido, visse? Por módi que Euclides é o fio que eu não tive, mas que Deus mandou pra alegrar o coração de tua mãe. Se ele quer o teu nome na menina, é por módi que ele te ama, minha fia!

– Mãe, e essas bolachas de rapadura? Será que eu acerto fazer, mãe?

– Se tu errá, eu faço uma matula e mando tudinho pra Sá Himina! — Juvina e Cotinha soltaram uma gargalhada gostosa. Cotinha se levantou da mesa do café e começou a separar os ingredientes, enquanto sua mãe já pegava as ferramentas do roçado.

Àquela hora da manhã, Juvina já havia feito muita comida naquele fogão. Já eram quase sete horas. Manezinho e Euclides saíram às cinco, para fazer as entregas na cidade — frutas e legumes para serem vendidos no armazém de compadre Duca. Os dois encheram a carroça e partiram cedo para a cidade.

Quando Manezinho se levantava, Juvina já havia cozinhado uns jerimuns de pescoço, bem maduros. Aí os “botava” numa cuia com farinha, “machucados com um gaufo” e amolecidos com leite de coco, e a dava para Manezinho, que a levava para o curral, onde ele tirava o leite direto da teta da vaca. O leite caía espumando sobre a abóbora fumegante e inchava por causa da farinha.

Ali mesmo, ao lado da vaca, sentado num toco de madeira, Manezinho enchia a pança, antes de pegar no batente. Naquele dia, Euclides estava ao seu lado e participou daquele desjejum peculiar. Logo depois, foram para a cidade, fazer as entregas à venda de compadre Duca.

Depois era a lida na Casa de Farinha: ralar aquele tanto de mandioca, jogar a massa na prensa, para tirar o caldo, secar, passar na peneira e levar para a torra. É claro que os empregados eram parte integrante desse processo, mas nada acontecia sem a supervisão de Manezinho. Euclides, seu único genro, era seu braço direito ali. José Rodrigues, o filho de Manuel com a outra mulher, havia saído no ano anterior da casa de seu pai, para se casar com Carmelita. Então Manuel agora só contava mesmo com a ajuda e parceria de seu genro querido, que também era como um filho para ele. Além de José, Manuel só teve mais um filho homem, Antônio. Pena que o bichinho não vingou! Morreu novinho, quatro dias antes de completar um ano, acometido de tifo. Mas essa história será contada a seu tempo!

Capítulo II — Cruz das Armas, fevereiro de 1954 — Seis anos mais tarde…

O cheiro gostoso e inconfundível da carne torrada enchia toda a casa naquela bonita manhã de domingo. Juvina chamava assim aquela carne que era assada pingando água pacientemente, até formar uma crosta espessa e incrivelmente saborosa no fundinho da panela, a famosa “graxa”. Era a véspera da viagem para o Rio de Janeiro. Juvina se esmerava no fogão, para que não faltasse comida na matula. A carne torrada seria ideal para preparar os vários sanduíches. A provisão teria que ser suficiente para os dois dias de viagem e alimentaria oito pessoas, incluindo o bebê.

– Bita, onde tu tá, minha fia?

– Ajudando Cotinha, mãe! Miúda se mijou todinha de novo. A bichinha bebe água demais e não tem fralda que sustente.

– Apois eu quero Cotinha aqui comigo! — O regionalismo, misturado ao semianalfabetismo de Juvina, era traduzido num linguajar quase poético, pois pintava sua vida nordestina com as nuances de um novo idioma, fruto da mistura de gerações que trouxeram culturas e ensinamentos perenes.

– Vá chamar Izabé e Penha pra olhar Miúda, Bita! Elas foram brincar na rua com Nina, Penha e Paquinha — pediu então Cotinha. E, voltando-se para a mãe, indagou: — Mas Mãe, tu não chamasse foi Bita?

– Minha fia, eu não tô boa do juízo, não! Eu quero é que Bita pegue logo o baú do dinheiro e deixe aqui nas minhas vistas. Pelo amor de nosso Sinhô! Todo o dinheiro de Manezinho tá nesse baú. E eu quero separar as bagagens cedo, porque o ônibus de Mané Fortuna vai sair de madrugada pro Rio de Janeiro.

– Minhas áima! Pelas sete chagas de Cristo! Mãe, não é melhor colocar esse dinheiro no fundo da mala?

– Se aquiete, Cotinha! Mexa aqui esse pirão, que minha carne vai queimar. Eu não dou conta de fazer tudo sozinha, criatura de Deusu! Biiiiita!

– Pronto, Mãe! As meninas já foram olhar Miúda. — Respondeu Bita, meio esbaforida — João Batista tá junto delas também. Não se preocupe. O que é que a senhora quer?

– Minha fia, separe tudo que é de valor, nossos anéis e joias, e coloque no baú junto com as economias de Manezinho. Aquele colar e as aliança, que foram de Amália, tá no fundo de minha gaveta, dentro de uma caixinha de madeira. Coloque tudo junto, visse? Depois deixe aqui nas minhas vistas. Coloque o bauzinho no canto, do lado da cristaleira, junto com minha bolsa da feira.

– Suas coisas também, Cotinha? — perguntou ingenuamente Bita. — Tu quer botar junto a aliança de Euclides?

– Deixe que meus pertences eu mesma arrumo! Vá cuidar do que Mamãe falou, Bita! — respondeu Cotinha. — Mãe, a galinha é pro almoço; a carne é que vai na matula, né?

– Minha fia, a carne nós vamo butá no pão que Manezinho vai trazer da venda de cumpádi Duca. Quando acabá nóis arruma na matula e faz uma farofa da graxa que ficou na panela. E o pirão mais a galinha é do aimoço. Quando esse pirão engrossar, tu vai lá no galinheiro e pega uns ovos pra acrescentar nessa farofa, visse?

– Mãe, vamos fazer biju? É sequinho e sustenta na viagem.

– Minha fia, Manezinho não vai comprar raiva na feira? — Raiva era um biscoito de goma seco, feito de tapioca, que não tinha quase nenhum sabor, mas enganava bem a fome. — Tu acha que vai precisar do biju? Só nóis duas trabalhando, minha fia… Não vamos dar conta de tudo não…

– Então vamos servir essa comida pras crianças, pra botar logo a mão na massa. Vou lá buscar os ovos, sim? — Nessa hora, Cotinha se lembrou de que as galinhas tinham nome… Não tinha jeito de carregar as bichinhas na bagagem… A nova proprietária da casa, Dona Geralda, herdara também a criação. Essa era a última vez que Cotinha colhia os ovos fresquinhos no galinheiro da casa da cidade. Era a última comida preparada na Rua França Leite… E as galinhas de Penha? A bichinha iria ficar inconformada de não as poder levar…

Então Juvina percebeu a angústia nos olhos de sua filha. Quando ela saiu, Juvina levantou os braços, suplicando ao Senhor que cuidasse do galinho de estimação e da galinha mais querida de sua neta.

– Será que dona Geralda vai cuidar bem de Tiquinho e Biá? Oh, meu Pai! Nóis vamo simbora! Vai ficar tudo aí pros outros, meu Deusu?

Naquela hora, Juvina pegou o pano de prato e cobriu os olhos, ocultando o choro, enquanto segurava a colher de pau com a outra mão, suja de pirão. A mistura de aromas naquela pequena cozinha, se comparada às outras, dos Sítios de Riacho e Mumbaba, era simplesmente incrível e apetitosa, mas tudo estava ficando para trás. Havia pressa em viajar, encontrar as filhas, socorrê-las… Principalmente Antônia, que estava perdida e desorientada sem o marido.

Ao perceber os soluços, Bita entrou na cozinha e viu sua mãe chorando.

– Mãe! Não fica assim, minha mãezinha! — E logo as lágrimas encheram também os olhos de Bita. — Deus vai cuidar da gente, não vai, minha mãe?

– Vai sim, minha fia!

Então Bita lembrou-se de seu noivo. Eles não tiveram coragem de tomar nenhuma atitude. Bita não teria coragem de ficar sozinha em João Pessoa, para que pudessem se casar. E sua mãe jamais concordaria com essa ideia.

– E o que vai ser de Aprígio, mãe? Ele não vai querer ir atrás de mim! Será que eu devolvo a aliança pra ele, mãezinha?

– Minha fia, se ele te ama, vai dá um jeito de te encontrar. Entrega ele nas mãos de Deus e confia.

Naquela hora, Cotinha entrou com os ovos e viu as duas abraçadas, chorando. Colocou a cestinha de ovos em cima da bancada da pia e se agarrou às duas, aumentando os soluços. Era um choro de medo, incertezas e muita saudade de toda uma história que ia ficando para trás.

Perto de meio dia, Manezinho chegou da feira com as compras que Juvina pedira: biscoitos e outras guloseimas para as crianças; aquele bolo gostoso, feito na palha da bananeira, o chamado “pé de moleque nordestino”; e a bolacha de rapadura, que Juvina tanto gostava — aquela cuja receita sua sogra, Sá Himina, ensinou-a, logo que se casou com Manezinho.

Aquele dia foi cansativo demais para Juvina, Manuel e suas filhas, Cotinha, Bita e Izabel. Na verdade, Izabezinha mais brincou com Penha, João Batista e os vizinhos — Nina, Penha e Paquinha — do que ajudou. O clima da mudança era triste demais, pois seria definitiva, porém não havia outra escolha. Não havia mais o Sítio, nem a Casa de Farinha, nem o roçado. O que esperar de João Pessoa? A casa da cidade, na Rua França Leite número 24, no bairro de Cruz das Armas, fora vendida a preço de banana, para a senhora Geralda, mulher de Seu Severino, a dona do restaurante onde Dinga trabalhava. Uma bagatela. Era o único bem que lhes restara, mas era melhor vendê-la do que ir embora sem nenhuma outra economia. Zé Coxo, o marido que abandonara Antônia, acabara com muita coisa, apostando nas mesas de jogo. Perdia hoje, perdia novamente amanhã… Comprometia o que tinha e o que não tinha. E quem arcava com o prejuízo? Seu sogro, Manuel.

Quanto às suas filhas Nega, Dinga e Antônia, naquela cidade desconhecida do Rio de Janeiro, Juvina só tinha certeza de uma coisa: não iria deixar sua família se separar. Ela queria todo mundo junto dela. Era o seu povo. Sua parentela. Por isso não existiriam barreiras que pudessem afastá-los. Fosse para o bem ou para o mal, ela estaria junto deles. Só a morte a faria desistir. Enquanto tivesse forças, ela ajuntaria seus pintinhos, debaixo de suas asas.

Capítulo III — No ônibus de Manoel Fortuna: João Pessoa / Rio de Janeiro

Ao lado de Bita, sentou-se um rapaz muito bem vestido. Ele percebeu que ela trazia uma aliança na mão direita, mas ainda ousou questioná-la:

– Permita que eu me apresente! Meu nome é Gaspar. Qual é a sua graça?

– Anita. — Nesse instante, Juvina olhou para trás, de rabo de olho, e Bita percebeu na mesma hora a reprovação de sua mãe.

– Vosmecê está de casamento marcado?

– Ora essa! Isso não é de sua conta!

Então ele notou que Juvina torceu o nariz para o lado, entortando a boca. Esse era um forte sinal de desaprovação, bem comum para ela. Hora de evitar confrontos!

– Cotinha — gritou Juvina -, dê João Batista pra ir no colo de Bita! Cuma é que tu vai viajar com duas crianças no colo?

A vontade de Juvina era colocar Bita ao lado de Cotinha, mas lá estava uma senhora galega com um menino, ocupando o lugar. A irmã daquela senhora, que estava indo com ela para ajudar, ocupava dois lugares, atrás de Cotinha. Como bons nordestinos, a história de cada passageiro já ia sendo contada, junto com as apresentações e cumprimentos de cada um deles.

– Deixe o menino aqui, dona Juvina. — disse a jovem senhora. — Ele vai brincando com meu filho e eu sento no banco de trás com Judith, minha irmã.

– Não, minha senhora! Eu agradeço, mas eu quero ele no colo de minha fia, ali atrás, pra evitar confusão na estrada. Prometi a Seu Mané Fortuna que não ia ter birra nem deboche de menino dentro do ônibus, que é pra não atrapalhar o motorista. E que Deus o livre de se distrair nesse volante!

É claro que Juvina falou bem alto, quase gritando, para que Bita e Gaspar escutassem. Assim, Bita se apressou em levantar e foi lá na frente buscar João Batista, que resmungou um pouquinho, mas foi, em obediência à matriarca.

Quando Bita retornou com o sobrinho, Gaspar tratou logo de se desculpar com ela, pelo atrevimento em querer saber de sua vida particular, mas a conversa continuou, durante a viagem, com as devidas resistências de João Batista, que cobrava constantemente a atenção de sua tia. Até que a companhia de Gaspar era bem agradável, e Anita percebeu que ele era um homem respeitador.

Enfim, o ônibus partiu, deixando para trás uma história de muitas gerações, toda a família e ancestrais de Juvina e Manuel. Os Trajano dos Santos, antecessores de Juvina, e os Rodrigues da Silva, de Manuel.

Para trás ficaram muitas saudades, lembranças alegres e tristes… Anos de fartura e produção. Derrotas e perdas. Vitórias e conquistas. Da aldeia da Mata Atlântica, de onde viera a índia, Sá Joaninha, mais conhecida como “Maria Coitadinha”, bisavó de Juvina, até a Casa de Farinha de Manezinho e sua derradeira torra de macaxeira… De fato, tudo isso ficou para trás.

Novamente Juvina cobriu o rosto com o paninho que trouxera, enquanto o ônibus de Seu Manoel Fortuna ganhava estrada e se afastava cada vez mais daquela terra tão bonita e abençoada. Manezinho ficou quieto em seu lugar, apenas tirou o chapéu da cabeça e o encostou em seu peito, como um sinal de profundo lamento, por deixar sua terra natal.

– Assim que puder, nóis volta, Juvina! Vamos socorrer as meninas, ajuntar um bom dinheiro e então nóis traz todo mundo de volta.

Juvina escutou calada e assim permaneceu. Apenas chorava baixinho e já começava a lutar contra uma forte náusea que a castigava, cada vez que o ônibus fazia uma curva ou dava uma freada. Assim se passaram as primeiras horas daquela fatídica viagem…

Capítulo IV — A menina adivinhadora

Penha nascera de sete meses. Foi um parto prematuro e arriscado, principalmente porque sua mãe estava sozinha com seu pai, sem a ajuda de alguém experiente. Já era de madrugada e Cotinha entrou em um trabalho de parto acelerado, sem dar chance a que seu marido pudesse pedir ajuda. Euclides fez o que pôde, mas o trabalho foi praticamente todo de Cotinha…

No entanto, algo inusitado aconteceu naquela noite. Logo depois de deitar-se para dormir, Cotinha escutou um som, que saía de dentro de sua barriga. Parecia um chorinho engasgado de bebê.

– Euclides, tu tá escutando? — mas Euclides já estava dormindo e Cotinha ficou sem graça de acordá-lo.

Não demorou muito para que ela escutasse uma segunda vez aquele barulhinho abafado, difícil de decifrar… Cotinha sentia que era como um sinal de que alguma coisa estava para acontecer.

– Euclides, meu nego, tu escutasse?

– O que é, minha filha? Deixe eu dormir, mulher!

Ainda um terceiro gemido fez com que todas as chances de Euclides dormir terminassem ali.

– Euclides! Tu não tá escutando não?

– Escutando o quê, Cotinha?

– Eu acho que meu filho chorou na barriga!

Ele disse: — Mas isso não é possível!

– Chorou sim! E eu escutei três vezes!

Cotinha ficou apavorada e, apesar de ser bem tarde, pediu que Euclides fosse chamar sua mãe, que morava na casa ao lado. Juvina veio, mas não escutou mais choro nenhum…

Depois que todos se recolheram, às duas horas da madrugada, Penha nasceu. Foi um parto prematuro. Euclides, seu pai, foi quem ajudou na hora do parto. Ela nasceu tão pequena, que sua mãe falava que ela cabia inteira na mão de seu pai, Euclides, passando apenas três dedos!

As camisolinhas do enxoval tinham que ser dobradas duas vezes para embrulhar a bebezinha! Penha era tão pequenina que caberia numa caixa de sapato e ainda sobraria espaço… Ninguém dava nada por sua vida… Todos achavam que ela iria morrer.

– Antônia, minha fia! — disse Juvina, agoniada com o chorinho fraco da menina — Corre e vá chamar Cumádi Cristina, pra dar uma olhada em Penha! Essa menina é muito pequena, meu Deus! Adispois vamos juntar suas irmãs pra nóis fazer umas reza pra ela, visse?

Cristina era a parteira que ajudou Juvina a ter quase todos os seus filhos. Conhecida de longa data, era sempre indispensável quando alguma vizinha estava para dar à luz.

Quando Cristina chegou, Juvina tratou de dar o relatório completo para ela.

– Cumadre Juvina, essa menina vai ser adivinha!

– Que história é essa, dona Cristina? — replicou Cotinha.

– Pois então! Tua filha não chorou de dentro da barriga, antes de vir ao mundo, Cotinha?

– Foi o que eu escutei! E não foi uma vez só, não!

– Entonce ela pode virar uma adivinha, se a primeira roupinha dela for vermelha.

– E não é que eu fiz um vestidinho vermelho mesmo, dona Cristina?

– Apois! Isso é o destino, minha Fia! Coloque primeiro uma roupinha vermelha nela! Quando ela crescer, mostre várias roupinhas, incluindo essa vermelha, e pergunte à menina qual foi a primeira que ela usou. Se ela acertar, saiba que será uma grande adivinha! Tudo o que acontecer ela vai adivinhar! Mas tome cuidado! Se o Governo souber disso, vai querer levar a menina…

Quando a notícia do “choro na barriga” se espalhou, as pessoas começaram a assustar Cotinha, dizendo que, se as autoridades do Governo soubessem que ela havia feito tal façanha, iriam levar sua filha, talvez para ser uma informante governamental!

Cotinha ficou muito impressionada e escondeu a roupinha vermelha que havia feito com tanto carinho para sua filha. Essa ela nem usou!

Capítulo V — Paulino e a moça da Capital…

Manoel Fortuna dirigiu o dia todo, desde às cinco horas da manhã, hora que o ônibus havia partido. Eles fizeram uma parada para o almoço. Foi então que Paulino, o motorista auxiliar, conheceu Rosário, uma das passageiras, que estava retornando de um período de férias, de volta à Capital. Ela havia acabado de se formar no curso de enfermagem da Escola Anna Nery, no Rio de Janeiro. A moça alimentou a curiosidade do motorista por algumas horas, depois que ele assumiu a direção do ônibus, no lugar de Manoel Fortuna. Mas, de repente, parece que havia se cansado da fala errada do rapaz e começou a querer humilhá-lo…

– Sabe, Paulino, assim que chegar ao Rio, vou atrás da minha Associação. Esse ano ela passará a se chamar ABEN — um sorrisinho no canto da boca revelava orgulho nas palavras da moça, quase em tom de provocação ­-, Associação Brasileira de Enfermagem. 1954 será um marco na história de enfermeiras, como eu!

– E vosmecê pensa em vortá aqui pra João Pessoa e exercer seu ofício em sua terra natá?

– Ora, meu caro! Talvez não haja futuro para mim aqui no Nordeste. Meus pais deram um duro danado para custear meus estudos na Capital. Eu preciso mesmo é arranjar um bom emprego por lá e mandar ajuda financeira para eles! Depois, quem sabe, arranjar um bom casamento e me estabelecer por lá, finalmente!

Paulino arregalou os olhos e franziu a testa. Se essa rapariga queria arrumar um partido na Capital, por que estava se enrabichando para o lado dele? — seus pensamentos quase saltaram pela boca em forma de palavras!

– Mas a moça então tá é procurando um marido rico e estudado! É isso?

Enquanto a tarde caía, os dois começaram uma conversa mais acalorada, e a moça ficou brava com Paulino. Era uma discussão tola, de quase pretendentes a namorados, que deixou Paulino bastante aborrecido. A moça voltou esbaforida para o seu lugar, deixando o condutor falando sozinho. Ele sabia que não poderia levantar a voz, já que a maioria dos passageiros do ônibus estava dormindo. Já devia ser por volta das cinco horas da tarde.

Foi naquela hora que Seu Fortuna interrompeu a conversa, porque já não aguentava mais o cansaço da viagem.

– Paulino, eu não aguento mais essa canseira! Não preguei o olho desde a viagem de vinda do Rio pra cá, por módi que minha mulé tava doente, precisano de mim, e eu tinha que deixar as coisa arranjada pra ela antes de voltá pro Rio outra vez. Tu tome tento aí nesse volante, seu cabra! Eu vou subir no bagageiro e tirar uma pestana. Deixe de resmungar por essa moça aí. Tu não percebeu que é areia demais pro seu caminhão, não?

– O que é que essa “cabrita” tá pensando? Que eu sou trouxa? Pensa que não percebi em sua conversa que ela só queria era se aproveitar porque eu disse que tenho um barraco no Rio? Ela tava me dando assunto pra ver se conseguia casa de graça! Pensa que eu sou trouxa?

– Tu é um trouxa, sim! Deixe de ser besta e grude teus zóio nessa direção! E vê se te enxerga, que tu é menos que nada pra essa moça da Capital!

Falando isso, Fortuna subiu esbaforido até o bagageiro, por uma escada de acesso, na própria cabine do motorista, improvisada por ele mesmo, já que era o proprietário daquela viatura particular.

– Na primeira curva que vier eu jogo esse baú velho!

O pensamento de Paulino mais uma vez soou alto demais, ao ponto de ser ouvido por Gaspar, que gentilmente trazia João Batista para perto de sua mãe, porque ele estava chorando muito e sua tia Bita queria dormir um pouco.

Ele olhou no fundo dos olhos de Cotinha, enquanto entregava o menino…

– A senhora escutou o mesmo que eu?

– Minhas áima! Valei-me, minha virgem Nossa Senhora!

Juvina, que estava nas poltronas que ficavam atrás da cabine do motorista, naquele instante, tirou o pano que cobria sua cabeça e abriu os olhos.

– Que é que tá acontecendo, Cotinha?

– Não é nada não, minha Mãe! É João, que tá estranhando a viagem e não deixa Bita dormir um pouco. Aí o rapaz veio trazer o bichinho. Vá descansar, que eu me arranjo aqui com ele.

– Me dê Miúda, então!

– Miúda tá dormindo, mãe! Pegue João, que é melhor! Dê umas bolachinhas de rapadura pra ele…

– Tu qué uma bolachinha, meu bichinho? Venha aqui, no colo de Neninha, venha! — Era assim que João e Penha chamavam com carinho sua jovem vovó de apenas 48 anos de idade.

Então João se conformou, parou de chorar e aceitou o colo de Juvina. Gaspar percebeu que Cotinha fizera aquilo para que sua mãe não ficasse mais assustada do que já estava, por ser a primeira vez que viajava de ônibus para uma terra tão distante e desconhecida…

Sua maior viagem até então fora de Itambé, Pernambuco, para João Pessoa, quando se casou com Manuel. Aliás, foi mesmo uma das únicas viagens que fizera desde então… Depois que Manuel a conheceu, apenas duas vezes a visitou. A terceira vez foi no dia do casamento. Ele chegou, acompanhado do Padre Guilhermino, e ali mesmo, na casa de Pai Trajano, o filho da Índia, e de Mãe Zefinha, os dois se casaram. Depois ela subiu na carroça de Manuel e partiram para o Sítio do Riacho.

Penha, agora no colo de Manezinho, dormia sossegada e protegida. Seu avô também dormia, sonhando ainda com os anos de fartura no Riacho… Aquela garotinha em seu colo lembrava tanto o pai… Parecia que fora ontem o dia de seu nascimento!

Capítulo VI — Sítio do Riacho, 1948…

Assim que amanheceu, Euclides correu até a casa de sua sogra, aos gritos…

– Neninha! Nasceu minha menina!

Juvina, que coava o café, quase se queimou, assustada com os gritos de seu genro. Antônia, Nega e Dinga estavam ali com ela, cada uma ajudando com uma tarefa. Uma fazia o cuscuz, outra colocava a mesa, e outra ia servindo mandioca com carne de sol. A mesa já estava quase pronta para receber o patriarca, Manezinho. Bita, que era a mais nova, tinha a tarefa de arrumar as camas das irmãs e varrer a casa, além de dar a mamadeira com o mingau quentinho de Izabezinha, que Dinga estava terminando de fazer.

– Pelo amor de Deusu, Euclides! Tu me mata do coração! Que história é essa? Cotinha pariu de noite e tu não viesse me chamar? Pois se eu estava lá com ela dispois que ocêis ouviram o choro da menina na barriga! Eu tinha que estar lá com minha fia!

– Foi tudo rápido demais, Neninha! Não deu tempo nem de correr de volta pra cá. Senão minha mulher paria sozinha. E, como já era tão tarde, Cotinha achou melhor deixar o dia raiar pra não incomodar o sono de vocês!

– Aleluia! Louvado seja nosso Senhor! — gritou Antônia.

– Corre aqui, Bita! Nasceu nossa sobrinha! — Nega, a mais escandalosa de todas, correu para dentro do quarto e agarrou Bita pela cintura, levantou a menina em seu colo e ficou rodopiando no quarto.

Dinga correu atrás dela, tentando controlar sua irmã esbaforida:

– Cala a boca, Nega! Tu vai acordar Izabel com essa gritaria! Já não chega os berros de Euclides? E trata de voltar pra cozinha, que eu deixei o mingau embolando por tua culpa!

Naquele momento, a euforia de Nega com Bita foi abafada pela voz grave de sua mãe, Juvina:

– Meu Pai eterno! Manezinho, Cotinha pariu uma menina!

Manezinho estava em seu quarto, calçando suas botas, preparando-se para ir ao roçado.

– E foi, mulé? Foi? A primeira cria de minha fia? Pois vá na frente com Euclides, que eu ainda quero acabar de me arrumar aqui. Depois de tomar o café eu passo por lá, antes de pegar no roçado. Deixe minha abóbora amassada, que ainda quero buscar o leite no curral. Essa menina não vai fugir antes do café, não! Oxente!

– Vamo simbora, Euclides! Deixe esse véio ranzinza pra lá!

– Mãe, eu vou junto! Prometi à minha irmã que iria preparar o banho de minha sobrinha e nem tive a chance! Quero ajudar!

Naquele instante, as outras três meninas entraram correndo na cozinha, quase atropelando umas às outras, doidas para irem junto.

– Pois, então, Antônia vai mais eu. As outras fiquem aí, servindo seu pai. Bita só vai depois que eu voltar, por módi cuidar de Bezinha. Visse, Bita?

Bita baixou a cabeça, mas não tinha escolha.

– Sim, minha mãe.

– Ah, mas eu vou é agora! Dinga fica e serve papai! — Protestou Nega.

– É assim, é? E por que não fica tu, mulher?

Dinga teve vontade de jogar a colher do mingau quente de Izabezinha, que ainda estava engrossando no fogo, na cabeça de Nega, mas Juvina aquietou as duas com sua palavra de ordem:

– Eu já disse que vou só mais Euclides e Antônia. Vocês obedeçam e pronto acabou-se. Deixe de putaria as duas!

Mas Bita ainda arriscou…

– Se minhas irmãs vão ficar, elas podem dar o mingau de Bebé, né, minha mãezinha?

– Tu tá de deboche comigo, Bita? Vá já pra dentro e termine de arrumar as cama! Marche!!!

Assim, saíram os três, deixando as meninas de caras amarradas, morrendo de vontade de conhecer a sobrinha!

Quando Juvina chegou à porta do quarto de Cotinha, escutou sua filha conversando com a menina, recém nascida:

– Minha filha querida, tua mãezinha te ama e vai cuidar de ti, viu? Eu não vou te deixar sozinha, nem um minuto de minha vida. Aconteça o que acontecer, minha flor! Mesmo que teu pai um dia lhe falte, tua mãezinha não vai te largar, enquanto for viva! Eu prometo, pelas sete chagas de Cristo!

Juvina percebeu que Cotinha estava magoada com o que ouvira a vida toda da boca de seu pai… Ele sempre esperava o nascimento de outro menino, para compensar a perda de seu filho, Antônio… Mas ela sabia também que sua filha sofria por ela. Manuel foi duro e, muitas vezes, falou coisas impensadas, que a deixavam deprimida. Cotinha escutava tudo, sofrendo com sua mãe, cada vez que nascia mais uma menina. Agora, depois que sua mãe pariu nove filhas para Manuel, ela trazia ao mundo sua primeira neta…

Foi naquela hora, quando os olhares se cruzaram e as lágrimas se confundiram entre a alegria pela chegada de uma criança e o temor das cobranças, que Euclides entrou correndo no quarto e se ajoelhou aos pés da cama de Cotinha. Ele sabia de tudo, mas nunca imaginou que Cotinha pensasse que ele fazia questão de um filho homem!

– Minha filha! Filha da minha alegria! Como seu pai te esperou, minha pequena!

– Tu não queria um machinho, Euclides? — Cotinha perguntou com algum esforço, sem conseguir conter os soluços pelo choro quase descontrolado… Então, olhou para Juvina e perguntou: — Cadê papai, mãe? Ele não vem ver a neta, não?

Mas Euclides nem deixou que sua sogra respondesse…

– Cotinha, amor de minha vida, tu não podia ter me dado alegria maior! Tu me desse Penha, a caboclinha mais formosa desta terra! Espia só esse rostinho! Não diga mais nada, minha filha! Descanse! Teu marido não podia estar mais feliz!

– Tu vai dar esse nome mesmo pra nossa filha, né, Euclides? — Cotinha olhou na mesma hora para sua mãe e se lembrou de suas palavras: Pois tu obedeça teu marido, visse? Por módi que Euclides é o fio que eu não tive, mas que Deus mandou pra alegrar o coração de tua mãe. Se ele quer o teu nome na menina, é por módi que ele te ama, minha fia!”

– Eu quero que minha filha tenha o mesmo nome da mãe dela: Maria da Penha! Porque as duas são as mulheres que mais amo nesta vida.

Então Juvina tomou a menina em seus braços e a abençoou.

Antônia já havia preparado a água morninha, na bacia de alumínio que estava sobre a penteadeira, para dar o banho prometido. O quarto estava todo perfumado com a alfazema que as meninas haviam colhido naquela semana, já esperando a chegada de Penha. Alguns raminhos cheios de sementes e flores foram colocados em saquinhos de pano, depois de pilados e costurados, fazendo pequenos sachês. Antônia, Bita, Nega e Dinga capricharam na arrumação do cantinho de Penha, a primogênita, esperada por todos!

CapítuloVI — De volta ao ônibus de Fortuna…

– Tu deu trabalho pra tua mãe, bichinha! — Manezinho falava baixinho, enquanto acariaciava o rostinho de Penha, que dormia em seu colo. — Nasceu tão pequetita que cabia inteirinha na mão de seu pai Euclides! Era um palmo e mais três dedos da mão de seu pai! Eita saudade daquele homem bom… E tua mãe teve medo de te perder, minha fia! Tu era fraquinha por demais… Não tinha força nem pra sugar o leite dela! Era Bita que garrava nos peito de Cotinha, pro módi vir o leite.

Manezinho viu Penha arregalar os olhinhos e apertá-los de novo, como quem estivesse o tempo inteiro disfarçando que estava dormindo. A menina estava pesada para ele, por causa de sua idade. Manuel já passava dos 70 anos, com as marcas senis do trabalhador rural, na lida de sol a sol da vida na roça, o que lhe conferia ainda mais o peso dos anos. Então pediu a Juvina que pegasse a menina novamente. Por isso, Juvina tratou de devolver João Batista a Bita. Afinal, ainda tinha Izabezinha no meio dos dois!

– Bita! João drumiu! Pegue ele de novo, porque seu pai não aguenta Penha no colo mais não! Avia, minha fia!

Bita foi apressadamente buscar o sobrinho. Voltou então para o seu lugar, ao lado de Gaspar, e acomodou João como pôde.

A tarde caía, e o sol começava a sumir no horizonte. Fortuna já estava roncando, enrolado numa coberta, rodeado pelas muitas malas, no bagageiro do ônibus.

Juvina, Manezinho, Izabel e Penha se acomodavam como podiam naquelas poltronas imprensadas, atrás da cabine do motorista.

Cotinha estava agora com Miúda em seu peito. Sabia que ela havia feito xixi, mas não queria tirar o peito dela antes de encher a barriguinha dela, então deixou que o xixi vazasse, molhando sua roupa. Mercedes, irmã de Judith, estava dormindo ao seu lado. Ela estava exausta, porque havia despachado a mudança na frente, para o Rio de Janeiro. Seu marido já estava morando lá havia mais de um ano, e, graças a Deus, agora já tinha uma casa, que, embora alugada, estava pronta para receber sua mulher e seu menino. Armandinho, o sobrinho querido de Judith, estava deitado em seu colo. Judith estava calada, olhando catatônica para a estrada. As árvores pareciam estar em movimento quando o ônibus corria mais rápido, deixando-as para trás. Judith estava indo ao Rio por amor a sua irmã e seu sobrinho. Ela não queria deixá-los. Mas, agora, no silêncio da estrada, começava a ter dúvidas se havia feito a escolha certa…

Bita estava com as pernas dormentes, por causa do peso de João Batista, que dormia em seu colo. Não que o menino fosse gordo, mas já tinha 4 anos, e Bita era uma mocinha de 16 anos apenas! Seu corpinho era frágil, com aquela cinturinha de borboleta, como sempre diziam suas irmãs… Não estava acostumada a ficar horas a fio com um menino grande no colo!

Gaspar, todo garboso, usando seu único terno de linho branco, roncava ao seu lado, colocando a perder todas as suas investidas para conquistar a bela moça! Com esse ronco todo, se houvera alguma faísca de esperança de que Bita se encantasse por ele, tudo acabara de ir por água abaixo!

Atrás de Bita estava uma dona com seu papagaio. Esse louro conversou a viagem inteira. Não havia quem fizesse o bichinho se calar. Na verdade, foi o que segurou Joãozinho mais tempo lá atrás! Por sinal, quando João fez a birra, foi porque Bita estava aborrecida com ele, pois o menino queria espiar o papagaio o tempo todo, e a dona já estava de cara feia para ele. Bita estava constrangida por João. Mas agora o menino dormia tranquilo em seu colo, crendo que ali estava tranquilo e seguro…

De repente o ônibus deu um solavanco. Parecia que tinha caído num buraco bem grande. Pode-se ouvir um barulho de engrenagens. Juvina abriu os olhos e tirou o pano que cobria sua cabeça e seu rosto. Ela o apertou em suas mãos.

– Meu Pai eterno! Jesus, nosso Sinhô! Tem misericórdia de minha família, meu Pai!

O ônibus balançava agora de um lado para o outro e parecia que o motorista perdera o controle. Juvina sacudiu Manuel naquele instante.

– Manezinho! Pelo amor de Deus! Segura Penha com toda tua força! — e então, prevendo o pior e sentindo um grande aperto em seu peito, orou mais uma vez:

– Meu Pai do céu! Fosse Tu que me desse a vida e tudo o que eu tenho é teu, meu Deusu! Salva minhas filhas! Salva meus neto! Salva meu marido! Me acode, pelo puder que há no teu fio! Valei-me, nosso Sinhô!

E, antes mesmo que terminasse de gritar essa oração desesperada, percebeu que o ônibus seguia em linha reta, onde deveria fazer uma curva… A frente do ônibus então beijou a terra, e o vidro rompeu-se, enchendo de lama e mato a cabine do motorista. Por alguns instantes, parecia que a cena estava congelada, e muitos pensamentos e emoções puderam ser revelados em centésimos de segundos…

Cotinha tirou Miúda do peito e enrolou a manta com força em volta dela e da menina, para que ficassem grudadas uma à outra. Então a segurou em seus braços com muita força, mas não a ponto de sufocar sua menina. Lembrou-se de Euclides… Seu amado marido não estava ali para socorrê-la! O que seria de todos eles agora?

Bita sacudia João e gritava desesperada:

– Segura na roupa da tia, meu anjinho! Pelo amor de Deus! Segura na roupa da tia!

Judith também agarrou Armandinho em seus braços e num instinto de proteção, praticamente deitou-se sobre ele.

Foi então que o ônibus virou a primeira vez, depois mais uma vez e ainda uma terceira.

Continua…

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