Outra Sexta 13

Caminhava atento. A noite era escura. No negrume profundo do céu via algumas nuvens abraçando a lua vermelha e logo se distanciando. Fiquei com a impressão de que a lua andava, e não as nuvens. Olhei-a e por um segundo vi a imagem não de São Jorge e nem de Maria Nossa Senhora, mas sim, a imagem de um demônio ou o olhar vermelho de fúria de um assassino… Minha imaginação voava.

Era uma quinta-feira e o povoado estava calmo. O vinho que eu havia bebido junto com o sogro me fez mal. Eu cambaleava um pouco, mas, conseguia me segurar em pé, aliás, quantas vezes saí da casa de meu sogro mais embriagado que isso e cheguei a minha casa são e salvo? Inúmeras. Quantas sextas-feiras não cambaleei pelo povoado e cheguei vivo em casa? Foram algumas garrafas de vinho apenas, não haveria problema. Continuei andando.

Sem sorte olhei no relógio. Acabara de passar da meia noite. E a cada segundo que decorria a escuridão tomava mais as rédeas dos locais em que me encontrava. Desacreditado, olhei mais duas vezes no contador de horas em meu pulso uma vez e… santo Deus, passava da meia noite: era sexta. Sexta-feira 13. Assustou-se. Desde pivete ouvia sua mãe e sua família contarem sobre as duas tias que faleceram ambas de acidente em sexta-feira 13. Toda sexta 13 lembrava disso. E com aquela lua vermelha lhe observando, o temor aumentava mais. Suou frio depois de pensar nisso tudo.

Por sorte o povoado estava crescendo. Chamo povoado porque não era uma cidade, mas, também não era zona rural. Era mesmo apenas um povoado. Crescia devido um projeto para criação de energia nas margens do imponente rio que beirava a cidade. Tudo estava crescendo. Algumas pessoas migraram para o povoado. O povo, com suas mexeriquices dizia que o povoado estava piorando por causa do projeto. Mais violência. Mais gente nas ruas. Mais gente nas casas. Mais calor. Mais uma vez senti o suor escorrer. O lado bom é que o projeto, embora com a prioridade de mandar energia para outras cidades, trouxe iluminação também para o povoado. Talvez tivesse violência, mas, isso não preocupava a ninguém. Muito menos a mim. A cidade estava iluminada. Eu também. Faltavam duas ladeiras com açaizais, coqueiros e bananeiras nas margens para chegar à casa dos meus pais. Chegaria a casa, iria jantar. Um pé de galinha eu roeria e depois deixaria o sono me levar, só. Acendi um cigarro.

Por maldito acaso do destino ou como se o azar me quisesse pregar uma peça, ao cair do meu fósforo no chão as luzes todas se apagaram. Foi como se o esfumaçante palito tivesse sugado todas as luzes da cidade para ele. Agora sim, o terror tomou de conta. Apressou o passo subindo a ladeira. Começou a imaginar como seus pais estariam na casa, no escuro. Quase corria. E suava. Tragou o cigarro o mais rápido que pode e pôs-se a descer a ladeira. Faltava só subir a ladeira, descer e chegaria em casa. O vento começou a soprar como se conversasse com as folhagens ao redor. Ouvia assobios nas matas que cercavam a ladeira. Agora ele corria. Estava em cima da ladeira quando avistou… Ou não avistou.

Senti novamente o vento bater nos açaizais no topo da ladeira. E alguma coisa saiu voando. Senti o terror percorrer meu corpo. Suava demasiadamente, uma gota de suor pesada demais para seu rosto escorreu e caiu… Jurava que o chão tremeu quando a gota caiu… Sexta-feira 13 novamente.

E olhou pra frente. Definitivamente avistou. Alguém vinha ao encontro dele, no pé da ladeira e o que vinha movia-se de forma lenta, mexia de um lado para o outro. Meti a palma da mão no olho. Voltei a olhar e… Ele continuava a se mover. O terror crescia. Era lua cheia. O demônio que possuía a lua estava na terra e veio para me matar. Apalpei minha cintura e agarrado ao meu cinto, como sempre, estava o canivetinho que ganhei do meu pai. Era do tamanho da palma da minha mão, mas, em esperas e caçadas eu já havia matado mais que uma paca com ele. Eu ainda estava no topo da ladeira, parado. Minhas pernas travaram. Eu não conseguia sair do lugar. Pensei no avanço da cidade. Será que teria valido a pena ganhar energia elétrica sendo que ele acabava quando eu preciso? Isso é progresso? Pensei nos meus pais. Será que aquele demônio vinha de nossa casa? Isso me fez criar reduzida coragem, andei um pouco.

Lá embaixo via aquele ser se mover. Era enorme e negro. Eu não via olhos. Eu não via boca. Eu só via o demônio e via meu medo. Rapidamente olhei para o céu. Estava mais nublado e mais escuro, a lua vermelha tinha ido embora e, possivelmente tinha encorporado nesse demônio terrestre no pé da ladeira. Quando dei por mim estava no meio da ladeirinha. Havia um poste do meu lado e uma cerca de arame farpado do outro… Atrás de ambos, era mata. Eu poderia trilhar pela mata, mas, no escuro era muito mais perigoso. E, da mesma forma, se aquele demônio me pegasse, queria morrer lutando. Queria que encontrassem meu corpo na estrada e avisassem a meus pais. Mais um da família morto em sexta 13… … o que? No que eu estou pensando. Eu não vou morrer… Pelo menos não aqui. É hora do enfrentamento.

Senti o suor escorrendo pelo rosto… Poderia não ser suor, seriam lágrimas então… Ou os dois. Não, era o medo escorrendo pelo rosto. Sim, o medo foi embora. Criei coragem. Agarrei o miúdo canivete que sempre levava comigo. E andei, a passos largos enquanto o ser no final da ladeira se movimentava de um lado para o outro em um movimento ainda mais frenético (e aterrorizante) de vou-te-pegar. ERA A HORA.

Comecei a correr. Não queria saber das consequências. Ele poderia ser o dobro do meu tamanho, mas, iria pegar ele. Já sentia o sangue escorrendo do meu corpo e do corpo dele. Acertaria ele pelo estômago em um golpe único. Estava chegando perto com alta velocidade. Eu ia matá-lo. E ele se movia. Eu vou matá-lo. Ele movia-se. Desgraçado. Movia. Demônio, tinhoso. E olhei…


O “demônio” se mexeu já na minha frente. Não era um demônio. Com a escuridão total da ladeira, o vinho na mente e a imaginação fértil me fizeram imaginar tudo. Era uma palha enorme de bananeira que ao bater do vento caminhava de um lado para o outro da estrada. Desgraçadamente ri de mim por um instante. Achei que ia morrer, mas, na verdade, minha loucura momentânea ia me matar. Ri mais alto, gargalhei… Com o pequeno canivete rasguei a palha de bananeira o máximo que pude. Dela fiz amiúde, estardalhaço ainda rindo de mim. Cheguei ao portão de casa. Acendi mais um cigarro, rindo e com um pedaço da folha de bananeira em minhas mãos. Naquele instante prometi três coisas: não mais exagerar no vinho, não mais exagerar na imaginação e… Socar a cara do responsável pela distribuição de energia elétrica do povoado.


Hugo Sales é o escritor desse texto e já visitou povoados mal-assombrados como também já viu figuras de outro mundo e monstros sobrenaturais. Todos, obviamente, criados por sua imaginação fértil. hgsalesar@gmail.com

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