Messi ser gay ainda incomoda o futebol

Fonte: iBlogay

Por Eric Zambon

A cena se tornou banal. O goleiro adversário está para cobrar o tiro de meta e a torcida local grita “BICHA” daquele jeito ensaiado, com o “Biiiii” no momento em que o atleta prepara o chute e o “CHAAAA” assim que ele acerta a pelota. Acontece em todas as divisões de todos os estados e contra todas as equipes. Ninguém parece se importar com isso.

No último dia 9 de março, o arqueiro Messi, do Alecrim-RN, sofreu esse tipo de ofensa em partida do campeonato Potiguar, e alguém resolveu, enfim, se levantar.

“[…]Eu não admito qualquer tipo de preconceito. Todo mundo sabe da condição do Messi, mas não é possível que em 2016 aconteça uma coisa dessas. Informei ao árbitro, que é a autoridade máxima do jogo. Eu gosto da cidade de Mossoró, o povo daqui que sempre recebeu os outros bem, mas esses caras que fizeram isso com o Messi perderam meu respeito — desabafou o capitão do Alecrim, o zagueiro Geílson, a uma rádio local, conforme o GE.com.
Messi se apresentando no Periquito Fonte: Facebook/Alecrim

Jamerson Michel da Costa, o Messi, assumiu em 2010 ser gay, enquanto defendia o Palmeira-RN. Em uma reportagem com o GE.com, do mesmo ano, ele contou sobre como se sentia aliviado e sua própria mãe deu entrevista dizendo amar o filho, mas fez a ressalva que ele ser homossexual era “seu único motivo de desgosto”. “Só faltei morrer (quando soube)”, admitiu a senhora.

A família Costa Pereira foi um retrato dos dois mandatos do governo Lula na premiada reportagem de Eliane Brum publicada em 2011, na revista Época — foram nove anos de apuração. O goleiro Messi tem exatamente o mesmo papel, mas quanto à homofobia no futebol.

Desde o ano em que ele saiu do armário, vários outros atletas de diversos esportes fizeram o mesmo. Jogadores da NBA, da NFL, de tênis, de rúgbi, hóquei… A lista é imensa. O zagueiro norte-americano Robbie Rogers até anunciou aposentadoria ao se declarar homossexual, em 2013, mas meses depois mudou de ideia, vestiu a camisa do Los Angeles Galaxy e foi aplaudido por quase 20 mil pessoas em sua reestreia.

Nada disso, porém, mudou a mentalidade do torcedor brasileiro, que repete os mesmos gestos de preconceito de seis anos atrás e não sabe conviver com a orientação sexual alheia.


O pior momento envolvendo os nossos aficionados por esporte, no entanto, aconteceu durante a Superliga de Vôlei, em 2011, contra o jogador Michael, do Vôlei Futuro. Em partida diante do Sada/Cruzeiro, cuja torcida é composta pelos mesmos fãs de futebol da Raposa, o atleta ouviu ofensas de todo o estádio nos instantes que antecederam seus saques, como pode ser visto no vídeo abaixo:

Houve pessoas, inclusive jornalistas “esclarecidos” (Alô, Perrone), que disseram se tratar de uma provocação normal para desestabilizar um adversário. Se você chama o cara de ruim ou até de filho da puta está tentando fazê-lo perder a concentração. Se você se vale de um preconceito enraizado na sociedade para diminuir alguém por ele ser quem ele é, passou dos limites. Ou por acaso chamar um atleta negro de macaco é simplesmente desestabilizá-lo?

O curioso é que o tabu é reforçado ano após ano, com declarações e atitudes retrógradas de atletas, dirigentes e técnicos, mas ao mesmo tempo movimentos de libertação se multiplicam. Por exemplo, em 2014, quando estava à frente do Fluminense (cuja torcida é frequentemente associada a práticas homoafetivas pelos rivais), Renato Gaúcho fez o famoso discurso do “nada contra, mas…”.

“Eles (jogadores) vão sacanear (se algum jogador revelar ser gay), e eu vou ajudar. No bom sentido. Na brincadeira”, declarou ao Terra.

Imagino se um jogador gay que fosse vítima de “brincadeiras” de cunho homofóbico teria o mesmo entendimento sobre tudo não passar de “zoeira”. Pois bem, apenas alguns meses antes dessa fala que reforça o machismo e intolerância do meio, o blog iBlogay revelou a existência de pelo menos 11 grupos LGBTT ligados a times da série A do Brasileirão. Abaixo, a relação:

Atlético Mineiro: Galo Queer.
Cruzeiro: Cruzeiro Maria.
São Paulo: Bambi Tricolor.
Náutico: Timbu Queer.
Grêmio: Grêmio Queer.
Vitória: Vitória Livre.
Internacional: Queerlorado.
Palmeiras: Palmeiras Livre.
Corinthians: Corinthians Livre (antigo Gaivotas da Fiel)
Flamengo: Flamengo Livre.

Em 2008, o meio-campista Richarlyson, do São Paulo, foi “acusado” de ser homossexual e universo do futebol não soube lidar com isso. Comentaristas fizeram piadinhas (muitas delas em bastidores), jogadores se fizeram de desentendidos e os torcedores, sempre eles, se comportaram como idiotas. Uma torcida organizada do Tricolor Paulista, que costuma entoar a escalação do time antes de jogos importantes, passou a ignorar o nome de Richarlyson, ou Ricky, como foi apelidado. O jogador foi assediado pela imprensa e teve de ir a público para se dizer heterossexual. Se mentiu ou não pouco importa.

Fonte:Wagner Carmo/Vipcomm

A simples suspeita sobre sua orientação sexual teria inibido o rival Palmeiras, em 2012, de contratar o volante, destaque em dois títulos brasileiros do São Paulo. Segundo o Jornal Opção, na coluna de Elder Dias em 11 de dezembro de 2011, um dirigente da torcida alviverde “ameaçou expulsar o jogador da cidade na pancada quando pisasse no aeroporto”.


O futebol não deveria ser um meio tão homofóbico. É um esporte de inclusão, de sonhos. Desde que foi trazido ao Brasil deu voz e vez aos mais desfavorecidos, colocando-os sob holofotes da nação. Negros e pobres se tornaram heróis. Ora, o nosso Rei do Futebol, Pelé, revelou ter tido experiências homoafetivas na adolescência!

As entidades ligadas ao esporte, porém, ignoram os avanços globais. Não existe sanção ou multa para homofobia. Clubes não punem ou se posicionam a favor de atletas injustiçados. Ninguém de influência está em cima do assunto ou preocupado com a saúde dos atletas gays.

Pois bem, o goleiro Messi, hoje com 30 anos, sabe bem da inércia do futebol brasileiro quanto ao assunto. Seis anos depois de ter se assumido, o máximo que ele ganhou foi a simpatia de companheiros, a compaixão de algumas pessoas, e só. Ninguém que foi preconceituoso com ele foi punido. As torcidas que o denegriram e continuam denegrindo não foram e nem serão punidas, em circunstância alguma.


Na temporada atual, o Alecrim-RN faz uma campanha regular no campeonato estadual. No primeiro turno, a Copa Cidade de Natal, ficou em 7º e penúltimo lugar na tabela, com apenas duas vitórias e cinco derrotas. No returno, a Copa Rio Grande do Norte, a uma rodada do fim, a equipe evoluiu e ocupa a terceira posição, empatada em número de pontos com o ABC, mas atrás pelo saldo de gols.

Segundo o site ZeroZero, Messi entrou em campo sete vezes no desastroso primeiro turno da equipe potiguar. Ele levou 14 gols em sete jogos (média de 2 por partida) e acumulou dois clean sheets (aproveitamento de 28%). Após perder a posição, ele teve outra oportunidade para mostrar serviço e não decepcionou. Em quatro partidas no segundo turno sua equipe venceu três e empatou um compromisso. Ele foi vazado duas vezes (média de 0,5 gol por jogo) e obteve dois clean sheets (50% de aproveitamento).

Uma atuação de destaque foi contra o campeão do primeiro turno, o América-RN. Messi praticou uma defesa complicada em chute após cruzamento pela direita, na entrada da pequena área. Terminou 1 a 0 para o Periquito.

Defesa pode ser vista a partir de 1:00

Seu desempenho, no entanto, ainda vai ficar em segundo plano em relação às notícias relacionadas à sua orientação sexual. Ele só vai virar notícia caso sofra ofensas ou dê declarações polêmicas e, infelizmente, é esse o jogo que o futebol brasileiro se propõe a jogar.

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