Na rede

Grandes goleiros consagram craques. Os números (de gols, de assistências, de dribles etc) credenciam jogadores como Messi, Cristiano Ronaldo e Luís Suárez ao posto de melhores do mundo, mas é a capacidade deles de desequilibrar Buffon, vazar Neuer ou driblar Courtois que os diferencia dos demais postulantes.

Esse blog surgiu da admiração e observação do trabalho de quem estraga a festa da moçada, mas também entrega a paçoca, leva o frango, enfim. Eu poderia dizer que minha motivação foi Yashin ou Taffarel ou algum desses atletas-maiores-que-a-vida, e foi (na minha opinião), mas não quem geralmente comove as pessoas — e não pelos motivos de sempre. Minha inspiração veio de Andoni Zubizarreta, consagrado pela seleção espanhola e pelo Barcelona, nos anos 80 e 90.

Meu sobrenome, Zambon, fez com que meu vô materno me chamasse de Zubizarreta na infância. Eu achava ter sido invenção, e só depois de um tempo, ao assistir ao golaço de Raí em 92, no Mundial, descobri a verdade. Fiquei fascinado e, por algum motivo, passei a prestar atenção aos goleiros, de Manga a Jorge Campos, de Rodolfo Rodrigues a David De Gea.


Comecei dizendo que “grandes goleiros consagram craques”. Obviamente, a recíproca é verdadeira. A temporada 2014/2015 de Diego Alves pelo Valencia o habilitou a maior pegador de pênaltis da história de La Liga — defendeu 16 penalidades em 37 chutadas (43,2% de aproveitamento), contra as mesmas 16 defesas de Zubizarreta, só que em 102 arremates (15,6% de aproveitamento). O feito, porém, só recebeu destaque da mídia internacional pois a marca foi alcançada, em maio de 2015, diante de Cristiano Ronaldo, que, até ali, havia errado apenas seis cobranças em toda sua carreira, de quase 60 batidas.

Durante a Copa do Mundo de 2014, o então desempregado Guillermo Ochoa, do México, deu sentido à expressão “paredão”. Diante do Brasil, na segunda rodada da fase de grupos, fez quatro defesas de alto grau de complexidade e impediu que o placar de 0 a 0 se alterasse no Castelão. Seu nome foi alavancado nas manchetes mundo afora porque parou duas vezes a estrela brasileira na competição, Neymar. A primeira, um salto muito plástico, lembrou o lance entre Pelé e Gordon Banks no Mundial de 1970.

Esse blog se propõe a falar mais de Gordon Banks do que de Pelé. É importante fazer os gols — ora, é o propósito de todo o jogo! — mas não tomar gols, hoje em dia, é mais importante do que marcar. Times pagam, por um zagueiro como David Luiz, quase 50 milhões de euros, cinco milhões a mais do que o Real Madrid desembolsou, em 2002, para tirar Ronaldo “Fenômeno”, então artilheiro da última Copa do Mundo, da Internazzionale.

Sim, a correção monetária e variação da inflação podem explicar a diferença de valores, mas basta compararmos, então, com atletas atuais. O defensor brasileiro custou mais caro do que os companheiros de Seleção, Hulk, Lucas Moura, Willian e Oscar.

Mas o assunto é goleiros. Sobre estes, a cifras ainda são modestas, se comparadas às outras posições, mas os valores estipulados por atletas como Thibaut Courtois, David De Gea, Kevin Trapp e Manuel Neuer tendem a mudar esse paradigma.

Até hoje, o único da posição a vencer a Bola de Ouro da revista France Football foi Lev Yashin, o “Aranha Negra”, em 1963. O atleta da União Soviética e ídolo do Dínamo de Moscou merece um post só para si. Por enquanto, basta dizer que, no Mundial de 1958, Vavá marcou duas vezes contra a URSS, mas Pelé não, Garrincha muito menos. Tudo graças a Yashin. Tudo graças ao goleiro.