Até logo

Sábado, em minha casa, algumas pessoas falaram que ‘o que eu tenho não é depressão’, e que eu sempre preciso falar que ‘depois que eu tive um ataque de pânico…’ Tenho ouvido muito isso, na verdade, de tantas outras pessoas. Depois que eu tive um ataque de pânico (rs), tomei a decisão de deixar isso exposto: não queria carregar o fardo de um segredo. Não queria esconder algo tão comum porém destruidor. Para maioria das pessoas, entretanto, essa sinceridade incomodou. Marketing, incoerência, mentira. Em tempos de analisadores de tudo (vide sua timeline de facebook), é fácil fazer diagnósticos dos outros, julgar e machucar. E como é fácil machucar.

Estou machucado e nunca parei para fazer os remendos. Desde a infância estudo muito. Lembro das férias na casa da minha vô, em que eu tentava ler todas revistas de meus tios, as speak up’s que eles compravam. Em janeiro, ao invés de descansar eu lia todos os livros que iria estudar durante o ano. Eu não aprendi a brincar. Lembro de um aniversário em que meu tio trouxe um presente, mas era para meu irmão. ‘Você não sabe brincar’, ele disse. Não era mentira. Tantas outras vezes fui excluído de viagens familiares por provavelmente não saber socializar. Durante a faculdade, passei todas as ferias estudando para concurso. Todas. Minha vó me expulsou da casa dela porque eu não saía do quarto. Só estudava. Queria ser mais que os outros. Talvez ela estivesse certa. Mas o que ela não sabia é o quanto sempre me senti pequeno. Um pequeno que não se encaixa em lugar nenhum. Uma anomalia. Sempre trocando de grupos de amigos. Nunca conseguindo um relacionamento estável. O que ela e tantos outros não entendem é que se eu pudesse não seria assim. Queria saber brincar. Ser fácil. Ser simpático. Eu doaria toda minha inteligência para poder ser igual a todos.

Mas não sou. Estou muito machucado e nunca parei para cuidar de mim. Após o ataque de pânico (Rs, de novo), eu decidi continuar trabalhando. Eu não queria parar. Eu sou forte e vou passar disso, pensei. Só comecei a tomar remédios após seis meses ao perceber que não era tão forte assim. Continuei trabalhando, escrevendo, fazendo mil planos. Faço mil planos todos os dias e anoto para o caso de eu conseguir viver mil anos e ter tempo para realizar tudo. E isso só fez eu piorar. Eu devia ter parado, percebo hoje.

Devia ter parado nas férias da infância, nas férias da faculdade. Eu devia ter descansado. Deveria ter esperado as feridas criarem casca. Devia ter aceitado que a depressão é algo sério que precisa de pausa.

Estou ferido e é hora de parar. No mesmo sábado passado ouvi que eu não tenho depressão porque eu não penso em me matar. Então fiquem calmos, essa não é uma carta de suicídio. É um pedido de ‘paz’. Vou dar um tempo que eu nunca me dei direito. Esvaziar minha cabeça. Vomitar essa angustia. Essa é uma carta de ‘me deixem quieto’. Não vou responder a nenhuma pergunta ou mensagem. Não quero explicar nada. Estou cansado de me explicar para um mundo que tira suas próprias conclusões sem perceber o quanto é cruel.

Distribuam amor como quem joga sementes ao vento. Vocês não sabem quem pode estar precisando. E sempre tem alguém por perto precisando.

Até logo.