Como preparar um jantar para suas expectativas

Desde pequeno tento lidar com minhas expectativas.

Depois de cada prova do colégio e até eu receber a nota, tentava segurar minha expectativa na mão. Ela crescia, crescia, e ficava pesada até o ponto que eu não conseguia mais segurá-la. Um pouco mais velho, decidi carregá-la nas costas, dentro de minha mochila. Levava para cima e para baixo junto aos meus livros. Essa prática me deixou uma cifose que carrego até hoje.

Quando adolescente, nos três anos pré-vestibular, tentei fingir que as expectativas não existiam. Então nos dias anteriores às provas eu as engolia. Por uma parcela ínfima de tempo eu pensava que tudo estava resolvido. Durante as provas ela tentava dar as caras mexendo meu estômago e deixando minhas mãos frias. E antes de ser divulgado o resultado ela fervia em minha barriga e tentava explodir meu coração. Até que eu a vomitava e me sentia melhor.

Nos meus relacionamentos também não era diferente. Eu pendurava com barbante um belo balão de expectativa no dedo. De cara a outra pessoa se assustava mas eu tentava diminuir aquela impressão. Era uma expectativa boba. Leve. Tão leve que por vezes ela voava e me levava para longe do meu pretendente. Noutras ela estava tão grande e inflada que não me deixava ver o rosto dele. Eu via apenas a expectativa. Por fim, sempre sem aviso ela explodia. E para minha surpresa a pessoa que estava ao meu lado sumia. Restava, novamente, eu e minha expectativa, sob a forma do barbante no dedo.

Hoje tenho trinta anos e ainda não sei como lidar com as expectativas. Elas continuam se transformando e, criativas, ano passado tomaram a forma de uma síndrome de pânico. O psiquiatra a nomeou de ansiedade, mas eu sei que são elas que vão se dando novo nome como quem se esconde sob nova identidade.

A expectativa é prima da esperança. A esperança é a prima bonitinha do interior e mais boba. Ela não faz muito por onde merecer as coisas mas mesmo assim espera. Espera por esperar. E por isso é a última que morre. Já a expectativa espera por um tempo. Ao ver a demora, corre, vai atrás, luta. É por isso que a ela cansa tanto e vive sem paz. Morre mais cedo. É irritadiça. Mas ao fim, se conquista, é uma conquista carregada de glória.

Dias atrás eu havia desistido. E nossa. Ao longo dos anos desisti várias vezes. E me afasto de tudo. Todos. Deixo minha cabeça livre. Por alguns dias sou feliz. Falo para todos que perguntam se estou bem que ‘estou bem, sim’, entre um sincero sorriso.

Mas daí olhei para a foto na cabeceira e a vi. A expectativa. A única foto que esqueci de jogar. Corro para jogá-la no lixo, mas nesse entretempo ela me liga. Arrependida. Diz que me pressionou demais. Que devia ter dado mais espaço. Que devia ter me deixado sair com meus amigos para me divertir. Tento desligar mas ela pega no meu ponto fraco. Diz o quanto já conquistamos juntos e o futuro brilhante que ainda nos espera. Que somos a dupla perfeita, apesar dos problemas.

Ela está certa.

E dou mais uma chance.

Marcamos hoje nosso reencontro e estou preparando nosso jantar. Sei que ela vai entrar por aquela porta com um belo vestido, um vinho, e uma lista de coisas a fazer para restaurar o tempo perdido. Ela sabe não resisto a listas do que fazer e sonhar.

Fiz uma salada de entrada porque sei que de início somos leves. Temperei com um pouco de probabilidades, uma pitada de promessas. Uma colher de calma. Enquanto arrumava a mesa, tirei o assado do forno. Delicioso mas perigoso. Um gosto de otimismo na primeira mordida, mas aos poucos vai ficando salgado, até ficar amargo. Áspero. Ela pergunta o que eu coloquei no assado, enquanto tira algo encravado na língua e eu digo que é um ingrediente secreto. Toma um gole do vinho que trouxe mas não há tempo. Cai morta.

Isso é o que eu espero que aconteça à noite.

Enquanto eu escrevo agora ela está ao meu lado, preparando alguma lista que não sei qual. Ela não tem ideia que hoje ela é o prato principal. O ingrediente secreto. Ou talvez ela já saiba (o que é mais provável) e esteja ansiosa para me surpreender novamente com seu poder de sobrevivência.