Como eu faço essa limonada?

Wellington Lescano
Sep 3, 2018 · 2 min read

Quando eu era criança eu odiava limões. Não suportava o gosto azedo e não entendia como os adultos diziam que era bom comê-los, mesmo vendo a careta que faziam quando os punham na boca. Eu tinha todas as razões do mundo para achar que limões eram a pior coisa do mundo e que os adultos não sabiam o que realmente era bom no mundo, pois provavelmente estavam ocupados demais com seus empregos e conversas sobre coisas que eu não entendia como tabela FIPE e o valor do metro quadrado de um apartamento no centro.

À medida que fui crescendo fui começando a tolerar o gosto ácido do limão. Talvez seja pelo fato de que quanto mais velhos ficamos, menos exigente nosso paladar fica. Pelo menos eu acredito nisso. Na adolescência provei alguns limões que a vida me entregou e nem sabia a receita da limonada, fui apenas um mero colecionador de limões tentando espremê-los, mas dava preguiça pois eram muitos.

No início da vida adulta eu já tinha provado tantos limões que eu nem sabia se eu estava acostumado com o gosto ou se estava anestesiado por ter provado coisas bem mais amargas. Comia vários por dia, inúmeros por mês e infinitos por ano. Comecei a perceber que a vida nos dá muitos limões e quase nenhuma fruta com um gosto mais agradável — essas temos que ter a iniciativa de ir atrás e colhê-las nós mesmos. Limões vinham pelo correio, através de médicos, por tudo mesmo, até caíam do céu quando eu menos esperava e precisava. Fiz algumas limonadas, mas para os outros, e fiquei sem saber o gosto dos meus próprios limões.

Agora que estou atravessando a vida adulta eu como os malditos limões e falo para os mais jovens que eles são bons e a minha careta é apenas uma encenação. Digo também que os limões da vida são necessários — o que não é mentira. Quem nunca provar limões não dará valor ao que realmente é doce.

Wellington Lescano

Written by

Instagram : @lescanowellington