Tem coisas que acontecem do nosso lado e não damos a real dimensão, até pelo atropelo de reflexões que a vida nos impõe diariamente.

Tava eu aqui ouvindo um trecho de uma música dos Mamonas Assassinas na tv e me dei conta do tamanho das barreiras que os caras conseguiram passar por cima.

Os Mamonas foram um fenômeno nacional que, lembremos, apareceu falando de suruba em rede nacional, no programa da Xuxa, nos especiais de final de ano da Globo e o escambau. Depois, continuou fazendo sucesso com um sabão que “não deixa os cabelos do saco enrolar” ou dizendo que “comer tatu é bom, que pena que dá dor nas costas”.

Tudo isso, senhoras e senhores, bombado na grande mídia, esfregado na cara da família tradicional brasileira, sacudindo festinhas infantis…

Muita gente escreveu sobre o Mamonas e seu caráter irreverente à época, eu sei, mas a reflexão que proponho é a seguinte: o que faz o mito ter o poder de encontrar eco em ambientes, teoricamente, proibidos? O que faz do seu discurso bom o suficiente para que seja tão consumido e aceito por gente que arrota por aí valores tão opostos ao que ele apregoa? Neste caso, seríamos todos nós, no fundo, galhofeiros incuráveis, alguns assumidos, outros em potencial? Me lembro do Zeca Pagodinho, que dizia que muita gente curtia sua música, mas ouvia debaixo da cama, pra não perder a pose de cult.

Acho que vou furar a fila na minha lista de livros e conferir “O Poder do Mito — Joseph Campbell”, indicado há séculos pelo Maurício Mota e parado na prateleira.

Tenho certeza que há bem mais nos Mamonas do que apenas carisma e/ou talento.

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