Vamos falar sobre o asterisco?

Qual? Esse ó: “Trans*”

O asterisco apareceu bem recentemente, no máximo há uns dois anos, e o seu propósito inicial era criar um termo guarda-chuva que cobriria todas as identidades trans. Mais especificamente, um termo para cobrir as identidades não-binárias.

Eu entendo que as pessoas usam com a maior boa vontade do mundo, mas isso não impede que os problemas desapareçam.

“MAS EU SÓ QUERIA SER INCLUSIVO, NÃO BRIGA COMIGO!” não tô brigando, tô explicando, cara, relaxa aí…

Vou listar o que estou querendo dizer:

• Trans já é um termo guarda-chuva.

Nossa, sério, Batata?”

É, uai… o único motivo de você pensar que não, é porque ainda se tem a noção que pessoas não-binárias (ou até pessoas binárias que não querem fazer transição hormonal ou procedimentos cirúrgicos) não são **realmente trans**.

• A origem do acréscimo do asterisco não é 100% clara, mas provavelmente vem do que a comunidade gringa chama de “truscum” (resumidamente: pessoas trans binárias que se apegam muito à definição médica de transsexualidade e agem como porteiros determinando quem é “trans o bastante” e quem não é, ou seja, quem entra e quem fica de fora. Pegam principalmente no pé de pessoas trans com pouca idade que gostam de experimentar com expressões pessoais, pessoas com orientações sexuais diferentes da heterossexual e pessoas não-binárias). Sendo essas pessoas ou não que criaram esse termo, são quem o propagaram por aí, usando-o para separar as pessoas que não seguem as normas das “pessoas trans de verdade”.

Sendo assim o termo faz exatamente o contrário do proposto, ele na verdade mais exclui do que inclui.

trans*homem? o que isso significa, vei????

• O asterisco vem sendo usado de jeitos muito bizarros por quem não entende muito bem dessa militância, ou foi apresentado à transgeneridade vendo apenas o termo com a adição do asterisco e nunca sem, então acha que a palavra “trans” não pode ser usada sem ele.

Você se referir a uma mulher trans binária como “mulher trans*” ou até, jesus!, “trans*mulher” não faz o menor sentido. E soa até ofensivo, pois pode ser interpretado como desrespeito de sua identidade.

• Esse termo guarda-chuva vem sendo usado pra incluir pessoas que não são realmente trans.

“– Ah! Agora você que tá sendo porteiro e querendo deixar gente de fora!”

Não é isso… é enfiar gente cis na bagaça. Homens cis que performam como drag queen, crossdressers, etc… ou em sentidos colonizadores, por exemplo: incluir two-spirit (que é uma identidade variante de gênero dos nativos americanos, querer encaixar nos nossos moldes é um desrespeito, e é bem racista).

[>aqui< um post em inglês exemplificando]

• Por último o que eu acho mais preocupante: teatro de inclusão.

Ué, se é homofobia, como que tá matando “LGBTs”?

Teatro de inclusão é quando alguma minoria é adicionada a algum discurso para parecer que inclui pessoas sem realmente incluí-las. (Bom exemplo são organizações que se dizem LGBT mas que só tratam de questões que importam para homens gays cis. Ou escolas particulares que colocam crianças negras nas propagandas mas você chega lá e não tem nenhum aluno negro.) Eu ia precisar de uns bons dias para catalogar lugares onde vejo usarem “trans*” sem fazerem a menor menção a pessoas fora do binário de gênero. Uma boa parte do tempo eu sinto que é usado de um jeito que coloca pessoas trans binárias fora do binário, como se no fundo uma mulher trans não fosse 100% mulher ou um homem trans não fosse 100% homem. É bem preocupante e assustador o que o asterisco está dando a entender no fim das contas.

Ninguém coloca um asterisco em “gay” para incluir homens trans gays ou homens que não se encaixam em alguma identidade gay padrão. Não colocamos em “lésbica” também. Nós não colocamos um asterisco em “pessoas com deficiência” para adicionar um lembrete que nem toda deficiência é visivel ou física, etc.

Tais termos geralmente reconhecem que a verdadeira batalha é no combate ao pressuposto problemático de que as facetas menos óbvias de uma identidade não estão inclusas.

Nós não cedemos admitindo que ninguém nunca vai interpretar o termo de um jeito inclusivo o suficiente então simplesmente colocamos um sinal gráfico pra fazer as pessoas lembrarem. A língua é viva, somos nós que criamos os significados das palavras! Colocar um asterisco é muito fácil. É muito mais fácil do que realmente trabalhar para deixar os lugares, eventos, projetos, organizações ou instituições genuinamente seguros e inclusivos para pessoas trans (binárias ou não).

No fim, queria deixar explícito que toda essa explicação é focada principalmente em pessoas cis que estão usando o asterisco como tentativa de inclusão e que não encontrariam informações em português com essas questões mais profundas da nossa comunidade. Também queria dizer que as pessoas não-binárias que usam o asterisco certamente usam o termo da própria identidade da forma que entenderem como melhor, de modo algum quero acusar o uso do asterisco por essas pessoas de estar errado.

Esse texto foi uma mistura de referências, traduções livres e partes escritas por mim. Os links de onde trechos foram tirados/adaptados, em inglês, são esses:
http://a-little-bi-furious.tumblr.com/post/84561068276/so-i-saw-the-why-is-the-asterisk-in-trans-bad-but
http://practicalandrogyny.com/2013/10/31/about-that-often-misunderstood-asterisk/
http://nataliereed84.tumblr.com/post/65412526336/so-lets-talk-about-the-fucking-asterisk
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