Dismorfia dos filtros
A tela do celular não é um espelho e a sua versão filtrada não é melhor do que você de verdade.
As redes sociais mudaram a maneira como trabalhamos, socializamos e vivemos — e isso é o que todos sabem. Mas também transformou radicalmente o relacionamento que temos com o espelho, moldando nossos conceitos de beleza e destacando nossas "falhas" enquanto tentamos atingir o "High Profile" do Instagram.
Pessoas mais jovens sempre foram mais suscetíveis do que a maioria em relação a pressão estética. Os pré-adolescentes, particularmente, ainda precisam enfrentar essa questão durante a puberdade, à medida que seus corpos e rostos se transformam diante de seus olhos. Mas, se no passado éramos bombardeados pelos inalcançáveis padrões de beleza mostrados em revistas ou filmes, hoje, crianças e adolescentes não só estão expostos à isso como podem moldar artificialmente seus próprios rostos. Tudo isso com apenas um clique de distância, usando filtros que promovem deformações faciais presentes no Instagram e Snapchat.

Então por mais que a nossa geração também tenha sido exposta no que diz respeito a padrões de beleza, lendo revistas estampadas por mulheres magras e altas — ou homens super sarados— de certa forma isso parecia distante; mas o problema com as redes sociais é que você se sente mais próximo dos influenciadores, que por sua vez parecem mais 'autênticos' do que uma celebridade hollywoodiana, por exemplo. Essa possibilidade de interação e aproximação entre seguidores x influenciadores multiplica a sensação de inferioridade, que faz com que os usuários não se sintam tão importantes por não terem a estética daquele garoto ou garota que eles seguem.
P.s.: nessa altura do texto vocês já devem imaginar que quando eu falo sobre influenciadores, se trata daqueles que reproduzem esse estereotipo 'a la kardashian'. Né não? Então tá bom.

Como resultado da infiltração das redes sociais em todos os aspectos da nossa vida, a idade média das pessoas que fazem cirurgia plástica caiu. Um estudo recente realizado no Brasil pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) mostrou que nos últimos dez anos houve um aumento de 141% no número de procedimentos entre jovens de 13 a 18 anos. Sendo que em 2018 — ano do último censo realizado pela SBCP — , foram feitas 1,7 milhão de cirurgias plásticas estéticas ou reparadoras, das quais 5% (equivalente a 58.000) realizadas em pacientes com até 18 anos. Por conta disso, como censo final, a idade média dos pacientes agora é de 25 anos para mulheres e 33 anos para homens.
Infelizmente isso não me surpreende. Tenho uma irmã que, aos 9 anos, fala sobre cirurgia plástica com as colegas de escola. Como assunto banal. Por mais que a gente discuta a gravidade disso dentro do ambiente familiar, no YouTube blogueiras com um público extremamente juvenil mostram os procedimentos estéticos que fizeram e, quanto mais as pessoas falam sobre isso, mais normal se torna. Além do mais, isso faz com que adolescentes já saibam exatamente quais cirurgias querem fazer quando completarem 18 anos.





Está mais do que documentado que adolescentes de várias partes do mundo estão se afogando em padrões de beleza irreais, que exigem horas do dia em frente ao espelho aplicando maquiagem e fazendo rotinas de skincare que exigem 10 etapas e 100 produtos diferentes indicados por influenciadores. Para os "problemas" que os produtos não conseguem resolver, surgem cada vez mais clínicas que realizam cirurgias plásticas (principalmente aquelas que remodelam com preenchimento de ácido hialurônico, gordura, plasma e etc).

Globalmente, o Instagram possui mais de 408 milhões de selfies postadas.
Com jovens de 16 a 34 anos representando 61% dos usuários do Instagram e de 18 a 24 anos representando 77% de usuários do Snapchat, não é difícil entender o porquê dos jovens serem mais suscetíveis aos efeitos prejudiciais que a cultura das redes tem na autopercepção.
Os filtros, em particular, estão desenvolvendo uma tendência perigosa, na qual as pessoas se sentem inseguras por não serem tão bonitas quanto seus próprios 'seres filtrados'.
O termo ‘dismorfia do Snapchat’ ganhou força mais ou menos no meio desse ano, quando um relatório publicado pela Academia Americana de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva divulgou que mais da metade dos cirurgiões plásticos têm pacientes que solicitaram procedimentos estéticos para se parecer com filtros do Snapchat (tornando os olhos maiores, lábios mais cheios e os maxilares mais estreitos). Exatamente um Holly Natural, o atual filtro favorito do Instagram.
E eu não vou me safar dessa não, viu? Recentemente aconteceu algo bem… digamos… tragicômico: eu tenho -relativamente- um número alto de crises de identidade e num determinado período da minha vida editei meu rosto no FaceTune para me livrar das manchas, espinhas e algo a mais que pudesse me incomodar. Depois, percorri por essas fotos e pensei "nossa, como eu estava melhor e mais bonita no mês passado" — embora, na realidade, eu nunca tivesse sido assim, meu cérebro foi enganado.
É muito prejudicial você se odiar por ser inferior à sua versão filtrada e que sequer existiu. É grave a gente se dar conta de que muitos recorrem à cirurgia plástica pra corrigir a diferença entre o que vêem na tela e o que vêem no espelho. Então, qual é a solução?
Muitas vezes pensei "eu realmente quero mudar meu rosto ou só penso nisso porque sinto que não sou boa o suficiente para os outros?". Não estou aqui para julgar a cirurgia plástica, na minha opinião ela não é boa nem ruim — são situações que precisam ser analisadas. Mas se você estiver fazendo isso porque não gosta de si mesmo, uma operação não mudará nada.
Bom, esse foi o capítulo de hoje! Mas ainda temos muito assunto para os próximos dias. O Instagram deu um depoimento discorrendo sobre o assunto e disse que estudam a possibilidade de banir filtros que causam dismorfia. Por enquanto, tudo segue igual. Mas atualizo vocês!
Beijos doces nesses rostos lindos!
