Os paralelepípedos encantados
I
Já passava da meia-noite. Embora estivesse cansado, o sono teimava em não vir. Desabotoei a camisa e fiquei descalço; fazia parte do meu ritual diário após um longo dia de trabalho. Coloquei um vinil qualquer para tocar; era um blues, daqueles que os solos nos fazem fechar os olhos e respirar fundo. Aquilo pedia um whisky, mas eu não bebia. Pedia um cigarro, mas eu não fumava. Talvez pedisse um baseado, mas este eu não fumava também. Peguei um copo de água com gelo e fiquei na varanda, o som das conversas de bar começando a surgir nas ruas de paralelepípedos encantados por uma bossa nova antiga. Acho que era algo de Tom e Vinicius. É, eu estava no Rio àquele tempo, coisa de trabalho. A guitarra no blues do meu vinil tocou alguns acordes tão agudos que meu coração acelerou e um pensamento me percorreu a mente paralelamente a uma lágrima que ousava descer pelo meu rosto. Não me via, mas imagino ter sido uma cena maravilhosa: eu, descalço, camisa branca aberta, copo de água com gelo na mão esquerda, mão direita no parapeito da varanda, olhar cansado em direção à rua, o rosto iluminado por uma lua amareladamente cheia, e uma lágrima prateada delicadamente pousada na minha bochecha direita. De repente não era no Rio onde eu estava, e sim em Recife. Eu não estava mais só, a cama estava desforrada e ela estava na janela, usando minha camisa. Então, eu estava no Rio de novo. De algum modo que não entendia, ouvir blues me fazia lembrar dela. O mais interessante é que ela odiava blues. Vai ver era por isso. O volume da sexta à noite aumentou e decidi me retirar. Fechei o acesso à varanda, sentei no sofá e terminei minha água. Naquela noite a única coisa que eu não queria era a presença da ausência dela. Mas isso era a única companhia que eu tinha. Quer dizer, isso e a saudade de minha Isabela.
II
O ano era 2007. O lugar era o Paço Alfândega, um shopping no bairro do Recife Antigo. Havia uma exposição de fotos, pinturas e documentos sobre a história da escravidão nas cidades de Recife e Olinda. Eu estava lá por acaso, na verdade estava lá de passagem. Comprara um vinil do Cartola na Livraria Cultura e, horas mais tarde, me encontraria com uns amigos na Rua da Moeda. Passar por dentro do Paço fazia parte do caminho, a exposição era bem interessante e iria ajudar a passar o tempo, fiquei. Parei para observar uma pintura que mostrava um homem negro de calças brancas e surradas sentado em um banco de madeira, segurando uma folha de papel. Senti que havia alguém ao meu lado e olhei, puro instinto e curiosidade de saber quem era. Uma menina, morena, magra, olhos de Índia, traços afilados no nariz e maçãs do rosto, boca carnuda, cabelos cacheados num rabo-de-cavalo provavelmente feito às pressas, piercing prateado no lado direito do nariz, sem brincos, sem aneis, sem pulseiras ou relógio, unhas vermelhas, uma blusa azul-clara sem mangas, uma calça jeans desbotada e rasgada nos joelhos e um all-star branco um pouco gasto. Devo ter demorado um tempo razoável nessa observação estilística porque ela perguntou se eu estava bem, ao que respondi alguma besteira qualquer que a fez rir. Começamos a conversar sobre a pintura, a exposição, a livraria, a cidade, nossas vidas. Ela era designer, fazia mestrado na área de artes plásticas e andava de bicicleta. Eu era jornalista, escrevia contos em um blog e andava de carro. Ela lia o meu blog, eu trabalhava com a prima dela. Nós trocamos contatos e então tudo foi fluindo. Nos vimos de novo, e de novo, e de novo. Até que a relação ficou séria e, um ano depois, morávamos juntos. Os primeiros dois anos foram perfeitos. 2010 foi um pouco conturbado, é verdade, ficamos em idas-e-vindas basicamente causadas por manteigas dentro ou fora da geladeira e entrar em casa com ou sem sapatos, até que uma dessas "idas" durou seis meses. Nesse meio tempo fui ao Rio de Janeiro para uma entrevista de emprego numa grande editora. A proposta que me fizeram era boa, a oportunidade melhor ainda, aceitei. Ela concluiu o mestrado e viajou pros Estados Unidos. Ao final desses seis meses, era dezembro. Voltei para Recife, conversamos bastante, era óbvio que ambos queriam reatar mas os sonhos profissionais e a dificuldade de lidar com a vida a dois estava dificultando todo o processo. Chamei para morar comigo no Rio, falei que ela com certeza arranjaria emprego por lá, ela me contou que passara no doutorado e iria pra França na primeira semana de janeiro. Doutorado. Eram cerca de quatro anos. Esfriou o tempo, o café que a gente tomava, a conversa, meu peito com uma soma de saudade precoce e arrependimento. Esfriou a mão dela na minha. O rádio da lanchonete tocava algo melancólico que não me recordo, mas combinou com o momento. Paguei a conta, disse que a próxima seria dela, sorri, ela sorriu de volta, levantamos, amigavelmente nos despedimos com um abraço e partimos para as nossas vidas. Notei, enquanto caminhava de volta para casa e observava as pessoas que vinham no sentido contrário, como somos frágeis e não nos preocupamos com o que realmente importa. Estamos sempre atrasados, estressados, numa correria por algo que não sabemos o que é em em vez de lutarmos pelo que de fato queremos. Não nos olhamos mais nos olhos, e os olhos têm tanto a dizer... Só agora lembrei que não olhei nos olhos dela. Talvez eles me dissessem o que Isabela realmente sentia.
III
Domingo, 19 de outubro de 2014. São exatamente onze horas e vinte e cinco minutos de uma noite iluminada por luzes artificiais espalhadas pela cidade. Acabo de chegar e estou bastante cansado. O homem foi gentil ao me deixar tomar um café puro e escrever um pouco enquanto ele terminava de verificar o caixa para fechar o bar. Infelizmente, minha cabeça está muito cansada para organizar ideias e planos. Preciso dormir. Este é o foco agora. Talvez não escreva amanhã. É preciso pensar antes. Chove lá fora, posso ver pelas janelas de design antigo. Lembrei do Lobão. Esfreguei os olhos numa tentativa sem sucesso de espantar o sono que o café não foi capaz. É melhor dormir. Subirei as escadas onde cada degrau irá me parecer uma eternidade. Bocejei. Era a confirmação de uma longa viagem rodeada de pensamentos. O homem veio até mim. Sorriu e curvou levemente a cabeça, dizendo algo que não compreendi. Me olhou por uns segundos, sorri de volta e toquei a ponta do chapéu. Educadamente retirou a xícara, virou-se e tomou o seu caminho. Levantei e ele me deu tchau, sorrindo. O café ficou por conta da casa.
IV
Escrevo isto na varanda de um hotel em Paris, ao meio-dia de uma quarta-feira um pouco acinzentada por nuvens que, mais tarde, derramarão suas lágrimas. Ainda estou sozinho, mas agora me sinto mais confiante do que nunca. Irei em busca dela, que povoou meus pensamentos desde aquela noite no Rio. Não sei se escreverei novamente, mas caso não o faça, não há com o que se preocupar. Com certeza estarei muito ocupado amando minha Isabela.
