Ruth Manus me acha um imbecil

li um texto da Ruth Manus que enumerava 20 indícios que a leitora estaria namorando um imbecil e senti tantas coisas que não consigo nem escolher uma pra colocar aqui. não quero ofender ninguém, mas eu não consigo entender o apelo da Ruth Manus pra alguém que não seja ela mesma, porque esse é o público-alvo dela: pessoas como ela, brancas, loiras, vinte-e-poucos-quase-trinta anos, de classe média, do clube da luluzinha, coxinha cool, parece que tá sempre pronta pra sair na Caras. mas ok, tem muita gente assim, mas eu continuo não entendendo. Ruth vive no mundo maravilhoso onde todo mundo é especial e a vida tem um script e com fé e sorte todo mundo vai viver sua propria comédia romântica com o Ashton Kutcher. Ruth obviamente não escreve pra quem tá fodido. não falo nem de fodido de grana. essa galera obviamente não é o demográfico dela. to falando de fodido emocionalmente. to falando de quem é introvertido nesse mundo de ~proatividade~ e ~trabalho em equipe~. to falando de quem não tem necessidade de ver gente o tempo todo. ou de ser visto. to falando de quem adora a companhia de si mesmo e das próprias músicas e livros e filmes ou talvez só do próprio computador com o Steam lotado de jogos. to falando de quem olha pra fora da janela e não entende o que tá acontecendo. não entende o sol, não entende o porque o carteiro tá usando manga longa e calça comprida num sol de 39°C. gente que enxerga pequenas e grandes mazelas da vida que são consciente ou inconscientemente ignoradas na ditadura do bem estar e do instagram. gente que se sente vazia numa sociedade em que até no Tinder as pessoas são baiacus em guarda de tanto conteúdo, com todos os “livros e filmes e música” que eles dizem amar (tá, migo, mas quais?). gente que é clinicamente depressivo, ansioso, bipolar, agorafóbico, claustrofóbico ou fan do Radiohead. Ruth Manus não escreve pra quem tem problema de verdade, quem tá doente, quem sofre, quem é atormentado por uma ideia, uma paixão, um sonho que talvez nunca se realize. Ruth Manus escreve só pro universo do bom mocismo moderno, pros rebeldes de mocassim. o texto faz pressuposições absurdas, como por exemplo de que todos os seus amigos são super ~do bem~ e que qualquer um que não se der bem com eles tem obviamente algum problema seríssimo. ou que seus amigos são ótimos juízes de caráter e, se eles não gostam de alguém, a pessoa deve ser mesmo podre. veja, isso não está escrito, mas tá lá. é só ler os tópicos e pensar bem. seus amigos também não podem ser cruéis de graça. nem passa pela cabeça dela que vai ver você tenha um ou mais amigos que são verdadeiros cuzões. por que quem anda com gente cuzona, né? obviamente, todo mundo anda só com quem é muito boa companhia. eu mesmo só ando com gente que minha mãe e o papa aprovam. não. ela, pelo jeito, desconhece coisas como fobia social ou mesmo misantropia. no mundo dela, todo mundo sabe ser simpático e engraçado e falar as coisas certas o tempo todo. aliás, no mundo dela, as pessoas tem que ser engraçadas e simpáticas o tempo todo, o que pode até ser a regra geral do mundo real, mas eu pessoalmente acho um porre. também não pode não gostar de crianças. como é que pode uma coisa dessas? como alguém não gosta de crianças? é que nem não gostar de Disney, de pôneis, de arcoíris e sorvete de chocolate. pois é, tem gente que não gosta. tem gente que não gosta de gente, nem de sorvete de chocolate. aí vem uma frase que precisa ser citada: “ Pessoas legais costumam ser as mesmas, invariavelmente.” ah é? engraçado, eu tenho a impressão oposta. gente legal normalmente se adapta a situação. aliás, gente que tem noção. gente que tem noção sabe não falar em certas situações, sabe ser conveniente. quem é a mesma coisa em todas as situações é gente inconveniente, gente burra, gente escrota, que não enxerga o mundo ao redor. no mundo da Ruth Manus também, as pessoas sabem equilibrar perfeitamente os relacionamentos amorosos com o resto da vida, por que obviamente isso é a maioria no mundo, né? gente equilibrada tá sobrando. não. e ela também parece que ignora que as pessoas tem diferentes graus de sociabilidade. imagina, se uma pessoa tem só três amigos e a outra tem 200, se vocês não fazem o mesmo número de interações sociais de cada lado, deve ter algo de errado, não é mesmo?

não, pra Ruth Manus, gente com problema é imbecil. gente que não gosta de gente é imbecil. gente que não segue o status quo rebelde do high school musical é imbecil. gente que não gosta de pizza de brócolis é imbecil.

não to nem dizendo que eu não sou imbecil. provavelmente eu sou mesmo, especialmente com meu irmão. mas acho que as definições de imbecil precisam ser atualizadas. imbecil não é quem não decide seguir regras e padrões de convivência que não ajudam em nada e às vezes até atrapalham a vida em comunidade. ser imbecil não é não corresponder a como que você se sente no direito de ser tratado. aliás, ser imbecil é o contrário disso. ser imbecil é se sentir no direito sobre o outro em coisas que você obviamente não tem voto. ser imbecil é invadir o espaço do outro e tentar forçar o outro a andar do jeito que a gente acha certo. isso é infinitamente imbecil.

quanto a mim, eu só quero o direito de ser taxado de imbecil só quando eu realmente estiver sendo um imbecil.