Relicário

Eu sempre gostei de colecionar pessoas favoritas e guardar num relicário, de vidro; que é para nunca esquecer que eu posso vislumbrar minhas mais sinceras lembranças, sempre que precisar de um alento nesse mundo cão. O problema do relicário afetivo, é que dependendo de como é projetado, seu abre-fecha fica gasto, frouxo e assim o conteúdo de dentro se desgasta. De forma tal que tempos depois, a única pergunta que nos resta perante as imagens quase inexistentes é “Como isso aconteceu? ”. No meu objeto hipotético, Isadora sempre está intacta — quem dera eu pudesse fazer o mesmo com a sua vida.

Em algum momento, em meados de 2012, nossas nadadeiras mais curtas se perceberam e começaram a nadar nesse cardume de duas, que é meio lento, mas nada bem, funciona. Ela encontra em mim a brisa marítima de casa, eu encontro nela os meus olhos de mundo. De lá para cá: Cabelos, relacionamentos, religiões, visões políticas, 3 governos (só dois legítimos, vale lembrar), 2 filmes de Star Wars, mudanças, vida adulta batendo na porta… BAM! Os aquários trincaram, a gente esqueceu de respirar mais, a gente esqueceu como era respirar sem aparelhos, foi… ficando…difícil… de… respirar… Isadora… me escuta… a gente precisa respirar! A parte boa de ser sensível é que a gente sente tudo um pouco a mais. A parte ruim também.

A gente sentiu tanto do mundo que danificou as engrenagens. E quando a gente despedaça, quem nos ama despedaça um pouco junto. Então até mesmo aqui seguimos juntas, vê? A gente se perdoa automaticamente por não responder mensagens na hora. A gente demora, mas se liga e fala em um dialeto só nosso. A gente pede socorro uma para outra. A gente abraça os silêncios uma da outra, porque até mesmo eles são confortáveis. Somos frágeis, mas não quebramos e nem vamos.

Fazem 2 anos que o meu par de olhos castanhos não tem a sorte de repousar no seu par de olhos castanhos, Isa. Fazem 23 anos que os nossos olhos vagam por esse mundo. Que sorte a nossa que um dia, a gente decidiu que todos os dias a gente vai poder se ver sob a ótica uma da outra.

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