A Philip Morris quer que você pare de fumar

É o cachorro mordendo o dono da indústria.

Imagina que você vai na feira e o feirante fica gritando que o tomate dele está estragado, que o brócolis queimou e que a batata está cheia de fungos? Ficaria aquela dúvida: o feirante resolveu ser o sincerão do dia? Tem pegadinha de venda aí? Esse movimento disruptivo (risos) chegou à todas as camadas da sociedade?

Você volta para casa ensimesmado. "Não é possível, o cara só pode estar louco! Semana que vem tudo voltará ao normal". Na semana seguinte vai à feira e lá está o feirante, mandando que tudo que ele vende está uma merda e vai te fazer mal.

Esse feirante é a Philip Morris. A empresa, que por anos nos deu grandes alegrias (eu sou defensor do papel apaziguador do cigarro, desculpem), resolveu que era hora de falar que o negócio é o bastão do capiroto. Sério. O feirante está maluco. É só entrar no site da empresa para ver que eles estão em uma cruzada contra o cigarro de encher de amor o coração oco do José Serra. Mas qual é a dos caras? Mea culpa? Aquela ressaca moral que nos acompanha depois de uma noitada de bebida e cigarro? Ou tem bituca nesse meio fio?

Tem bastante bituca. A empresa está investindo em novas formas de fumar. Cigarro eletrônico, cigarro online, candy crush de cigarro. Está tudo baseado (risos) na tecnologia. É como se a Cia das Letras chegasse amanhã e falasse que o Gutemberg é um demônio de 27 asas que conjura todos os males do mundo e que Jeff Bezos é nosso senhor salvador. Os caras querem acabar com o cigarro e isso é tão maluco quanto intrigante. Porque talvez seja a primeira vez — de acordo com dados nada factíveis do DataJulio — que uma indústria tradicional escuta os anseios de um mercado consumidor antes que esse mercado compre uma batalha contra ela. E esse mercado é o jovem.

O jovem não fuma mais. Pelo menos não fuma cigarro. O jovem fuma tecnologia (e maconha, mas quem nunca?). O jovem come tecnologia, bebe tecnologia e até transa com a tecnologia. A ideia de pagar um punhado de reais por um bastão de fumaça não funciona mais para essa galera. O Corote na porta do supermercado ainda vai, mas deus os dibre de dar uma grana para a indústria do tabaco.

Mas o jovem não milita contra o cigarro. Ele simplesmente ignora. Para ele é como o bondinho: uma memória do passado presente em filmes preto e branco. Porque há um anacronismo no cigarro. Ele é como a câmera analógica: só é legal para quem viveu ou para quem é hipster. Os ex-fumantes são o segundo pior tipo de ex — perdendo de longe para os ex-comunistas — e a sociedade tem a sensação de que gastou demais com câncer. Então a Philip Morris, fugindo de ser a Kodak da vez, vai lá e manda cigarros que são muito Black Mirror. Os caras são safos demais e merecem palmas por isso.

Logo logo a indústria vai mudar e fumar um Marlboro será como revelar um Kodakchrome: só umas seis pessoas no mundo saberão fazer isso e elas estarão ocupadas demais vivendo o final de suas vidas.