Afinal, os Mamonas eram mesmo “politicamente incorretos”?

O que as músicas dos Mamonas nos ensinaram vai além da discussão rasa.

Os 20 anos da morte dos Mamonas Assassinas trouxeram à tona a eterna discussão de que, antigamente, éramos bárbaros sem frescura que aceitávamos todo o tipo de piada com as minorias. Aquela velha história de que as piadas dos Trapalhões hoje seriam monitoradas pela NSA e que os EUA nos invadiriam, como bárbaros que continuamos. Inclusive, a turma que brada que sente saudade das piadas de outrora adoraria essa invasão, mas isso é outra história.

O problema é que a leitura sobre o Mamonas está incorreta. Mais do que a tal da piada com o oprimido, a banda sempre fez a tal da piada com o opressor. Os Mamonas nos ensinaram a aceitar o diferente, a respeitar o imigrante e o migrante, a entender que o consumo não é a melhor alternativa, a respeitar os animais. Confiram comigo no replay, música por música:

1406

Poucas pessoas discutiam o consumismo como o Mamonas de 1994. 1406 vai além do tratamento que a dão, de uma sátira ao pobre, e se torna quase um tratado sobre o consumismo. O personagem da música é diariamente submetido aos diversos produtos que trazem uma suposta alegria para ele e para os seus. Tanto que a mulher o cobra por um estilo de vida que ele não pode ter e o que resta? Isso mesmo, a necessidade de workar.

Vira-vira

Outro gênio da comédia brasileira, o Mazaroppi, tratou diversas vezes o migrante na cidade. Vira-vira trata de um tema muito mais caro hoje: como tratamos o imigrante. Em tempos de Estado Islâmico aterrorizando cidadãos de todo o mundo, o Vira mostra a epopeia de um português para se adequar ao status quo sexual do momento. Convidado para uma suruba, Manoel não pode ir (possivelmente por estar trabalhando para ter seu ganha pão suado) e resolve mandar sua esposa, Maria. Vejam, é uma forma de se integrar à nova sociedade. Antes que Donalds Trumps surjam para dizer que ele não faz parte daquele país e que deve voltar para sua pátria, Manoel se antecipa e vai lá, por pensar que a suruba é parte diária da sociedade brasileira. Quem pode julgar Manoel, estranho em uma terra estranha?

Pelados em Santos

O amor sempre foi incompreendido. As pessoas tratam Romeu e Julieta como um grande romance, quando na verdade temos um duplo homicídio dos mais grotescos. Pelados em Santos fala sobre a conquista da amada, as dificuldades que o personagem encontra para agradar a pessoa a quem ele tanto quer bem, a necessidade de trazer a felicidade com a compra de presentes que estão além do seu orçamento. Dinho era, antes de tudo, um homem apaixonado por Valéria e Pelados é uma bela história de amor que, tal e qual Romeu e Julieta, não teve um final muito feliz.

Chopis Centis

O que é se divertir? Para alguns, um jantar no topo do prédio mais chique do mundo é diversão. Para outros, uma espiada nas pessoas tendo como refeição um lanche do Bob`s é a receita de um final de semana feliz. Os Mamonas trouxeram para nós a diversão nas pequenas coisas. Mirar umas camisetas loucas da Wagon, comprar um tênis firmeza da Mizuno, ver um filme de ação que os entendidos de cinema esnobam. Tudo isso pode ser divertido e o melhor, dentro do orçamento do personagem da música. Mamonas nos contou uma velha história: a felicidade está nas pequenas coisas.

Jumento Celestino

Diferente de Vira-vira, essa música traz um tom de denúncia. Enquanto o imigrante português tenta se adequar aos costumes do Brasil, o migrante enfrenta todo o tipo de dificuldade por ser nordestino. Embasbacado com a cidade, gasta mundos e fundos para cuidar do seu único bem, o jumento Celestino. Infringindo as leis de trânsito, possivelmente por desconhecimento, ele é rechaçado pela sociedade xenófoba e, ainda por cima, perde seu maior bem, o jumento. É Vidas Secas encontrando Viva o povo brasileiro.

Sabão Crá Crá

Em tempos de Mad Men, é muito fácil discutir os limites da publicidade. Sabão Crá Crá já fazia isso ao prometer aquilo que não cumpre: não deixar que os cabelos do cu enrolem.

Uma Arlinda mulher

Poucos homens amaram como o personagem de uma Arlinda Mulher. Deu carinho, deu amor, deu afeto, ensinou coisas e, por essas coisas da vida, o relacionamento acabou. Uma Arlinda Mulher é o Detalhes dos Mamonas: enquanto Roberto Carlos recorda à amada que ela é quem perdeu ao deixá-lo, Dinho e companhia explanam os fatos de que, antes dele, a Arlinda era uma pária social. Não há violência à mulher como prega a turma do NOSSA NÃO POSSO CANTAR ISSO SEM OFENDER ALGUÉM. O personagem é um homem que foi trocado e, como qualquer pessoa rejeitada, enumera o que de bom trouxe para a vida de outra pessoa.

Cabeça de Bagre II

O Ocupa Escola é reflexo direto dessa música dos Mamonas. Muito antes de discutirmos a educação nas escolas brasileiras, a banda já tratava do assunto mostrando que a nossa educação de base está defasada. “A polícia, é a justiça de um mundo cão, mês de agosto sempre tem vacinação, na política, o futuro de um país, cala a boca e tira o dedo do nariz”. Em um só trecho, os Mamonas falam mais sobre a nossa sociedade do que muito textão que surgiu nas redes sociais sobre a banda. O aparelhamento da segurança, o descaso dos políticos com quem eles deveriam representar, o Estado opressor. Tá tudo ali, sendo dito para crianças que, até então, tinham como exemplo de democracia o Jaspion lutando contra Satan Goss.

Mundo animal

Greenpeace, WWF e outras fundações pró natureza nunca fizeram pela fauna e pela flora o tanto que os Mamonas fizeram. “Totalmente beautiful, as baleias no oceano, nadando com graça, fugindo da caça, dos homens humanos. O homem é corno e cruel, mata a baleia que não chifra e é fiel” gruda mais na cabeça de um criança que qualquer pelicano sujo de óleo. Pense no moleque malvado que você era em 1994. Daqueles que tacavam pedras em gatos, chutavam cachorros e fazia outras animalices denunciadas pela música. Depois dessa mensagem de paz dos Mamonas, você não ia parar com isso no mesmo momento? Pensem na graciosidade da baleia e em como somos imensos paus nos cus por caçarmos esse animal tão incrível?

RoboCop gay

A música mais polêmica da banda não é, ao contrário do que pensam, homofóbica. RoboCop gay fala sobre a libertação. Sobre como uma pessoa, presa a um corpo que não é seu, se liberta das amarras das convenções sociais. Enquanto a burrice enxerga isso como uma piada com o homossexual o Dinho, uma figura muito a frente do seu tempo, canta sobre como esse homem rompeu o tal do contrato social para ser quem ele sempre quis ser, um RoboCop gay. E o que dizer da mensagem “abre sua mente, gay também é gente” se não que ela é tão importante para o movimento quanto Harvey Milk?

Boys don`t cry

O poliamor amor é moda. Todo mundo ama a todos, tem relação a três, a quatro, ao cubo. Mas em 1994 não era assim. Era papai e mamãe, sem esse rolê de pegar quem quisesse com o consenso do companheiro. O personagem da música não tem o menor pudor em dizer que, por amar tanto, ele aceita dividir.

AIN MAS E O TRECHO “ELA É UMA VACA, EU SOU UM TOURO?”. São animais sagrados na Índia. Para Dinho, o sacro e o profano andam lado a lado.

Debil Metal

Pensem como nossos pais nos achavam enviados do Satã por escutar metal? Daí vem o Mamonas e joga o estilo musical em um conceito no qual os adultos pensam “isso é coisa dos jovens”. A banda descriminalizou o Capiroto a tal ponto que Michel Temer só conseguiu chegar ao posto de Vice-Presida da nação, mesmo sendo um adorador do diabo.

Sábado de sol

Quando ouvimos a música de maneira rasa, pensamos que os Mamonas eram contra liberdades civis como o direito de fumar o que bem entendermos. No mundo de hoje, no qual entendemos a nocividade das coisas, fica cada vez mais claro que o álcool, o cigarro, House of cards ou maconha não tem mais diferenças entre si. Mas vejam a entonação de Dinho ao cantar a música. Ele claramente está sob efeito da maconha e o feijão pode ser qualquer coisa. Inclusive feijão.

Lá vem o Alemão

É costume acharmos que, ao expor uma situação vexatória por meio do humor, a pessoa está fazendo piada com aquilo. Mas prestem bem atenção nessa música. Ela é um alerta para todas as moças de 1994: não caiam na lábia do Alemão. Mesmo ele sendo lindo, loiro e forte, com dinheiro e um Escort. Por mais que pareça dor de corno, a música tem uma mensagem importante: por que não é contada o que aconteceu com a moça em nenhum momento? Não sabemos se ela está feliz com o Alemão, se eles realmente chegaram à praia ou a qualquer outro lugar. O motivo é simples: a moça, seduzida pelo status do Alemão, foi sequestrada e sabe-se lá o que aconteceu depois. Ela tem todo o direito de arrombar o coração do seu amado, e isso fica claro na música. Mas o destino dela certamente foi cruel ao escolher sua companhia não pelo que ele traz de carinho e afeto, mas de bem material. Com os Mamonas, aprendemos uma grande lição: uma gangue de palhaços parados na porta de uma escola oferecendo doces pode ser uma má escolha.