E aí, faço a foto?

Aqueles momentos no qual a decisão de fotografar tem de ser mais rápida que 1/8000 no obturador.

Por conta dos 107 quilos, dos quais já perdi seis, tenho ido a pé para o trabalho nos dias em que tenho aula de fotografia. Nos outros, sigo firme e forte na magrela. E em todos esses dias, a máquina fotográfica segue sendo minha companheira para aqueles momentos que só a rua propicia. Como sabemos, a rua é cheia de pessoas fazendo pessoices diversas.

Hoje de manhã um morador de rua deitou em frente aos carros na Avenida Paulista, no cruzamento com a Rua Augusta. Não sei como foi o começo da história, se ele chegou e deitou na frente dos carros que aguardavam o sinal ou simplesmente caiu ali. Quando olhei lá estava ele, deitado em frente aos carros no farol fechado.

Meu primeiro instinto foi colocar a mão na mochila para pegar a câmera. Não é todo dia que uma pessoice dessa acontece e pô, baita foto. Estava longe, parado no farol da ciclovia, mas a lente de 105mm me permitia fotografar sem chegar perto. Era só mirar, fotometrar e correr para o abraço do Photoshop quando chegasse no trabalho. Mais um dia comum na vida de quem fotografa a rua.

Mas aí veio a reação da ação. “Porra Julio, puta mancada”, me veio na cabeça. Aquelas discussões infinitas sobre o papel do fotógrafo em uma cena no mínimo antiética e perigosa começaram na minha cabeça. “Para que se aproveitar da situação do cara?”. “Livre arbítrio está aí e ele usufruiu dele” e tantos outros questionamentos surgiram. Vi os carros desviando daquele corpo inerte no meio da rua, dando seta, ligando o pisca pisca e tudo que eu pensava era “não vamos fazer caralhos qualquer quanto a isso?”.

Fiquei parado. Não sabia como reagir. Pego a câmera? Ajudo o cara? Ligo para a polícia? Nisso, uma taxista parou seu carro, desceu e, junto com uma pessoa que andava na rua, carregou o homem até a ciclovia. Não fiz caralhos nenhum, como a maioria.

Minutos depois, outro morador de rua fazia algo arriscado, se equilibrando no parapeito que separa a Praça do Ciclista do Viaduto Okuhara Koei. Uma queda de o que, dez metros? E o homem lá, se equilibrando, um Philipe Petit sem o glamour do World Trade Center, mas com tanta coragem tanto. Esse eu já tinha visto à noite e, diferente dessa manhã, avisei policiais próximos que alguém arriscava a vida naquele parapeito. Mas nessa manhã a moral não me consumiu: saquei a câmera, fotometrei e fiz a foto. O ato de coragem venceu a discussão contra o perigo que ele corria. Não é a primeira nem a última vez dele ali e esse último dia pode vir amanhã ou daqui dez anos.

O cara é muito fera, tá doido.

A moral da história é: faça a foto quando você quiser. Quando se sentir bem. Quando achar que tem algo para mostrar ao mundo ou apenas para você mesmo. Ajude, claro, mas faça a foto. Não passe a manhã se remoendo por não mostrar que algumas pessoas podem ser tão mesquinhas quanto você, parado ali naquele farol, esperando para passar direto ao invés de deitar no chão.