Em alguns momentos da fotografia eu sou como o governo Clinton: miro em uma base militar e acerto um hospital. A analogia não foi muito boa e não condiz com o que eu realmente quero dizer, que dou uma sorte incrível em algumas fotos.

Exemplo disso foi a foto que tirei ontem de um morador de rua na Avenida Paulista. Na minha cabeça, era uma obediência à regra dos terços de uma imagem forte, um morador de rua ajoelhado, mãos juntas, pedindo ajuda. Fui para casa, dormi o sono dos justos e, ao editar as fotos hoje de manhã, notei que o cara ao fundo pedia comida. Daí veio a foto, que chamei de “Dois pedidos”.

Juro que só vi o cara ao fundo na hora da edição

A foto ficou boa, mas foi de uma cagada incrível. Uma cagada que eu tive outras duas vezes sem notar. Aliás, ainda sobre essa imagem, é bem capaz que o cara ao fundo nem esteja pedindo algo no restaurante. Mas o importante é o que a imagem conta para você.

Tempos atrás, vindo para o trabalho, presenciei um acidente de carro. Saquei a máquina no automático, tentei um ângulo decente sem parecer um maldito adorador de batidas de veículos, um admirador da desgraça alheia. Fiz a foto, dei aquela checada no visor para ver se nada tinha estourado e segui meu caminho. Editei a imagem, subi no Flickr e em outras redes sociais. O Bruno Santos quem me deu a letra de que, na imagem, o cara que bateu foi cordial e deu uma água ao cara que foi batido. Eu sequer tinha notado que havia uma garrafa d’água na imagem.

Como a pessoa não me vê a água, sério?

Pouco depois, estava de férias e saí para fazer umas fotos. Cheguei no Masp e dois caminhões de som estavam parados para o protesto dos professores e alunos contra o fechamento de escolas em SP. Me enfiei debaixo do carro, perto das caixas de som, com um fone de ouvido de prontidão para não estourar os tímpanos com o som. Notei que uma senhora — que parecia nada ter a ver com a história — fazia anotações, gritava coisas desconexas e me olhava intrigada. Esperei ela dar um vacilo e fiz a foto, contextualizando ela com o cenário. Por sorte, um senhor passou cobrindo os ouvidos e melhorou uma foto que poderia não ter sentido. Só vi isso na edição.

BAITA CAGADA, HEIN JULIO?!?!?!

Pode parecer desatenção da minha parte, mas prefiro achar que é o excesso de informações da cena. Acredito que com o tempo essas pequenas grandes coisas virem apenas grandes coisas. Por enquanto, sigo tendo mais sorte que juízo na fotografia. Ainda bem.

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