Mamãe tacou açúcar no Mozart

A insônia bateu forte e, do nada, brilhou na tela da TV a capa de Amadeus. “Pô, nada melhor que três horas de um filme sobre música clássica para conseguir finalmente dormir”. Tinha esquecido como o filme é incrível e, óbvio, perdi o sono de vez. Tem tudo que um filme bom precisa: uma trilha sonora maravilha, um ator principal cativante e um vilão fera.

Mas o papo aqui é outro: farei um revisionismo para explicar por que Salieri matou Mozart. Não foi a música, aquele lance de “tocado por deus” ou mesmo a risada de Tom Hulce. Foram os doces.

Salieri tinha dois vícios: ser um músico extraordinário e acúçar. Para um deles, a música, ele conseguia se controlar. Chegou, inclusive, a prometer a deus que se fosse tocado pelo talento divino, ficaria sem encostar em nenhuma mulher, como forma de respeito pela dádiva alcançada. Vá lá que cada um tem suas maluquices, mas enfim.

Só que o incontrolável era o doce. O bendito açúcar. Salieri não podia ver uma bolacha, um camafeu, uma caceta de uma colher de União na sua frente que já parava qualquer coisa para dar uma beliscada. Em uma das cenas do filme, ele dá aula para uma cantora e a atenção está toda voltada para uma bela vasilha cheia do Passatempo da época. Salieri não se concentra, caga para toda a situação e, com a destreza de conselheiro musical do Rei Leopoldo, seguem tocando com uma mão e com a outra faz as honras à gordice.

Porque o açúcar é foda, ele nos dá o infinito. O mundo só chegou onde chegou por causa do açúcar. Quando ficávamos só nas proteínas era aquilo: saíamos para caçar e pintávamos uma ou outra coisa porque todo ócio tem limite. Com o açúcar não. Quando o homem fez o primeiro quindim, veio junto com ele a Renascença. Certamente só chegamos à Lua graças aos pudins que comemos. E hoje é o sorvete que nos dá a capacidade de falarmos em realidade aumentada.

E foi justamente essa ânsia incontrolável pelo doce que fez com que Salieri matasse Mozart. Ele conseguiria conviver com aquela genialidade largada no mundo. Aguentaria calado que o cãozinho dos teclados viesse na forma de uma figura infanto-juvenil. Passaria por todas as dificuldades de uma vida com aquela risada (e aqui, nada contra a risada. Mas imagine uma pessoa que você odeia com aquele riso?) se nunca tivesse colocado uma colher de açúcar na boca. Porque o açúcar traz à tona aquilo que realmente somos. As vezes queremos pintar a Capela Sistina ou escrever Fogueira das Vaidades; outras vezes, queremos dar vacilo e matar nossos inimigos.

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