Olho no Lance
Quando comecei a pedalar, não conhecia muito a história do Lance Armstrong. Sabia que ele era campeão de tudo, que tinha umas tretas com doping, mas estava na superfície. O interesse pela bicicleta veio junto com a curiosidade pela biografia do cara. Ainda mais depois dele ter ido na Oprah e dito ME DOPEI MESMO MAS TODO MUNDO SE DOPOU NAQUELES ANOS INCRÍVEIS QUANTA SAUDADE.
Dei uma conferida em algumas biografias e vi que o cara era monstro fora das pistas também. Mas não esse monstro da quebrada, que faz tudo com excelência. O Armstrong era um monstro na vida das pessoas. Quem ousasse entregá-lo não conseguiria sequer jogar Paperboy pelo resto da vida. Quem não topasse participar dos esquemas de doping que ele aperfeiçoou (justiça seja feita, eles existem desde a invenção da bicicleta) estaria fadado a ser profissional da ciclofaixa de domingo, se muito.
Armstrong deixou um rastro de medo e ódio junto com os seus sete títulos do Tour de France. Pulou de exemplo de luta contra o câncer a Vito Corleone da magrela. Os poucos amigos sumiram e até a Sheryl Crow pintou ele como insensível, ao alegar que ele a deixou após descobrir que ela tinha câncer. Pulseiras e demais materiais do Livestrong encalharam em todo o mundo e, reza a lenda, existe um galpão cheio de materiais da campanha encalhados em algum lugar do Texas.

O ciclista sofreu alguns processos e hoje não pode disputar qualquer prova que tenha supervisão do órgão mundial antidoping. Ou seja, nem a meia maratona de Araçatuba ele pode correr. Só que na página dele, a história é outra. O cara postou a foto acima há onze horas e, dos mais de quatrocentos comentários, dois falam sobre o doping e dois são de brasileiros pedindo neve, porque o calor está de matar (os dados foram levantados pelo DataJulio e a margem de erro é de 100%, para mais ou para menos). O restante parabeniza ele pelas crianças, pelo trabalho a frente da Livestrong e o chamam de “campeão”.
Hoje rola uma espécie de revisão da história de Armstrong. Grande parte vai nessa ideia de que ele fez o que todos faziam, que todos foram injustos com Lance. Ele revive um momento que já foi seu, quando venceu um câncer na próstata que chegou até o cérebro para ser sete vezes campeão do mundo. Ele nos torna incoerentes, afinal como podemos negar que a história dele é incrível, por mais que tenha feito mal a quiçá centenas de pessoas? Todos que conhecem a biografia dele sentem uma ponta de ódio e outra de admiração. Exceto a Betsy Andreu. Essa — também com muita razão — é e sempre será apenas rancor.