AntiEric

O toque irritante do celular. Era o despertador avisando a hora. Sete e meia. Colocou na função soneca que ainda lhe renderia mais dez minutos de cochilo. Repetiu o mesmo processo mais umas três vezes, na quarta já estava soltando meio mundo de palavrões e levantando irritado. Ele odiava segundas. Ele também odiava terças e todos os outros dias da semana (nem os sábados e domingos escapavam do seu ódio). Foi no banheiro. Enquanto fazia suas necessidades fisiológicas percebeu que o celular ainda tocava. "Puta merda! Eu não desliguei essa porra não?" interrompeu seu momento no banheiro pra desligar o barulho irritante quando percebeu que dessa vez o celular tocava não como despertador, mas com uma chamada. Alguém estava ligando para ele. Mas quem ligaria aquela hora da manhã? Seria a sua tia pedindo mais um dos seus milhões de favores inúteis? Ou seria seu chefe lhe dando a maravilhosa noticia de que teria que trabalhar duas horas a mais por algum motivo que não lhe interessaria de maneira nenhuma?

-Alô... - soltou ainda com a voz rouca por conta do sono.
- Alô! Eric? Você ainda tá dormindo?

Era a Patricia. Patrícia era sua namorada. Pelo menos foi como eles determinaram naquela semana já que volta e meia eles terminavam e voltavam em curtos espaços de tempo.
Apesar do relacionamento instável Patrícia era bondosa e muitas vezes paciente com Eric, algo raro já que sua fúria excessiva e desprezo fácil causavam desconforto na maioria das pessoas.

- Nã-não... Tô indo pro trabalho agora. Faz tempo que eu tô acordado... Aconteceu alguma coisa?
- Não, não. É só que eu queria marcar de conversar contigo, pode ser?
- Bom, a gente já tá conversando agora, né?
- Sim, mas o que eu tenho pra conversar não pode ser por telefone. -

Fodeu. Eric pensou rapidamente em alguma merda recente que pôde ter feito. Não conseguiu pensar em nada. Frustrou-se.
- Tá bem então. Pode ser no almoço, eu acho. A gente pode se ver naquela padaria que você gosta de ir.
- Pode ser. Te vejo lá então.

Desligou antes mesmo de Eric se despedir. O que poderia ter acontecido? Nada tirava de sua cabeça que foi algo que ele fez. Até mesmo quando não fazia nada parecia ser sua culpa, então não seria surpresa pra ele se a conversa fosse em torno de algum sermão que fosse receber.
"Mais um motivo pra crer que hoje será uma bosta" pensou enquanto tomava um café mal feito no microondas e ao mesmo tempo colocava (ou ao menos tentava) a gravata com a outra mão.
Quando saiu de casa, pensou se pegaria ou não um ônibus. "Talvez não dê mais tempo, vou a pé mesmo".
Estava mais ou menos frio. Eric usava uma camisa branca surrada, gravata vermelha e um blazer, farda do escritório de publicidade que trabalhava. A calça jeans e o tênis que algum dia já foi vermelho entregavam o descaso que tinha àquele dia e todos os outros.

O percurso até o escritório levaria algum tempo caminhando. Andar o fazia pensar na vida e em bobagens que não compartilharia com ninguém. Mas naquele dia em questão seus pensamentos vagos ficaram na conversa sem sentido de Patrícia.
Durante o caminho percebeu que havia um beco que cortaria boa parte do trajeto pela calçada movimentada. Parou pra pensar se iria ou não pelo sentido novo. Não teve medo de ser assaltado, pois seu jeito alto poderia talvez espantar quem quer que decidisse lhe abordar (se não funcionasse, iria fazer o que fosse mais coerente: correria). 
Decidiu ir.

Passando pelo beco Eric percebeu o quão longe estava levando pra chegar ao outro lado. "Merda devia ter ido pela rua mesmo. Foda-se!" Tentou andar mais rápido para não perder o horário do trabalho. De repente escutou vozes ao longe. Eram duas. Uma voz masculina, um jovem possivelmente. Parecia assustado. Outra voz, masculina e irritada. Parecia um assalto. Só podia ser um assalto. Eric correu na direção da voz e encontrou um homem com capuz abordando um jovem. "Capuz torna tudo tão caricato, caramba!" Eric não conseguiu deixar de pensar. Nem o homem de capuz nem o rapaz nervoso encostado na parede perceberam sua presença. Ainda pensou em bancar o herói com uma daquelas frases feitas. "Oh solte ele senão você vai estar em maus lençóis, amigo!"
Em vez disso percebeu que o homem de capuz estava bastante agitado para notar sua presença ali e aproveitou o curto tempo pra agir. Notou uma pequena faca no chão, mas estava perto demais deles. Alcança-la seria arriscado. Olhou rapidamente o local e achou um pedaço de madeira, dessa vez mais acessível. Pegou-o e correu na direção do ladrão. Estaria ele enfim fazendo algo util da sua vida? Será que enfim a Patricia se orgulharia do seu feito?
Enquanto se aproximava do homem de capuz, viu que ele estava lentamente se virando. Parou assustado enquanto percebeu quem era por trás do capuz. O homem de capuz era o Eric (ou ao menos parecia absurdamente com ele). Ficou confuso demais pra raciocinar o que estava acontecendo. O Eric de capuz sacou uma arma na direção do seu eu, atônito. Suas palavras antes de puxar o gatilho:
"Nós não nascemos pra ser heróis, Eric."

O barulho do gatilho sendo puxado. O Eric assustado fechou os olhos, sentindo o barulho da bala. O escuro. Ele abre os olhos. O toque irritante do celular. Era o despertador avisando a hora. Sete horas. Colocou na função soneca que ainda lhe renderia mais dez minutos de cochilo.