#001 apresentação
Baruch de Spinoza foi um filósofo que viveu entre 1632 e 1677, na Holanda. Teve uma vida curta e aparentemente bem sofrida — ou sofrível. Perdeu a mãe aos seis anos de idade e tinha pouco menos de vinte e dois anos quando seu pai morreu. Cerca de um ano depois da morte de seu pai, Spinoza foi expulso de sua comunidade, foi amaldiçoado, as pessoas de sua comunidade foram proibidas de falar com ele, proibidas de manter qualquer contato com ele, proibidas de ficar sob o mesmo teto que ele, proibidas de se aproximar dele, proibidas de ler qualquer coisa que ele escrevesse. E se alguém que não conhece a história quer saber que crime horrível ele praticou, digoque seu crime foi dizer o que pensava sobre as crenças religiosas que regulavam as relações entre as pessoas em seu tempo.
Mudou-se de cidade. Nunca mais mais viu ou falou com as pessoas que fizeram parte da sua infância e da sua primeira juventude, nem mesmo seus irmãos. Aos vinte e quatro anos, recomeçou a vida do zero (dos bens que seu pai deixou de herança, ele ficou apenas com uma cama). Nos vinte anos seguintes, que foi o tempo de vida que lhe restou, se dedicou a pensar e a elaborar uma teoria sobre o homem, sobre a humanidade e sobre mundo — isso nas horas em que não estava fabricando e polindo lentes, que era o seu ganha-pão. Durante esse tempo, conheceu novos amigos, que, como ele, se interessavam por compreender o mundo, e com eles conversava e discutia questões filosóficas. Nunca se casou, não há registro de que tenha tido sequer um relacionamento amoroso. Não teve filhos. Morreu aos quarenta e quatro anos, e no seu inventário constavam apenas uma cama (a mesma herdade de seu pai), três ou quatro mudas de roupa e vários livros — além de algumas dívidas também.
Um dia antes de morrer, já bastante doente (com tuberculose), Spinoza entregou ao seu melhor amigo um calhamaço de papel escrito à mão, que era a obra de sua vida, que ele levou vinte anos para escrever, mas que ainda não estava publicada. Esse livro viria a se tornar um dos livros mais importantes da História da Filosofia, um livro que trata de todos os temas importantes da Filosofia: conhecimento, ética, psicologia, teologia, antropologia, política, sentimentos, amor, ódio, alegria, tristeza.
Quando li sobre Spinoza e sobre seu livro pela primeira vez, fiquei muito curioso. Todos os historiadores da filosofia que eu li falavam sobre ele e sobre sua obra-prima com grande admiração e com grande afeto, mesmo aqueles que discordavam profundamente dele. O pensamento de Spinoza, a partir do relato desses historiadores e comentaristas, me pareceu mesmo encantador. Alguns pequenos trechos de seus livros, citados pelos comentaristas, davam mesmo a impressão de que o pensamento de Spinoza era muito bem articulado e muito consistente em seu conteúdo. Tive uma espécie de intuição, senti que ali realmente havia algo muito especial e fui atrás do livro.
Mas quando peguei a Ética de Spinoza e abri para ler eu mesmo, diretamente da fonte, encontrei um dos livros mais obscuros de todos os tempos (e olhe que eu já estava bem acostumado a textos difíceis!). Eu sabia, pelos outros, que ali naquele texto estava apresentado um dos sistemas filosóficos mais impressionantes da história da humanidade, um texto que poderia conduzir a minha mente a um nível de compreensão altíssimo, mas não consegui entender coisa alguma das primeiras páginas.