Memórias, canções e estrelas sem fim

Fechou os olhos e respirou fundo. Naquele momento, lembrou do quanto odiava manhãs chuvosas.

Nos dias de chuva, seu corpo encontrava justificativas para atender às súplicas de repouso de sua mente, estendendo “mais cinco minutos” por horas a fio.

Sua mente, envolta em centenas de pensamentos, adorava tentar replicar as tormentas cinzentas.

Levantou-se da cama com movimentos metódicos e demorados. O peso da gravidade, junto ao peso de todas as suas decisões erradas, parecia agir de forma exagerada sobre ela, tornando o processo sempre mais laborioso do que deveria ser.

Em essência, a problemática não era apenas o clima. Ela sabia disso.

Carregava dentro de si sua própria tempestade: uma coleção de memórias de estrutura instável e pensamentos de caráter incontrolável. Acontecimentos concretizados, coisas que poderiam ter acontecido, coisas que iriam acontecer.

Seus erros e seus medos, como relâmpagos e trovões, mantinham a pressão intensa e constante. O mundo ao seu redor, tragado pela situação, projetava-se instantaneamente em segundo plano: suas cores tragadas pelo cinza, sua presença ativa tendo que ser relembrada a cada instante.

Desviou do balcão da cozinha e impediu a queda de alguns pratos no último segundo. Tirou um segundo para cautelosamente reposicioná-los — afinal, aquela casa já havia atingido sua cota de coisas quebradas.

Desde quando sua vida havia se tornado uma bagunça tão grande?

Havia se mudado para a cidade em busca de seus sonhos. Em meio aos seus delírios de grandeza, pensou que realmente daria certo. Que faria seu nome e encontraria seu lugar.

Meses haviam se passado e, sem novos resultados, sua motivação foi se esgotando. Marissa via o mundo ao seu redor seguindo adiante enquanto ficava para trás. Estava parada no tempo.

Seguiu a caminhar entre os cômodos, imaginando o quanto tal comodismo lhe havia custado. O quanto deixar de tirar os móveis de lugar, de trazer um grau necessário de ação, de desordem havia estagnado seu crescimento.

De repente, interrompendo seus pensamentos, o vislumbre de algo diferente. Algo que ela inconscientemente buscava.

Irrompendo o véu cinéreo que recobria a mobília e estrutura da habitação, diversas molduras de tons vibrantes marcavam pequenos pontos de cor.

Vermelhas. Amarelas. Verdes. Dos mais diversos tamanhos e formas, retratando os mais diversos momentos. Eram, assim como parte dela, uma grande bagunça — mas uma que se permitia possuir e ser.

Permitiu que os dedos navegassem pelas armações baratas, cumprimentando as memórias com um respeito quase religioso.

Fotos de seus primeiros passos, com os braços dos pais ao seu aguardo. Dos amigos de escola em um aniversário improvisado de três anos atrás. Do seu beagle desajeitado que tinha desde os doze anos.

E diversos outros momentos simples, igualmente congelados no tempo.

Momentos que a lembravam de que, apesar da caminhada ainda ser difícil, haveria sempre alguém pronto para segurá-la. Que haviam pessoas dispostas a fazer seu melhor para vê-la feliz. Que os momentos bons estavam lá, em seu aguardo.

Encarou as imagens estáticas mais uma vez, enquanto o peso em seus ombros se dispersava. Com um sorriso no rosto, preparou-se para seguir em frente.


O barulho se intensificava a cada dia passado.

Era composto por fantasmas e vozes que permeavam sua história: murmúrios de uma família insatisfeita, sussurros de companhias ácidas e um repertório interminável de discussões doloridas.

Às vezes, nos dias ruins, se pegava sendo assombrado pela própria voz.

Durante a noite, em tentativas vãs de obter paz, Alberto cobria os ouvidos. Mantinha-se em uma luta até a exaustão contra todas as palavras que o haviam ferido, e não parecia ter uma resposta à altura para silenciá-las.

Naquela tarde de outono, em uma praça qualquer, o barulho cedeu ao som de três palavras.

“É lindo, não?”

Surpreso, o rapaz ergueu o rosto do banco em que estava sentado, virando-se na direção da voz. Deparou-se com uma moça sentada a menos de dois metros, na extremidade oposta do mesmo banco.

Silêncio absoluto.

Mas não o silêncio assustador de quando algo ruim acontecia, precedendo uma centena de pensamentos pesarosos — era o silêncio estático de uma tarde comum.

A moça observou sua expressão de confusão e deu uma breve risada, sem graça.

“Ah, perdão! Fui muito estranha, não é? Meu nome é Marissa.” Ela disse, aproximando-se e estendendo uma das mãos. Seus cabelos ondulados acompanhavam a brisa suave. “O dia. O som. Não se vê isso com frequência, sabe?”

“Alberto.” Ele aceitou o cumprimento, sorrindo de forma tímida. Então, franziu o cenho ao recordar da afirmação da moça. “O… som?”

Voltou sua atenção para o céu do entardecer. Para os tons alaranjados, as nuvens douradas e as folhas secas que caíam com uma desordem tão normal. Em um ponto ou outro, as tonalidades confrontavam o verde da grama, ou as roupas multicoloridas dos habitantes da cidade.

Era mesmo um lindo dia, ele conseguia ver. Mesmo assim, era incapaz de ouvir.

O silêncio que agora tomava sua mente o deixava inquieto por alguma razão. Desnorteado, buscava recobrar aquilo que lhe havia sido tomado. O quê, exatamente? Era algo sobre sua família, emprego ou…

A garota gesticulou brevemente, apontando para um grupo de amigos sentado na grama, não muito longe dali. E então, tudo fez sentido.

O som da música veio primeiro.

Uma melodia suave executada por três integrantes do grupo, com instrumentos e acompanhamentos simples. Parte dos demais cantava, gargalhava ou batia palmas — e alguns até se atreviam a dançar.

Os risos preencheram o ar, desencadeando uma reação fora de controle. Logo em seguida, o farfalhar dos galhos com a ventania mostrou-se presente, assim como o canto dos pássaros. Tudo parecia se conectar naquele silêncio bom, trazendo uma sensação de que era tão… certo.

Ele fechou os olhos e respirou fundo, concentrando-se naquele momento. Tentava recordar aquele momento, aquela sensação, para nunca mais deixá-la ir embora.

“É lindo.” Ele admitiu, sorrindo. “Eu não me lembro da última vez que ouvi algo assim. Obrigado.”

Ela sorriu de volta, assentindo.

“Às vezes precisamos disso, sabe?” Ela admitiu. “De um som agradável aos nossos ouvidos.”

De um som que mandasse o barulho embora.

Passaram o resto da tarde juntos. Conversando entre si, acompanhando as canções ou apenas existindo por um instante. Esquecendo do que quer que estivesse além daquelas melodias, gargalhadas e dos muros do parque.

Ao anoitecer, Alberto voltou para casa cantando. Naquele momento, seus problemas permaneceram em um silêncio respeitoso para ouvir os versos.


Encarou o céu noturno em silêncio absoluto. Novamente, estava à deriva.

Por mais que tentasse, a gravidade não a mantinha presa ao próprio corpo. Assistia às suas ações sempre em órbita, em segundo plano. Não havia algo que a trouxesse mais para perto.

Lívia não conseguia expor a certeza de suas ações, de seu destino, através do que fazia. Diariamente, tentava se convencer de que as coisas eram assim, embora todos ao seu redor parecessem tão mais confiantes do que ser ou fazer.

Ela cruzava o espaço sem rumo definido. Tentava encontrar as respostas que a levariam a si mesma nas descobertas de outras pessoas. Montar um mapa celeste que fizesse algum sentido para si.

Até então, não havia obtido sucesso algum — e se sentia mais perdida do que antes.

Ergueu os olhos para as poucas constelações que conhecia, contando-as e traçando suas formas: Órion, o caçador. O escorpião gigante. Castor e Pollux, os gêmeos.

Nada mais que estrelas a milhares de quilômetros de distância umas das outras. Unidas por uma boa história ou um acaso completo do destino, eternizadas no espaço.

Dezenas entre milhares de estrelas, imortalizadas em todo o seu esplendor.

A imensidão e extensão do espaço faziam com que se sentisse tão próxima de tudo — e também tão pequena diante do grande esquema do universo.

Talvez realmente fosse como um dos astros lá no alto. Talvez todos nós fôssemos. Expostos à contemplação apenas após séculos de rearranjos, forjados no firmamento por uma força maior do que nós mesmos.

O dia chegaria em que as coisas fariam algum sentido. Em que encontraria as estrelas às quais estaria sempre atada. Até lá, aceitaria o incerto como resposta.

A garota sorriu, apoiada na varanda. Quem sabe?


Adendos finais

Então, eu escrevo muito. É pra compensar o hiatus de 4 meses.

Esse foi o maior dos textos até agora, e eu divergi 200% do que tinha como “proposta” musical inicial. A música originalmente é Thank you, da Dido.

A ideia de retratar as três histórias acima é pensar no que nos faz ter paz quando estamos aflitos. Sejam as pessoas que amamos, os momentos em nossa memória ou de nossa contemplação, é importante que nos permitamos sentir e abraçar isso.

E… é. Vivam bem e sigam bem. ❤