Meu amigo Alemão

Eu sempre quis ter um amigo alemão. Basicamente suas principais características são caráter sólido, jeito reservado, conversas profundas e, claro, sempre topa uma boa e velha cerveja. Foi numa mesa de bar, o lugar com mais sinceridade e coração que já fui, que a gente trocou a primeira ideia. E depois dessa, não faltaram ideias.
Ele é do tipo irmão urso, com o abraço mais bem-vindo e o olhar mais genuíno, sincero. Tem o brinde mais enérgico, daqueles que brilham a aura do copo, fazem da cerveja um elixir raro. É do tipo que conversa de tudo com propriedade, alimenta o papo, não deixa ele morrer. Mas também é tipo o que eu chamaria de amigo-pedra, que pode se transformar em muralha por você, mas que com algumas pancadas você tem medo que esfarele. E eu tenho esse medo, confesso.
Um aríete inconveniente e de olhos marcantes insiste em martelá-lo e tenho medo que um dia ele esfarele, vire pó. E nem imagino isso pensando em meu futuro sem muralha, mas sim no futuro do mundo sem aquela pedra. Daí, no bar, eu digo pra ele: “muralhas e aríetes são dos tempos medievais, deixa isso pra lá! É passado!”. Ele toma um gole da cerveja, levanta aqueles olhos pesados de sentimento e solta um lamurio: “mas eu amo aquele aríete. Não consigo esquecê-lo”.
Eu suspiro. Bebo um gole da minha cerveja olhando pro lado de fora, onde de vez em quando passa um carro apressado. Quando volto o olhar pra mesa, estou cansado. Viro o copo e digo: “Então vire um Panzer. Um aríete não pode contra um Panzer. Vire Panzer!!”
Ele me olha assustado. Quando processa o que eu digo, pisca os olhos algumas vezes, abaixa-os pro copo e fita a cerveja até soltar um sorriso de canto de boca.
E naquele momento meu amigo alemão, gigante e honesto, fez seu salto no futuro. Livrou-se da maldita, confusa, insistente e irritante, cabeça de ferro.
10/07/2017. 03:57. É essa a cerveja que falta.
