Multifacetada

Grata pelo almoço que eu mesma fiz
Bebendo na taça o vinho que eu mesma comprei
Dentro da pele que eu mesma sou
Atravesso o meu próprio reflexo em divagação:
Revisitei minhas dúvidas, interesses, surtos e prantos
Meus prazeres, romances, roteiros e contos
Para então entender que meus sentimentos e seus ramos
São raízes profundas em meus átrios e sonhos
Que para vencê-los terei de fazer-me rosa
Linda e atraente mas valente e petalada
Branca, vermelha, verde e rosada
Em cada uma das minhas múltiplas faces brotadas
Mas eu mesma, que antes buscava ser rosa,
Agora estou parada em meio ao tempo
Que corre depressa pelo medrar-desabrochar-cair das pétalas
Nessa tola vida, que não passa de um morrer lento.
Então pronto: já viram minhas mil caras, batidas e desmascaradas
Não tenho mais segredos, não possuo mais mágicas
Sobra-me um miolo seco e pobre de cores
Por completo farto dessa minha escatologia verborrágica.
