Jornalismo Humanizado — A atividade jornalística realizada de forma mais humana, respeitosa e sem preconceitos

Por Leidiane Sampaio

O jornalismo tem passado por mudanças permanentes, principalmente com o avanço das tecnologias. Hoje, qualquer pessoa pode expressar opiniões, fazer relatos de acontecimentos, compartilhar informações, especialmente pelas redes sociais, e por isso se sente um pouco jornalista.

Para acompanhar essas mudanças e tentar ser mais rápidos na divulgação de notícias, alguns profissionais de comunicação estão cada vez mais superficiais, publicam notícias sem se aprofundarem no tema e sem checar os fatos. Isso geralmente acontece em notícias diárias, que são veiculadas rapidamente na internet, mas não trazem informações completas.

Notícias sobre acidentes, por exemplo, em que o profissional não consegue falar com os órgãos responsáveis, levantar as informações necessárias e, mesmo assim, acaba produzindo a matéria repleta de hipóteses do ocorrido. A velocidade tem ocupado o lugar da apuração. Tal comportamento faz com que a atividade jornalística seja “posta em xeque”.

Muitos falam no fim do jornalismo. Em contrapartida, o jornalismo considerado mais “humano”, voltado cada vez para o social vem ganhando força, por meio de coletivos de imprensa, jornalistas, sites e blogs independentes. Alguns chamam de militante e veem problema por parecer engajado. Outros percebem um ganho de qualidade pela ênfase nas histórias das pessoas e em sujeitos e histórias que não são vistas no jornalismo de ritmo diário.

Aos poucos, o profissional que abre mão dos preconceitos em nome do trabalho, que mantém um contato mais próximo com o entrevistado, com respeito, que prioriza e incentiva pautas que retiram grupos e pessoas da invisibilidade ou tratam com menos preconceito determinados temas aproveita as lacunas deixadas pelo chamado jornalismo tradicional. Aqui, trataremos sobre esse jornalismo mais humanizado, mais respeitoso, pensando de que forma isso pode contribuir para um jornalismo de qualidade.

Em entrevista para a revista Alter Jor, realizada no ano passado, o jornalista, professor, autor, mestre, doutor e pós-doutor em Ciências da Comunicação e Jornalismo, doutor em Ciências da Comunicação/Jornalismo, Jorge Kanehide Ijuim declarou que as brechas de um jornalismo melhor surgem em meios alternativos. De fato, se observarmos quais meios de comunicação têm feito um jornalismo mais aprofundado e com um olhar mais humano, a maioria deles são profissionais e grupos independentes, que ainda buscam um meio de se manter ou se sustentam por meio de financiamento coletivo.

Jorge defende um jornalismo em que o ser humano seja o ponto de partida e o ponto de chegada. Para ele, todos os jornalistas deveriam “escrever sobre gente” e não fazer “matérias inumanas”. A afirmação do jornalista veio após a entrevistadora Suzana Rozendo Bortoli questionar sobre o fato da também jornalista Eliane Brum se sentir incomodada ao dizerem que ela faz jornalismo humanizado. Na entrevista, a frase de Eliane ganha destaque e provoca Jorge: “Seria possível alguém fazer ‘matérias inumanas’?”

Jorge responde a Suzana que é muito fácil notar no dia a dia da imprensa, matérias preconceituosas, cheia de estigmas e que caracterizam ou desqualificam as pessoas. Sim, de fato é comum vermos em nosso cotidiano matérias tendenciosas, que não visibilizam as minorias. É comum os jornais e outros meios de comunicação usarem como fontes pessoas que estão no poder, “especialistas”, quando na verdade, é o povo, a população que vive determinada situação, como no caso da violência em comunidades. Mas quem fala é a polícia, o Estado. Os moradores são calados, poucos são ouvidos e, quando são, não têm espaço suficiente. Mas, quem são as pessoas? O que elas passam no dia a dia? Como fazem para sobreviver em meio a guerra entre Estado e facções criminosas? Como a rotina dessas pessoas são afetadas? São poucos que se preocupam com as respostas.

Jorge Ijuim diz que o jornalismo humanizado inicia antes mesmo da pauta, “na consciência do jornalista”. Ele ressalta que nós, jornalistas, nos relacionamos com outros seres humanos e não com objetos. Mas, quantas vezes objetificamos a nossa “fonte”? Quantas vezes falamos com uma pessoa apenas para conseguir aquilo que gostaríamos de ouvir? Ijuim vai além. Ele acredita que precisamos sempre questionar o que estamos fazendo, porque estamos fazendo, como estamos fazendo, e enxergar o ser humano livre de preconceitos, de estereótipos. Para ele, esse é um compromisso com a sociedade.

Pois bem! O jornalismo não é ou pelo menos deveria ser social? O jornalista destaca que as lacunas deixadas pela grande mídia, pela mídia tradicional devem e serão preenchidas pelo jornalismo independente, que geralmente oferecem um contexto maior, mais completo, e sobretudo, menos preconceituoso nas reportagens.

Para comprovar que é possível fazer esse tipo de jornalismo, a Agência Pública reuniu em seu site, um mapa do jornalismo independente. O mapa, que traz uma lista com nomes e informações dos principais meios alternativos no Brasil, entre eles, Jornalistas Livres, Desacato, Catarinas e Maruim, marcou a contagem regressiva para a inauguração da Casa Pública, o primeiro Centro Cultural de jornalismo no país, localizado no Rio de Janeiro.

É preciso pensar em como visibilizar as minorias, em formas de tratar de temas de extrema importância de uma forma humanizada, se colocando no lugar do outro. Já existe no mercado, mini manuais de como fazer um jornalismo humanizado, tratando de assuntos delicados, como violência contra mulher, racismo, pessoas com deficiência, estereótipos nocivos e LGBT, de forma mais agradável e respeitosa. As informações podem colaborar com os novos jornalistas, ou mesmo com os que já estão no mercado e ainda acreditam nessa forma de trabalhar.

O site feminista Think Olga disponibilizou o material em 5 partes. De acordo com elas, os mini manuais reúnem dicas para jornalistas e veículos que desejam limpar a comunicação de preconceitos.

Na era da internet, das notícias rápidas, de matérias sensacionalistas e profissionais cada vez menos humanizados, os jornalistas independentes buscam visibilizar as minorias, falar sobre temas que fazem diferença na sociedade, investigar, apurar os fatos e aos poucos, conquistar o mercado e se sustentar com o jornalismo que acredita, militante, social, humano e responsável.