
NPCs RAPIDAMENTE
“Dê nome a todos os personagens.” — Dungeon World
Os NPCs só precisam de duas ou três coisas para descrevê-los, quatro no máximo, pois são poucas as coisas que os jogadores lembrarão depois que você terminar uma descrição detalhada. Você pode dizer "o guerreiro à sua frente enverga uma armadura de escamas vermelhas, com ombreiras que imitam cabeças de dragão, um cinto passando diagonalmente pelo peitoral sustenta uma aljava preenchida com flechas nas suas costas, e um arco encordoado, e na cintura uma bainha de couro marrom com detalhes prateados na forma de um dragão envolvendo todo o seu comprimento, suas botas desgastadas indicam muitas jornadas percorridas e em seu rosto cansado uma cicatriz parece zombar dele, alargando sua boca para a direita em um sorriso diabólico, seus cabelos caem sobre sua testa como enguias congeladas no suor trazido pelo calor do sol que castiga lá fora" e no fim os jogadores se lembrarão de um guerreiro que usava armadura de escamas com cabeça de dragão nos ombros e uma cicatriz no lado direito do rosto. Vai por mim, no máximo vão lembrar que ele tinha uma espada e talvez um arco. Talvez até se lembrem que a armadura era vermelha.
Eu descreveria esse NPC como um homem com uma cicatriz rasgada no lado direito do rosto, da bocas até a orelha, uma armadura vermelha de escamas com cabeças de dragão nos ombros e uma espada nas cintura.
Pode apostar que eles se lembrarão do personagem depois, se eu mencionar "aquele guerreiro de armadura vermelha".
No livro de Dungeon World, um dos princípios do Mestre que mais me obrigada era "Dê nome a todos os personagens", porque eu narrei 3D&T, D&D e Naruto para Storyteller e nunca o fiz, e nunca tive problemas com isso.
Então aconteceu um daqueles males que vêm pro bem: perdi meu livro de Dungeon World quando mudei para o Paraná, onde perdi meus dados e as fichas que levei impressas, justo quando estava introduzindo uma galerinha bacana no RPG. Sem recursos, me vi obrigado s improvisar um sistema de "RPG sem dados" para continuar a campanha.
Criei quatro sistemas, mas só um deles vingou, e estamos jogando numa boa, pelo Whatsapp. Com este novo sistema eu vi efetivamente o impacto que um NPC pode ter só com um nome e duas ou três características marcantes (é só isso que fica na cabeça dos jogadores, depois, o que ficaria na cabeça dos seus personagens).
Pense no NPC alguns instantes: quando os PJs o vêem pelas primeira vez, o que chama mais a atenção deles? Geralmente algum traço inesperado no rosto (cicatriz, sardas, olhos diferenciados...) ou os cabelos, se o rosto for banal, o que ele veste (armadura negra, cotas de malha com o brasão do leão, tatuagens pelo torso...) e o que ele carrega (uma espada na cintura, um grimório, um cajado com um grifo esculpido na ponta...) é mais marcante. Pode ser que tenha algo mais que possa chamar a atenção dos PJs mas eu fico sempre entre dois e três detalhes - o quarto deve ser muito impactante para ser relevante. Ás vezes o que marca os NPCs na cabeça dos PJs é alguma coisa abstrata que eles tem ou fazem - uma voz rouca, um tique nervoso, um comportamento estranho, coisas assim - mas a regra é sempre descrevê-los com coisas que ficam na cabeça do PJ.
Isso é para apresentar o NPC quando ele aparece, como amigo ou inimigo, e tem relevância histórica maior do que ração para as espadas dos PJs.
Quando são inimigos sem nome que aparecem para uma luta e só, eu dou-lhes só um detalhe, ou dois, no máximo (você enguias sua espada nas barriga do orçamento de tapa-olho e um outro, com um machado com penas no cabo aproveita para ter flanquear, o que você faz?) e dá muito certo, os jogadores se empolgam mais, porque eles VÊEM os inimigos!
Quando os NPCs participam de aventuras com os PJs (eu joguei D&D3e, 3.5 e 4e, e não me lembro de ter aprendido com eles que os PJs levam hirelings, Servos no Dungeon World, para suas aventuras - aprendi isso lendo o Mundo de Masmorras, antes de poder comprar meu Dungeon World, até então os PJs se aventuravam sozinhos, sempre 3 a 5 aventureiros, e talvez um PDM, se eu sentisse vontade de jogar ao mesmo tempo em que narrava) eles ganham, ao longo da narrativa, histórias pregressas para contar ou comentar, medos e gostos, detalhes assim colorem o NPC e torna mais verossímil, mas um nome e uma descrição rasa já faz um trabalho milagroso... Atualmente estou narrando uma campanha pelo Whatsapp e uma presencial, ambas com este sistema sem dados que vingou.
Na campanha presencial temos como PJ Scarlet, uma aprendiz de maga com vestido de couro que também é espiã do rei de Lomatubar; Vitor, um elfo arqueiro de roupas verdes com folhagens; Pedro, um guerreiro grande como uma porta, com uma armadura completa, uma espada e um escudo que fala pouco e luta muito; e Pietro, um caçador brigão que carrega um arco longo e veste uma capa de pele de lobo.
Como hirelings, temos dois amigos da mesma vila, Bento, que tem cabelos loiros e uma bandoleira cheia de facas, e Viriel, encapuzado com um cinto de poções com alguns frascos, e no caminho (junto de Pietro) surgiram Ribiki, um flautista negro jovem com roupas coloridas e um sorriso perene; Jocasta, uma sacerdotisa de Thyatis de cabelos castanhos até os ombros e roupas simples; e Farael, um homem barbudo, manco e beberrão, com uma armadura, escudo e martelo, quase tão grande quanto Pedro.
Na campanha via Whatsapp só tenho um PJ, uma elfa que emana uma aura de frio sem entender porque, seus lábios e unhas azulados e olhos como lápis lazuli. No primeiro dia de jogo ela integrou um grupo de aventureiros que passava perto de sua morada. O grupo conta com Memphis, um elfo de pele púrpura e olhos de brasas amarelos, rosário no pescoço, como uma coleira, e calças largas de monge; Leona, uma mulher de armadura completa com cabelos fulvos e vermelhos como sangue, escudo de corpo e espada enorme; Artur, de armadura, martelo e escudo com o mesmo brasão de Leona; Selvana, umas clériga de Keenn que tem vestido e cabelos como se feitos de ouro, olhos como esmeraldas e gargantilha e braçadeiras marfim, que empunha duas cimitarras assustadoramente afiadas; Kalibolt, um mago de meia idade com robes cinzentos, cabelos negros compridos e um cajado metálico com finas correntes de mitral na ponta; e Lançarrubra, um lanceiro com chapéu emplumado que usa uma armadura de couro e uma lança vermelha. No momento eles estão indo para o outro lado do pântano para resgatar dois de seus companheiros raptados há alguns meses.
O sistema é letal mas ainda permite heroísmo, e a galera está gostando do jogo — tenho certeza de que quando os hirelings morrerem ou partirem ficará a saudade...
