É necessário estarmos juntas para seguir

Por Silvana Bahia*

Março de 2018 ficará para sempre na minha história. Foi o mês que completamos um ano de Pretalab e, por isso, consegui compilar e entender quais avanços conseguimos a partir desse projeto. Foi o mês que finalizamos o Minas de Dados, mais uma ação focada em meninas negras, e a partir dele vimos nascer o Umunna, rede que pretende estimular mais mulheres negras na política. E foi o mês que levamos simbolicamente o tiro que executou cruelmente a Marielle Franco, quinta vereadora mais votada na minha cidade, a quem eu ajudei eleger com meu voto.

Marielle era uma de nós. Inspirava pela inteligência, coragem e sorriso. Era uma mulher negra, mãe, lésbica, socióloga, cria da Maré e muito mais. Leonina que contagiava com seu brilho e força. Por isso, os tiros não acertaram apenas ela. Bateu uma dor, uma desesperança coletiva. Ainda está doendo. Quem matou a Marielle e por quê são perguntas que não saem da cabeça.

Para mulheres negras da minha geração e para as que vieram depois de mim o fato dela “ter chegado lá” na estrutura da política institucional — e o jeito que ela fazia política com afeto e coragem — representavam esperança não só de mover, mas de balançar as estruturas. Mas sabíamos (e agora tenho certeza) que ela não poderia ser única. Ficamos muito vulneráveis quando somos exemplares avulsos. Precisamos andar juntas para avançar nas conquistas.

Ela mesma disse naquela que foi a sua última fala pública, no encontro “Jovens Negras Movendo Estruturas”, algo como : “na Câmara antes da gente entrar, foram 10 anos entre a Jurema [Batista] e a Benedita [da Silva]. A gente não pode esperar mais 10 anos ou achar que eu estou ali por mais 10 anos”. Ela se referia às suas ancestrais, mulheres negras que vieram antes dela e ocuparam o espaço da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, com o espaço de dez anos entre cada uma.

Marielle sabia da urgência de construir caminhos e espaços seguros para mais mulheres negras acreditarem na possibilidade de fazer valer as pautas que ela defendia contra o racismo, o machismo, a violência policial, a transfobia, intolerância religiosa “só assim a gente vai ter uma política pública qualificada”, fazia questão de reforçar.

Espaços seguros são construídos quando conseguimos estabelecer redes de apoio e nos fortalecer internamente. Quando conseguimos dialogar umas com as outras e crescer em conjunto. Quando conseguimos ocupar de bando, de bonde, a ponto de tornar difícil o trabalho de quem quer nos eliminar. No respeito às diferenças e à pluralidade que somos. Porque “somos diversas, mas não dispersas”.

Por isso, acredito e aposto em projetos que formam redes e estimulam a visibilidade das mulheres negras nos mais variados campos. Neste um ano de Pretalab o que mais conseguimos fazer foi estimular o contato, gerar conexão e chamar a atenção para a urgente necessidade de trazermos diversidade para o universo da inovação e da tecnologia, já que é nele que está sendo gestado o futuro — que chegará para todas nós.

A PretaLab foi lançada no dia 17 de março de 2017, em um evento que lotou nosso espaço em Botafogo, com cerca de 80 pessoas, em sua maioria mulheres e negras. Recebemos até relato na internet de como era para uma mulher branca se sentir pela primeira vez procurando pares, sem saber se ela deveria estar ali. Sensação diária para pessoas negras que frequentam universos mais restritos, como as universidades, as grandes empresas, os governos, as instituições que, no geral, pautam o nosso país. (Estamos compilando uma página com os dados que coletamos nesse processo e mostram como as mulheres negras são numericamente quase inexistentes nesses espaços.)

Ver aquela sala lotada de pessoas interessadas no projeto me impactou bastante. Durante a gestação da PretaLab sempre me perguntava se esse tipo de iniciativa seria considerada importante para outras mulheres e pessoas negras que estão fora das “bolhas” das tecnologias. Perceber que meu sonho era também de tantas outras foi muito potente, pois senti que minha trajetória poderia servir para abrir espaço e caminho para mais mulheres.

Quem coube na foto de lançamento da PretaLab em março de 2017. Foto: Ana Clara Tito

Neste um ano, percorremos espaços dentro e fora do Brasil. Foram mais de 45 eventos entre palestras e oficinas, 11 cidades nas cinco regiões do Brasil, além de idas à Inglaterra e Suíça.

Eu que não falava inglês até entrar no Olabi há 3 anos (quando comecei um processo intenso de aprendizagem com professor particular e outros suportes), me vi com o enorme desafio de contar o nosso processo em espaços de prestígio internacional importantes como a Universidade de Cambridge e o Internet Governance Forum. Se é difícil ser a única negra em eventos por aqui, imaginem o que foi ser a única negra e latina, não falante da língua nesses contextos. Não encontrar seus pares, alguém que você se reconheça dá aquela sensação de solidão — ao mesmo tempo em que você sabe da responsabilidade e que trás um monte de gente junto quando chega em algum lugar.

Neste processo de circular pelos espaços, fizemos oficina de lógica de programação em escola; fala no Facebook em evento sobre violência de gênero on e offline; conversa com Google sobre Inteligência Artificial e Machine Learning, oficina de segurança digital para mães que perderam seus filhos por conta da violência do Estado; formação para as mulheres do Hub das Pretas em comunicação e internet em três cidades do Brasil, para mencionar algumas das ações.

Destaco dois outros eventos que marcaram: a Conferência Friends Of Tomorrow, na qual estive junto à astronauta negra da Nasa, Dra. Ivonne Cagle, embaixadora do filme Estrelas Além do Tempo, que lidera uma expedição para Marte em 2035. E este encontro mexeu com meu coração, não apenas pela importância de ver, almoçar, conversar com uma referência viva ali na minha frente, como pela simpatia e generosidade da Dra. Ivone que repetiu algumas vezes “seu trabalho é importante” seguida da frase “black women power”. (Sobre esse dia escrevi um texto falando do impacto desse encontro na publicação da revista “Desafios à Liberdade de Expressão no Século 21” da Artigo 19.)

Dra. Ivonne Cagle astronauta da Nasa.

O outro evento importante foi o VII Fórum da Internet no Brasil, que pela primeira vez teve uma mesa sobre mulheres negras e tecnologia, proposto por nós em conjunto com a pesquisadora Julia Rensi da UERJ. Para a atividade, convidamos a então vereadora Marielle Franco, pois queríamos aproximar as comunidades de tecnologia das lideranças políticas e ela era a nossa grande referência. Com a sua presença, naquele dia eu me senti próxima à Câmara de Vereadores de alguma forma. E é por isso que representatividade importa. Porque precisamos conseguir nos enxergar nos espaços. É por isso também que o vazio que a partida dela deixa é enorme.

Mesa sobre mulheres negras e tecnologia que ajudamos a organizar no
Fórum da Internet no Brasil e contou com a presença da vereadora Marielle Franco.

Poucas horas antes da execução da Marielle e do seu motorista Anderson Gomes, no dia 14 de março, organizamos no Galpão Bela Maré na Favela da Maré, no Rio, a apresentação do projeto Umunna para potenciais apoiadores, como a Fundação Ford, a Open Society Foundation, o Oi Futuro e o Instituto Alana. O projeto foi a conclusão das cinco participantes selecionadas para a formação em política e tecnologia chamada Minas de Dados, que organizamos junto à Transparência Brasil e ao DataLabe. Foi um mês intenso de atividades nos espaços das 3 organizações, entre outras ações.

Imaginem o tamanho da nossa alegria ao ver que as cinco meninas participantes resolveram fazer juntas o mesmo projeto e dali saiu o “Umunnas — Mulheres Negras decidem”, uma rede com foco em estimular mulheres negras na política institucional. A rede nasce impulsionada pela vontade de mudar uma realidade: o fato de mesmo sendo o maior grupo demográfico brasileiro, correspondendo a 27% da população, nós mulheres negras não somos representadas. A Ana Lourenço, a Diana Mendes, a Gabriele Roza, a Juliana Marques, a Lorena Pereira acreditam no mesmo que eu: que se somos o maior grupo podemos “mover estruturas”, e precisamos nos organizar cada vez mais para isso.

Aula da cientista da computação Ana Carolina da Hora para as participantes do Minas de Dados durante a formação no Olabi. Foto: Safira Moreira

Horas depois, quando ainda estávamos celebrando a alegria de realizar uma ação em que as ideias de mulheres negras são centrais, a realidade dura nos mostrou por que isso é urgente e fundamental, se queremos garantir um estado democrático mínimo. Ao não termos voz nos espaços de poder, ficamos fragilizadas e somos facilmente executadas.

Num mesmo dia, vimos os olhos de mulheres negras brilharem por terem esperança e vontade de transformar a realidade a partir da política institucional e vimos lágrimas e dor por todo o lado, com o chão que perdemos ao receber a notícia da cruel execução. Mas é importante reforçar que onde tem morte, tem vida e que estamos aqui para darmos as mãos umas às outras e puxar a ocupação dos espaços — que sim nos pertencem.

PretaLab, Hub das Pretas, Blogueiras Negras, Agô Yá Produções, Rede de Ciberativistas Negras, Gato Mídia, Minas de dados, Umunna e tantos outros projetos espalhados pelo país mostram como são urgentes criarmos espaços para que as mulheres negras possam realizar, expor suas ideias, experimentar suas visões de mundo. E cada vez mais é necessário que andemos juntas, porque “com você ando melhor, companheira”. Seguiremos (de luto) e na luta para ocupar os espaços. Não vamos voltar atrás. Obrigada por tudo, Marielle!

*Silvana Bahia é Diretora de Programas do Olabi, pelo qual está à frente da PretaLab, iniciativa focada em estimular mulheres negras e indígenas nas tecnologias. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Políticas e Economia da Informação e da Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ, mestre em Cultura e Territorialidades pela UFF.