A representatividade além do discurso

“Quando decidi cursar ciência da computação eu já sabia que seria minoria por ser mulher, e ainda mais por ser mulher negra.”

Esta frase foi dita por mim mesma, Ana Carolina da Hora, em alguma palestra e inicio o texto com ela, trazendo a reflexão: atualmente, vivemos em uma sociedade onde a palavra representatividade se tornou lei, mas será que ela realmente está sendo praticada?

Dando foco na área de Ciência da Computação, sabemos que as mulheres foram super ativas na construção de conceitos extremamente importantes e que estão sendo utilizados até hoje. Só para citar um deste exemplos, a Karen Sparck Jones foi uma das criadoras do conceito de “inverso da frequência em documentos”, a base do que hoje são os sistemas de busca e localização de conteúdo e pedra fundamental de companhias como o Google, por exemplo.

Poderia ficar muito tempo aqui escrevendo sobre diversas mulheres que fizeram história na computação, mas queria ressaltar as mulheres que estão continuando esse trabalho. Elas estão indo além do discurso da representatividade. De forma alguma o discurso tem que ser deixado de lado, mas precisamos pôr em prática. As mulheres e iniciativas que irei citar estão colocando em prática e trazendo mais meninas e mulheres para a área de computação. Como o próprio nome do terceiro vídeo do canal Computação Sem Caô diz, computação não é só para homem.

Com esse texto, procuro colocar em destaque os trabalhos de alguns coletivos e mulheres para, quem sabe, você que ainda está em dúvida sobre a área de computação ou só tem interesse mesmo no tema, possa se inspirar e até participar dos eventos promovidos por elas.


InfoPreta

A empresa presta serviços tecnológicos como manutenção de computadores, suporte técnico, backup e formatação, higienização, desenvolvimento de sites e aplicativos, consultoria sobre tecnologia e inovação, entre outras atividades. A diferença é que todo o trabalho é feito por mulheres, principalmente negras, e participantes de minorias.

A ideia veio quando a fundadora Buh D’ Angelo, que é formada em técnico de manutenção, robótica, eletrônica e automação industrial, percebeu que por ser mulher, negra e de classe social baixa não teria as mesmas chances de sucesso em empresas multinacionais.

Em 2015, ela começou a consertar laptops e fazer a manutenção de hardware e software, sendo que o anúncio do serviço era feito via redes sociais. Como o serviço começou a aumentar, ela se juntou com a Fernanda Monteiro, que possui mais de 20 anos de experiência no mercado tecnológico, mas sofreu preconceito após sua transição de gênero. Desde então, a empresa já apresentou projetos para Microsoft Brasil, Campus Party e recentemente foi classificada para representar o Brasil no G20 em Berlim.


A pesquisa Game Brasil 2017, realizada todos os anos pela agência de tecnologia interativa Sioux, revelou que as mulheres são maioria quando se trata de videogame, sendo que 56,6% dos jogadores no país são do público feminino. Apesar disso, as mulheres ainda sofrem preconceito no setor.

Pensando nisso, a Ariane Parra criou o Women Up Games, uma organização que promove a inclusão de mulheres no mundo dos games através de palestras, eventos corporativos, campeonatos femininos e eventos de desenvolvimento de games.


PyLadies

O grupo é internacional e tem o objetivo de atrair mulheres para a área de TI através da linguagem de programação Python. A organização conta com 23 representantes em diversas cidades brasileiras que ministram cursos gratuitos de Python desde o básico até conteúdo mais avançado.


Minas Programam

Ariane Cor, Bárbara Paes e Fernanda Balbino se uniram para criar o Minas Programam, um projeto que oferece cursos de programação ministrados por mulheres e para mulheres.

O grupo defende quea tecnologia é usada em todos os setores da vida e que, por isso, esse deve ser um ambiente plural, para garantir soluções democráticas. “Se as mulheres tivessem participado da criação das redes sociais, ferramentas de combate ao assédio sexual virtual já teriam sido criadas”, exemplifica Bárbara.


PrograMaria

Muitas das iniciativas de programação para mulheres surgiram porque as próprias mulheres sentiam dificuldades de ingressar na área. Foi assim que surgiu o PrograMaria, que realiza oficinas, eventos e cursos de formação técnica para mulheres que desejam iniciar no mundo da programação.

Desde sua criação, o projeto já realizou mais de dez oficinas e três edições do Curso Eu Programo, que formou 90 mulheres, e um Summit, que reuniu mais de 130 mulheres para debater o lugar das mulheres na tecnologia.


Mulheres na Computação

O blog foi criado por Camila Achutti assim que ela entrou no curso de Ciências da Computação da USP e percebeu que era a única mulher na sala de aula. Ela então decidiu criar o blog para compartilhar informações relacionadas à tecnologia e empreendedorismo feminino, além de oportunidades de vagas e cursos na área.


WoMakersCode

O projeto foi criado no interior do Rio Grande do Sul, com o objetivo de incentivar as mulheres que querem seguir carreiras na área de tecnologia através de eventos, oficinas, debates e cursos de programação ministrados por voluntárias que atuam na área de TI. Hoje, o projeto conta com grupos em São Paulo, Americana, Rio de Janeiro e Aracaju, além de já ter capacitado mais de 3 mil mulheres.

O grupo também trabalha para educar empresas para melhor promover, reter e contratar mulheres e conscientizar sobre a importância da igualdade de gênero e diversidade. “Ao invés de só indicarmos pessoas ou anunciar vagas, nós conversamos para entender qual é o cenário da empresa, sua cultura, para identificar pontos para construção de um código de conduta, processo seletivo mais inclusivo e às vezes iniciativas internas para reforçar a importância do respeito, ética e igualdade”, explica.


Reprograma

O projeto oferece um curso intensivo e gratuito, estilo bootcamp com duração de 18 semanas em período integral, para ensinar programação front-end, incluindo linguagem HTML, CCS e Javascript, além de bibliotecas e pré-processadores como JQuery, Bootstrap e React, a mulheres que não estejam empregadas. As alunas também têm aula de UX Design e de Business Model Canvas.


Preta Lab

O Olabi, organização social que trabalha para democratizar a produção de tecnologia, apresenta o PretaLab — um levantamento que mostra ser urgente o debate sobre representatividade no universo da inovação.

Parte de projeto com o mesmo nome lançado em 2017, o estudo traz entrevistas, vídeos e dados que apontam que falar de raça e gênero na tecnologia é necessário para a criação de uma sociedade socialmente mais justa.

É um convite à discussão e um chamado à ação, para que a desigualdade social não se aprofunde ainda mais.


CloudGirls

Esse projeto tem como objetivo criar um espaço para discussão de temas relacionados à Computação em Nuvem, em que não exista a pressão ou o constrangimento comuns a ambientes predominantemente masculinos no que diz respeito ao posicionamento das mulheres. Assim, o Cloud Girls encoraja a participação feminina através de meetups, com mesa e público compostos por mulheres.


Django Girls

Django Girls é uma organização sem fins lucrativos e uma comunidade que visa empoderar e ajudar mulheres do mundo todo a organizar workshops de programação de um dia, fornecendo ferramentas, recursos e apoio. Graças à contribuição de suas centenas de voluntários, o Django Girls tem tornado a tecnologia mais acessível e em cada um de seus eventos, dezenas de mulheres constroem suas primeiras aplicações web usando HTML, CSS, Python e Django. É possível verificar as cidades onde acontecem os eventos nessa página.


Marialab

MariaLab é um hackerspace feminista, um espaço coletivo e aberto, para a criação e troca de conhecimento. É um espaço voltado para mulheres e meninas, que busca ensinar e divulgar ciências e tecnologia.