DIY, Movimento Maker e o Futuro da Indústria

Por Iana Barenboim*


Muito se fala sobre o futuro da indústria e o futuro do trabalho. Apesar dos esforços dos futuristas, pouco se sabe que tipo de emprego nossos filhos terão e o como nos organizaremos como sociedade. A gente sabe que os modelos de produção estão mudando, temos um norte, mas os caminhos podem ser diversos e difusos.

A verdade é que a indústria hoje ainda se organiza com base nas regras de padronização e modularização de componentes trazidas pelo fordismo no começo do século passado. Nesse modelo, para ser eficiente e lucrativo, a palavra-chave é economia de escala. Com a globalização, um mesmo produto é composto por peças de todos os cantos do mundo e a sua produção acontece a milhares de quilômetros de distância de onde será vendido. Isso afeta o como o mundo é organizado, a geração de emprego, de riqueza e de valor. Vivemos as últimas décadas acreditando que a globalização da produção é um postulado.

No começo desse ano, a Adidas anunciou a construção da “SpeedFactory”, uma fábrica equipada por impressoras 3D e robôs no sul da Alemanha. A indústria de calçados esportivos movimenta 80 bilhões de dólares por ano e há muito foi alocada na Ásia em países como China, Indonésia e Vietnam na busca por eficiência e lucratividade. O que faz uma gigante — produtora de 300 milhões de pares de calçados por ano — mover uma parte da sua produção para um dos lugares mais caros do mundo?

A primeira resposta que nos vem à cabeça, provavelmente, é a substituição do homem pela máquina. Cortar custo e risco trabalhista para ter uma produção mais eficiente. Nesse caso, entretanto, a resposta correta é satisfação do cliente. A proposta da Adidas é a de diminuir o tempo de entrega de 3 a 4 semanas para menos de um dia. A sua motivação está baseada no comportamento do consumidor de hoje: impaciente, com uma diversidade de ofertas disponíveis e com pouco interesse de esperar o tempo do navio trazer da China o produto que foi comprado.

Isso questiona o modelo de economia de escala global como conhecemos.

É verdade que só é possível satisfazer esse consumidor moderno porque a tecnologia avançou muito e muito rápido. E para entender como essa rapidez é real e o quanto impacta nos nossos modelos de negócio, vale resgatar a história da computação pessoal. Os computadores surgiram da paixão e colaboração de muita gente, mas no fundo a grande revolução que se associa aos computadores é a revolução da internet. O fato de existir uma rede descentralizada que foi capaz de conectar o globo todo, sem um operador central é muito inovador.

A internet não é de uma pessoa ou de uma empresa, ela é um protocolo de comunicação. A gente paga para ter acesso a ela de forma a garantir que chegue até nós — isso sim pode pertencer a alguém — mas a infraestrutura de rede, em si, é distribuída. Essa inovação, que é tão central no nosso dia-a-dia tem como base algo que parecia irreal e improvável, mesmo para as pessoas que estavam em sua criação.

Antes da internet, para botar uma ideia no mercado, você precisava planejar, conseguir o dinheiro necessário para implementar e aí contratar o pessoal especializado para ver se era realmente viável. Podia te custar milhões só para no final descobrir que a ideia não é aplicável. Hoje, o que a internet nos proporciona, é a capacidade de testar e inovar antes de ter dinheiro. Inverteu-se a ordem. Agora, para colocar um novo produto no mercado digital, a gente testa, erra, testa de novo, faz um protótipo para convencer o investidor a botar o dinheiro inicial e depois pensa em montar um modelo de negócio que faça sentido. A inovação custa virtualmente zero.

E é assim que boa parte das inovações no mundo da internet são criadas. Google e Facebook são exemplos de plataformas que surgiram sem modelos claros de negócio, testando o que seria possível e depois viraram das 5 marcas mais valiosas do mundo. A grande revolução da internet é ter diminuído o custo da inovação de forma que muitas vezes é mais barato implementar e testar uma ideia do que planejá-la.

O mundo dos hardwares, ou seja, das máquinas, impressoras 3D, robôs e afins, funciona muito parecido com o mundo das gigantes digitais e foi impulsionado pela internet da mesma forma. A diminuição do custo da inovação (aliado a queda das patentes) possibilitou que em poucos anos tecnologias como a impressora 3D — que custavam na casa das centenas de milhares de dólares — passassem a custar menos de mil. Esse fenômeno permitiu, de um lado, que a prototipagem de produtos — antes confinada aos parques industriais — fosse cada vez mais rápida e acessível e de outro que o avanço exponencial das tecnologias melhorasse a eficiência da produção.

Da junção entre o movimento de democratização da computação pessoal e o antigo movimento do Faça-você-Mesmo é que surge o Movimento Maker. Esse novo modo do fazer digital possibilitado pelo barateamento da computação pessoal permite a ascenção de toda uma cena crescente ligada à eletrônica e à robótica. Um Arduíno, por exemplo, plataforma usada para prototipagem rápida que permite criar objetos que conectam o físico ao digital, pode ser manuseado até por uma criança.

Os Makerspaces são essencialmente espaços de experimentação que estimulam a inovação de uma forma mais fluida, mão na massa e livre. Vocês podem encontrar de formas diferentes, mas todos eles têm em comum a ideia de permitir que as pessoas construam seus conhecimentos de forma mais livre.

As máquinas podem assumir formatos variados e estão se sofisticando cada vez mais. As máquinas de fabricação digital já estão nos laboratórios universitários pelo mundo há bastante tempo, inclusive no Brasil. Agora, o que tem acontecido é que elas estão ficando cada vez menores, mais baratas e mais potentes. Dessa forma, vamos assistindo uma democratização dessas ferramentas e permitindo que cada vez mais gente tenha acesso às ferramentas e aos conteúdos.

Lá no makerspace do Olabi, pessoas de todos os perfis têm acesso às ferramentas da inovação, passando por eletrônica, robótica, fabricação digital e afins. Mês passado, por exemplo, a Gabi Monteiro, uma designer que frequenta o makerspace do Olabi, resolveu imprimir na impressora 3D um pedaço do vestido que ela estava fazendo para uma noiva. Em poucos dias, a Gabi incorporou o detalhe no vestido, testando um material que nunca tinha usado. Era um filamento flexível, o mesmo que foi usado para fazer o vestido da modelo na abertura das paraolimpíadas no Rio ano passado. A mesma Gabi usa às vezes o Olabi para cortar na cortadora a laser brincos e acessórios de sua coleção pessoal.

À esquerda, detalhe do vestido de noiva impresso na impressora 3D por Gabi Monteiro e à direita o vestido criado pela estilista Danit Peleg e usado pela modelo Amy Purdy na abertura das Paraolimpíadas em 2016

Outro exemplo é a história do Ricardo, empreendedor da nossa rede que tem a Vandal, uma marca de camisas customizáveis. Sua produção se baseia em duas máquinas que digitalizam no tecido o desenho que o cliente deseja. Uma dessas máquinas veio com uma peça quebrada e a assistência técnica deu 30 dias para enviar uma nova para repor. Isso significaria um prejuízo de 30 mil reais para a empresa. Ao invés de esperar, pedimos o arquivo da peça para a fábrica e imprimimos no Olabi. Em um dia.

Peça impressa na 3D do Olabi

E nós não somos únicos. Somos parte da rede dos fablabs criada no MIT e de outras redes globais que conectam esse tipo de espaço. Já são mais de mil fablabs em 97 países. Os fablabs são a rede mais famosa do mundo e tem um foco em fabricação digital ou seja, máquinas que permitem a materialização de objetos a partir de arquivos digitais (como, por exemplo, as impressoras 3D, as fresadoras, as máquinas de corte a laser).

O objetivo comum é dar ao cidadão o apoio para inovar focando no uso das ferramentas tecnológicas desatrelado a grandes centros de pesquisa, universidades e os espaços tradicionais de inovação. Porque diferente das inovações que vem de cima para baixo, o movimento maker precisa apenas de pessoas, ideias, conexão à internet e vontade dos envolvidos para existir. No Togo, por exemplo, tem um fablab que trabalha basicamente só com sucata e material reciclado. Eles lançaram, por exemplo, uma impressora 3D feita de lixo eletrônico.

W.AFATE: Impressora 3D desenvolvida com lixo eletrônico no WoeLab, no Togo.

Ou seja, o movimento maker é, acima de tudo, sobre a democratização das ferramentas de inovação de forma que permita mais gente acessando, evoluindo e trabalhando com o desenvolvimento tecnológico. É sobre diversificar a inovação e a produção de tecnologia antes restritas aos grandes centros de pesquisa das grandes empresas e dos governos. Não porque eles não saibam fazer, mas porque a sociedade ganha quando isso é feito por mais gente, com olhares diversos e que trazem problemas a serem resolvidos não antes contemplados.

Quando disponibilizamos as ferramentas para o cidadão aprender a produzir tecnologia e não só consumir, abrimos espaço para que as pessoas possam se expressar mais livremente e possam propor soluções para os problemas de suas comunidades.

Eu tive o privilégio de poder entender melhor a cena de inovação na África ao longo dos últimos dois anos trabalhando com o Muva, programa de desenvolvimento econômico focado em diminuir as barreiras que mulheres em situação de vulnerabilidade encontram para acessar oportunidades econômicas em Moçambique. Quando estávamos desenhando a estratégia de setor privado do programa, visitei países no leste do continente para entender seus ecossistemas de inovação.

No Gearbox, um dos makerspaces que visitei em Nairobi, capital do Quênia, foi desenvolvido e prototipado o SupaBRCK, dispositivo que leva internet a regiões remotas. Ele é à prova d’água e com bateria recarregável por energia solar. Tecnologias como o SupaBRCK são capazes de mudar economias inteiras porque foram desenvolvidas com foco na solução dos problemas do contexto em que estão inseridas. Não à toa, eles já receberam mais de 4 milhões de dólares de investimento.

SupaBRCK,

No contexto em que vivemos, a internet nos chega por tecnologias que partem das seguintes premissas: conexão estável, disponibilidade de tomadas e de um lugar fechado que protege o seu roteador da chuva e da umidade. Nessas condições, em geral, conseguimos ter internet. No continente africano, por exemplo, o consumo de internet só é possível para 30% da população — aqueles com poder aquisitivo não só para comprar o pacote de internet, mas para garantir um lugar seguro, seco e com tomada para o roteador. No Brasil, por exemplo, só 50% da população tem acesso à essa internet livre, descentralizada, onde você pode encontrar todo e qualquer tipo de conteúdo. No mundo, 3.8 bilhões de pessoas ainda estão desconectadas em 2017.

Quando a gente mantém a inovação fechada em grandes centros e na mão de países historicamente mais propensos a inovar, estamos restritos à escala de importância que as pessoas inovando naquele contexto dão para um problema específico. É pouco provável que alguém no Vale do Silício pensando na problemática de acesso à internet saiba que, por exemplo, a distribuição de energia em regiões africanas é intermitente em horários específicos do dia (dependendo da região os horários mudam) e que boa parte das casas tem teto de chapa e, por conta disso, chuva e umidade afetam a funcionalidade do roteador como a gente conhece.

A inovação de baixo para cima é tema essencial quando pensamos desenvolvimento econômico e diminuição das desigualdades sociais. E o movimento maker tem papel fundamental nessa agenda, não só apoiando a democratização da inovação, mas também o empreendedorismo. Incentivar micro e pequenos empreendimentos a identificar problemas inerentes a nossa sociedade, de modo que proponham soluções usando a tecnologia como ferramenta é uma forma de criarmos uma economia no nosso país mais condizente com os desafios que vivenciamos.

Casos como do SupaBRCK são cada vez mais recorrentes porque justamente o custo da inovação caiu, a internet conectou o mundo e hoje você testa mais rápido do que planeja. Para além de novos mercados, isso representa maior habilidade de satisfazer seus consumidores, desenvolvendo produtos e serviços mais próximos de suas demandas.

Nesse mundo em constantes transformações, em que a mudança é a única coisa que podemos garantir que é certa, o melhor que podemos fazer para antever tendências, comportamentos e nos aproximar dos nossos consumidores, é estimular uma cultura de experimentação. Pois assim, as pessoas conseguem trabalhar o modelo mental necessário para se adaptar rápido às mudanças e aproveitar as oportunidades que elas trazem.

No Olabi, a gente se esforça em nos mantermos presentes em redes diversas, desde grupos de desenvolvedores de faculdade até redes globais como os fablabs e outras como o Global Innovation Gathering que se preocupa com a democratização tecnológica do Sul Global. Isso nos retorna uma rede orgânica de mais de 4 mil pessoas e a participação no desenho de projetos, programas e políticas públicas no Brasil e no mundo. Em quase 4 anos, atendemos mais de 20 mil pessoas em trabalhos, projetos e eventos em 20 países nos 5 continentes. Dessa forma diversa, descentralizada e colocando a experimentação e a curiosidade no centro do processo, conseguimos manter o bom fluxo de ideias e projetos circulando em nossa rede, garantindo o entendimento das novas tecnologias e seus desdobramentos.

Porque não é só sobre as novas tecnologias. É também sobre o como os consumidores se comportam e como as comunidades se organizam.E isso movimenta toda a cadeia de valor mundial.

Esse texto baseou minha palestra no evento Click — Ideias que inspiram, à convite da Associação Comercial de Campinas (ACIC) na Semana de Negócios e Empreendedorismo da cidade que recebeu mais de 2.000 pessoas representando empresas e indústrias do interior de São Paulo em outubro de 2017.

*Iana Barenboim é Diretora do Olabi, organização social focada em promover a diversidade na produção de tecnologias. Integra o time do Muva, programa internacional de empoderamento econômico da mulher em Moçambique, financiado pelo governo da Ingraterra, liderando projetos de tecnologia, desenvolvimento de negócios e mercados da base da pirâmide. Economista, empreendedora e consultora com experiência em desenvolvimento de negócios, inovação e gênero para empresas e projetos no Brasil e em Moçambique.