Hubs de inovação e desenvolvimento social: aprendendo com a África

Por Iana Barenboim*

Dialogar com as iniciativas do Hemisfério Sul sempre esteve no DNA do Olabi. Sabemos o quanto as periferias do sistema são territórios potentes e trazem olhares e soluções para os velhos problemas do mundo e, por isso, ficamos sempre atentos aos nossos "vizinhos".

Além dos trabalhos por aqui e parcerias que envolvem países da América Latina, África, Ásia, há um ano entrei mais a fundo nos problemas e soluções africanas ao me somar ao Muva, programa financiado pelo governo da Inglaterra e gerido pela Oxford Policy Management— que tem a importante missão de gerar novas oportunidades de renda e emprego para as mulheres moçambicanas.

Em Moçambique, apenas 4% das mulheres em idade laboral são formalmente empregadas. Todo ano, 350.000 pessoas entram em um mercado de trabalho que comporta — pouco mais — do dobro desta soma. Além disso, quase 90% da população vive com menos de dois dólares por dia.

Dos inúmeros desafios entorno da discussão sobre desenvolvimento econômico sustentável, destaca-se, do lado da demanda por trabalho, a falta de capacitação para o emprego e/ou geração de renda enquanto do lado da oferta de emprego, a dificuldade das pequenas e médias empresas acessarem capital de giro, crescimento e investimento.

Para endereçar a questão da demanda, nos apoiamos nas lições aprendidas de países como África do Sul, Quênia, Gana e Ruanda, que apostam nos diversos usos da tecnologia como ferramenta de empoderamento social.

Tive o prazer de conhecer um pouco da cena empreendedora e tecnológica da Africa do Sul e do Quênia, com o intuito de levar parte da experiência dos países vizinhos de continente para Moçambique. Aproveito este espaço para contar um pouco do que vi por lá.

Em Pretória, 40 minutos de Johanesburgo, fica o The Innovation Hub, um complexo de prédios e galpões que agrupa incubadoras de negócios, grandes empresas e centros de pesquisa e desenvolvimento. Dentre as áreas abordadas estão: saúde, energia, biociências e economia verde. Dos objetivos listados pela equipe que comanda o espaço, destaco: i) inclusão dos protótipos de produtos inovadores e novas tecnologias no mercado, criados nos centros de pesquisa universitários e ii) inclusão dos recém graduados no mercado de trabalho.

Para cumprir com os objetivos, se propõe incubar empresas pré e pós comercialização, oferecendo apoio técnico de acordo com suas necessidades de produto, serviço, estratégia e estruturação do negócio. 
As novas empresas devem escolher dentre os programas de incubação de tecnologia da informação (mobile e web), biociências, economia verde e saúde.

Fica claro que a proximidade de pequenas e grandes organizações, resulta na capacidade de alocação dos novos produtos no mercado e em trocas riquíssimas entre os mundos.

Em Nairobi conheci o iHub, inspiração para muitos hubs de inovação pelo continente e ao redor do mundo. Começaram como um espaço aberto de trabalho voltado para o público tech que, à época, tinha dificuldade de se conectar à internet. Hoje, o hub tem diferentes assinaturas, as quais permitem o uso do espaço, acesso à rede e/ou acesso aos eventos.

iHub in Nairobi

Dos muitos atributos, a sua agenda de eventos, falas abertas e palestras, é apontada como um dos principais motivos de sucesso da empresa, principalmente porque separa e valoriza as diferentes temáticas no entorno da tecnologia, gerando relevância real ao seu público e sua marca.

Com o crescimento da rede e as diferentes demandas dos membros, surgiu, dentro do mesmo espaço, o mLab, incubadora de empresas mobile e o makerspace Gearbox, cuja vasta oferta de máquinas permite a prototipagem rápida dos mais diversos produtos.

O produto pioneiro é o BRCK, kit de 40 tablets conectados a uma maleta que, por sua vez, é capaz de levar internet a lugares sem nenhum acesso à rede. A empresa, hoje, produz e leva conteúdo educacional às áreas rurais do país.

A premissa principal do iHub é a de usar a tecnologia, nas suas mais diversas formas, como ferramenta para resolução de problemas sociais e cotidianos do país em que vivem, utilizando-se dos meios e recursos que se dispõe. Recentemente, a empresa foi adquirida pelo Invested Development, um fundo de investimento de impacto americano.

De volta, fico com a sensação de que temos muito o que aprender com nossos vizinhos africanos. O Quênia é hoje, por exemplo, o destino de centenas de milhões de dólares em investimento de impacto. Vê-se ali, de forma clara, que a premissa número 1 é a de que a tecnologia é ferramenta de resolução para os problemas da sua população, do seu país. E isso gera valor de verdade, social e financeiro.

*Iana Barenboim é economista, atua como consultora para a Oxford Policy Management e como gestora no Olabi Makerspace.