Mais que uma batida, um grito

Olabi Makerspace
Nov 4 · 5 min read

Slam é sobre libertação, negritude, raízes, periferia. Um grito de socorro, de raiva, de angústia, de dor, mas também de poder, de amor, de afeto.

“Quando a gente recita, lá no palco, a gente sangra”. A Nati de Poesia tem só 19 anos e já é idealizadora do Slam das Minas do Acre e integrante do coletivo Poetas Vivos. Mas, antes de ser a Nati de Poesia, ela já era feminista negra, neta de quilombola e militante do movimento de mulheres e combate ao racismo. A Nati falou essa frase durante a gravação da primeira temporada do podcast da PretaLab. Nós fomos bater um papo com as 16 slammers que batalharam na FLUP Slam Nacional, durante a 8° edição da FLUP, a Festa Literária das Periferias, que rolou no Museu de Arte do Rio, no Rio de Janeiro, do dia 16 a 20 de outubro.

A FLUP é uma festa literária internacional que acontece todo ano e, nessa edição, a programação veio para celebrar o poder da poesia falada, em particular, aquela produzida pelo povo negro. O slam foi, sem dúvida, um dos principais motivos do evento lotar e emocionar tanta gente durante os quatro dias.

Pra quem não sabe, os slams são campeonatos de poesia, em que os participantes, os slammers, têm até três minutos para apresentarem sua performance uma poesia de autoria própria, sem adereços ou acompanhamento musical. O texto pode ser escrito previamente, mas também pode haver improvisação e não há regras sobre o formato da poesia. “Slam” é uma expressão inglesa e o significado é como o som de uma “batida” de porta ou janela. Segundo a maior parte das fontes, o slam foi criado nos anos 1980 em Chicago, nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que a cultura hip hop tomava forma, mas só chegou ao Brasil mais tarde, nos anos 2000. E, em 2015, surgiu o movimento que abriu espaço, especificamente, para mulheres: o Slam das Minas começou no Distrito Federal e, menos de três anos depois, já tem edições em vários estados brasileiros. As competições de slam acontecem nas ruas mesmo e essas edições menores funcionam como etapas classificatórias para o Slam nacional, que leva o vencedor para o campeonato mundial.

Durante as gravações dessa primeira temporada, eu e Sil Bahia, diretora do Olabi e coordenadora do PretaLab, tivemos a chance de conversar com as slammers. E, de cara, percebemos que o slam é muita coisa antes de ser uma competição. Slam é libertação, negritude, raízes, periferia. O slam é mais que uma batida, é um grito. Um grito de socorro, de raiva, de angústia, de dor, mas também de poder, de amor, de afeto. O slam é arte pura, no mais simples significado que isso pode transmitir. Vimos isso em cada poesia recitada durante as batalhas e durante as gravações e, mais ainda, vimos em cada olhar dessas mulheres.

Rio, São Paulo, Bahia, Acre, Rio Grande do Sul, Paraíba, Pernambuco… São poesias, sotaques, referências e trajetórias de uma multiplicidade de vivências que ficou difícil querer parar de conversar. A vontade era de ficar ali, entrando cada vez mais não só na Maria Duda ou na Meimei Bastos slammer, mas na potência, na singularidade e na forma com que cada uma escolhe usar as palavras, os gestos, o riso, o corpo. Mulheres. Negras. Poetas. MCs. Rappers. Escritoras. O que acontece quando isso tudo se torna poesia e chega no público ouvinte? O que acontece quando uma slammer surda muda se apresenta no palco? O que acontece dentro delas? Fora delas? O que acontece com quem assiste? O que muda depois? O que precisou mudar antes?

“A gente tem que se ouvir né, antes de falar lá no palco. E isso, muitas vezes, não é fácil”. A Valentine é a primeira e única mulher negra trans slammer do Rio de Janeiro. Ela recitou uma poesia erótica durante as gravações. Ela falou por ela, mas foi sobre muita coisa. Foi sobre tudo o que o slam e a poesia, para essas mulheres e para tanta gente, representa como força transformadora. É um processo interno, antes de ser externalizado.

Falamos sobre amor. Falamos sobre a importância e o lugar que o slam, a poesia, a música, a arte ocupa em realidades em que a dor impera, dilacera, não deixa espaços. Falamos sobre afeto, união e a capacidade da poesia de se transformar em corporalidade, em abraço, em vida pulsante. Falamos sobre o slam, mas também sobre educação, sobre a diáspora, sobre representatividade, sobre esperança. E falamos sobre sofrimento. Sobre diferentes entendimentos e sentires sobre a dor. Falamos, elas falaram, porque o slam é esse lugar que é delas. Que é por si só. Que ninguém ofereceu. Que simplesmente é de pessoas, de mulheres, às quais sempre foi delegado um lugar bem específico e que nós sabemos qual é.

A periferia tava ali. As raízes. A mulher negra, favelada, periférica, quilombola, nordestina, LGBTI. No auditório de gravação, no Museu de Arte do Rio, elas estavam ali, em vozes únicas. Gritando. Sussurando também. Dilacerando. Re(e)xistindo. Por vezes me perguntei se o microfone não captava os corações pulsantes. Durante as apresentações do slam e também durante as gravações para o podcast. Talvez vocês ouçam muitas coisas durante os episódios, do que o que eles realmente falam. Se permitam. E sangrem. Sangrem junto.

A primeira temporada do Podcast do PretaLab será lançada ainda em 2019 e poderá ser ouvida nas principais plataformas de áudio digitais. Essa temporada é uma parceria com a FLUP (Festa Literária das Periferias), com produção da Rádio Escada.

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