Olabi no INT: Inovação e Tecnologia para as pessoas “comuns”

Por Eduardo Lopes*

O diretor do INT Fernando Rizzo, Ieda Caminha, sua assessora e eu na abertura do programa, que deu início às comemorações de 95 anos da renomada instituição.

“Não sabia que era possível fazer isso” ou “Não imaginava que era tão fácil assim” são frases que sempre ouvimos em nossas andanças e oficinas nesse mundo maker por aí afora.

As pessoas “comuns”, como eu e você (entre aspas para ressaltar que todos somos makers e comuns, mas isso é assunto para outro post), estamos acostumados a ajoelhar e dar graças ao criador, pelo simples fato de uma grande empresa ter pensado e fabricado um produto, para depois colocá-lo em uma prateleira, já pronto para o nosso consumo.

Se por um lado toda essa facilidade é mesmo digna de comemoração, como uma grande conquista (de parte) da humanidade e do seu desenvolvimento tecnológico, por outro levamos de brinde uma bruta alienação.

Não sabemos mais como tudo o que consumimos é feito.

Não falo apenas dos nossos gadgets cada vez mais sofisticados, mas a maior parte de nossas roupas ou da nossa comida são provenientes de grandes (e fechadas) indústrias.

Há pouquíssimo tempo, nossos pais costuravam e consertavam as próprias roupas, preparavam as suas refeições e certamente sabiam que uma linguiça é proveniente de um porco, e não da prateleira supermercado, como pensa(va) meu filho de oito anos.

Essa alienação promove, entre outros tantos males, uma desconexão entre as nossas reais necessidades materiais e o impacto que a produção industrial causa em nosso ambiente, especialmente quando imersos em um universo onde o consumismo é a regra.

Toda essa introdução é para saudar uma iniciativa do INT — O Instituto Nacional de Tecnologia — que às vésperas de completar 95 anos, abriu as suas portas para a cidade, com o intuito de levar para dentro do Instituto as discussões e práticas em curso nas comunidades ligadas ao universo da apropriação de novas tecnologias.

Normalmente focado em aplicação de tecnologia de ponta à serviço da inovação para a grande indústria, o INT decidiu chamar o Olabi para realizar um ciclo de oficinas sobre os novos espaços criativos e as redes de inovação. O resultado foi um mês de ocupação no hall de entrada do Instituto, bem centro do Rio, onde rolou um pouco de tudo: robótica, costura high tech, biohacking, design e eletrônica aplicada, tudo voltado para o público geral e para os colaboradores do próprio INT.

Mais do que os equipamentos de ponta existentes ali, o que aconteceu de mais interessante foi a mistura de saberes e realidades diferentes: A PhD em Metalurgia costurando com linha condutiva um tapete sensorial para bebês, feito com uma mistura de artesanato tradicional e eletrônica, junto com as jovens mães da ONG Providenciando a Favor da Vida, da comunidade da Providência, em parceria com o pessoal do Movimento Down.

Teve também o designer com pós-graduação no exterior aprendendo eletrônica aberta com Arduino e fazendo um pequeno “robô” dançar — na verdade uma tensoestrutura de madeira cortada a laser e unida com elásticos -, junto com crianças de dez anos de idade — em uma atividade que lotou o espaço, comandada pelo super maker argentino e nosso parceiro Fernando Daguano.

Como sempre gostamos de fazer, incluímos as crianças na roda. Extraímos juntos o DNA de frutas e da saliva, hackeamos plantas carnívoras e adaptamos para a nossa realidade o projeto de um carregador de celular movido a energia eólica, postado no Instructables por um maker indiano. A hélice do nosso carregador, por exemplo, foi feita utilizando plástico reciclado pelas máquinas do Precious Plastic, no projeto adaptado no Rio pela Matéria Brasil, para a WWF e utilizado pela comunidade de catadores Anfitriões do Cosme Velho.

Se há uma coisa que aprendemos nesses anos todos, imersos na realidade desses espaços de fazer, é que o que importa são as pessoas, e não as máquinas.

É claro que poder ver de perto as super impressoras 3D industriais do INT é uma experiência incrível — e quem participou da oficina de modelagem e impressão que rolou no ciclo, fez uma excursão por todo o laboratório — mas como toda máquina, elas são apenas ferramentas, que devem estar a nosso serviço, e não o contrário.

Saímos empolgados dessa experiência, com muito mais perguntas do que respostas (o que é sempre bom, apesar do senso comum dizer o contrário…), curiosos para saber o quê essa conexão entre o público geral, os saberes específicos e a infraestrutura de ponta vão trazer de novo, além da troca de aprendizados, experiências e de ideias que já rolou.

O INT deu um exemplo de como é possível discutir inovação dentro de uma instituição tradicional, abrindo as suas portas e as cabeças que ali estão. Entenderam que, nos dias de hoje, o processo de construção da inovação pode começar ali numa esquina da Providência. Eles entenderam que o diálogo entre os seus pesquisadores ultra qualificados e os estudantes, empreendedores, artistas, enfim, o cidadão comum podem produzir bons resultados para o desenvolvimento social do país.

PS: fiquei com a missão de fazer este post e contar um pouco do projeto, mas nada dele seria possível sem a Rebeca Duque Estrada, que comandou isso com maestria e garantiu que cada atividade ficasse incrível.

*Eduardo Lopes é arquiteto, doutorando na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo e diretor de operações do Olabi Makerspace.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.