Pretalab alerta para os perigos da ausência de diversidade na tecnologia

Projeto do Olabi, organização social que trabalha para democratizar a produção de tecnologia, lança levantamento que mostra como a ausência de mulheres negras na inovação pode resultar em um aumento da desigualdade social.

acesse www.pretalab.com

As mulheres negras acumulam os piores indicadores sociais no Brasil. No trabalho, elas recebem os menores salários e têm os mais altos índices de desemprego. Em casa, são as que mais sofrem com a violência e as que têm maior responsabilidade no sustento familiar. Na saúde, são vítimas preferenciais da violência obstétrica, do descaso nos serviços públicos e da criminalização do aborto.

Se queremos mudar esse cenário, não podemos deixar as mulheres negras de fora dos avanços da inovação. É preciso que elas façam parte das vertiginosas mudanças tecnológicas pelas quais passa a economia global. É urgente trabalhar para que as aplicações tecnológicas que a sociedade consome sejam, cada vez mais, produzidas por grupos diversos.

Estima-se que nos Estados Unidos apenas 2% da força de trabalho em todo universo da ciência e engenharia seja de mulheres negras. No Brasil, esse dado sequer existe. Para mudar esse cenário, é essencial que pensemos sobre a democratização do acesso à produção das tecnologias.

Para chamar a atenção para o problema, o Olabi lança o levantamento Pretalab, com entrevistas e outros conteúdos que mostram a urgência do tema.

Mulheres negras precisam enfrentar barreiras criadas pelo racismo e pelo sexismo no ambiente de trabalho. Uma pesquisa conduzida pelo Pew Research Center revelou que 62% dos homens e mulheres nas áreas de Ciência, Tecnologia e Engenharia e Matemática relataram ter sofrido discriminação no trabalho por sua raça ou etnia. Sofrendo os efeitos danosos dos estereótipos de gênero e de raça, as mulheres negras são ainda mais pressionadas a mostrar resultados.

De acordo com o Centro de Inovação e Talento, 77% das mulheres negras em empresas de alta tecnologia afirmam que precisam provar sua competência mais do que seus pares. Essa expectativa para performar acima da média pode gerar nessas mulheres uma pressão e ansiedade, afetando sua saúde, contraproducente em ambientes de trabalho em que a criatividade é necessária.

Segundo o estudo “Por que tão poucas? Mulheres afro-americanas em Ciência, Tecnologia e Engenharia”, em 2010, 27.576 mulheres negras obtiveram diplomas como engenheiras ou cientistas, o que representa 10,7% dos diplomas concedidos a mulheres no Estados Unidos. Mas elas representavam menos de 1% do total de mulheres empregadas nessas indústria, com 75 mil engenheiras e cientistas trabalhando em qualquer nível ou posição em suas áreas.

Ou seja, mesmo em países em que o acesso das mulheres negras ao ensino superior é significativamente melhor do que no Brasil, o racismo e o machismo seguem impedindo sua chegada ao mercado de trabalho.

“Democratizar o acesso às tecnologias não é sobre ampliar o consumo, mas sobre a possibilidade de criar as aplicações. E essa discussão precisa ser colocada não apenas com um recorte de gênero, mas também de raça”, explica Silvana. Segundo um levantamento do Grupo de Gênero da Escola Politécnica da USP (Poligen), em 120 anos a USP formou apenas dez mulheres negras. Ainda, na lista das pioneiras das ciências no Brasil, criada pelo CNPQ, nenhuma das mulheres citadas é negra.

No caso das mulheres negras no Brasil, esse cenário é tão invisibilizado que faltam inclusive dados precisos para medir sua atuação. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), dos 1.683 engenheiros da computação formados em 2010, apenas 161, ou 9,5%, eram mulheres. No mesmo ano, apenas 14,8% dos 7.339 formados em ciências da computação eram programadoras.

Para Silvana Bahia, diretora do Olabi e idealizadora do Pretalab, a ausência de mulheres negras e indígenas nos espaços voltados para área de tecnologia e inovação está ligada diretamente a dois fatores: acesso e falta de referência. “Quase tudo relacionado a esse campo é caro, em inglês e são raras as políticas (públicas ou privadas) destinadas ao nosso ingresso e permanência nesses espaços. A falta de referência é outro fator determinante: se ser uma mulher nas tecnologias já é um desafio, imagina para nós, negras. A ausência de referências positivas sobre mulheres negras e indígenas é uma questão social que perpassa não apenas o mundo das tecnologias, mas os mais variados campos profissionais e de poder”, afirma.

“Tecnologia é a linguagem do século 21. É política, é poder, é direitos humanos, é cidadania. É fim e é meio. Tem que andar em conjunto com todas as outras causas e pautas, senão estaremos sempre um passo atrás.”
Silvana Bahia, diretora do Olabi e idealizadora do PretaLab‍

No Brasil, além da PretaLab, iniciativas como o OxenTI Menina, Rede de Ciberativistas Negras, Blogueiras Negras, Pretas Hackers, Desabafo Social, Gato Mídia, Criola, Criadoras Negras RS, Minas Programam, data_labe, Black Rocks, Instituto Mídia Étnica, MariaLab, InfoPreta, Preta Nerd, Coletivo Nuvem Negra, vêm atuando para mudar esses números.

São iniciativas formadas por profissionais que trabalham para provar na prática e com dados que mulheres não são naturalmente inferiores aos homens em nenhuma função. Mas que supostas “aptidões” são construídas socialmente e limitam o escopo de atuação da mulher desde seu desenvolvimento na infância. Mães e pais não sonham que suas filhas se tornem programadoras, tampouco as meninas encontram muitas referências femininas nas áreas de exatas.

Maria Rita Casagrande, desenvolvedora, é blogueira desde 1998, quando não existiam sistemas de blog simples como conhecemos hoje, o que exigia uma série de habilidades técnicas para viabilizar as postagens. Ela começou a trabalhar em 2002 com desenvolvimento web mas só em outubro de 2016 conseguiu escrever no seu currículo que é desenvolvedora front-end e back-end (full stack developer).

“Passei 15 anos com dificuldade de me assumir nesse lugar, por achar que ele não me pertencia. Quando percebi que ele era meu, me ocorreu questionar se demora tanto assim para um homem branco se assumir como “da tecnologia”, afirma. Para ela, a internet traz voz e possibilidades para mulheres, negros, LGBTs.

“A gente precisa dominar a tecnologia para construir na internet um universo de conhecimento nosso, onde a gente consiga ser valorizada como mulher, como pessoa negra”, disse Maria Rita Casagrande em entrevista ao PretaLab.

Outras histórias como a da Maria Rita estão descritas no levantamento feito pela Pretalab e disponível no site do projeto, que reúne vídeos, dados, números e outros dados que ajudam a explicar por que este é um problema urgente de ser debatido no Brasil. Acesse: https://www.pretalab.com/

A PretaLab

A PretaLab é uma iniciativa do Olabi lançada em março de 2017 com foco em estimular a inclusão de meninas e mulheres negras e indígenas no universo das novas tecnologias. Viabilizada a partir do apoio da Fundação Ford, a iniciativa surgiu como uma campanha, na busca por mapear e entender quem são as meninas e mulheres negras e indígenas que trabalham nessa área.

A partir de um formulário na internet, foram coletadas histórias, impressões, dados sobre esse público. Num segundo momento, como parte da campanha, vídeos foram gravados para dar visibilidade a história de protagonistas que exemplificam os desafios das brasileiras que já estão atuando como desenvolvedoras, empreendedoras, produtoras de conteúdos, ativistas do campo digital.

O objetivo do projeto é, de um lado, mostrar como a falta de representatividade é um problema não só para o ecossistema de tecnologia e inovação, mas para os direitos humanos e a liberdade de expressão. E, de outro, estimular referências positivas na busca que mais meninas e mulheres negras enxerguem as inovações, a tecnologia, as ciências como campos possíveis e interessantes de atuação.

O Olabi

O Olabi é uma organização social que busca trazer diversidade para a construção de um mundo mais diverso e socialmente justo. Com sede no Rio de Janeiro, a instituição mantém um espaço de experimentação, no qual elabora metodologias para promover diálogos entre grupos variados e estimular o pensamento crítico.

Com quatro anos de atuação, seus projetos estão voltados para o campo da tecnologia e inovação, por entender que são nessas áreas que se travam as disputas importantes sobre o futuro– nas quais faz-se urgente trazer as discussões sobre cidadania, direitos humanos e liberdade de expressão.

Durante esse período, a organização atendeu mais de 20 mil pessoas em atividades formativas como oficinas, palestras, debates. Nos últimos dois anos, esteve presente em mais de 20 países, nos cinco continentes, com especial destaque para as articulações entre países do hemisfério Sul. Parte da rede global dos Fablabs, criada no MIT, e também do Global Innovation Gathering, baseado na Alemanha, o Olabi está em constante diálogo com agentes da sociedade civil, do setor público, do setor privado e com o cidadão comum, na busca pela ética na produção tecnológica e da construção pelo bem comum.

Um dos seus principais projetos é o PretaLab, uma rede de mulheres negras na tecnologia e inovação, que tem contribuído para o debate sobre a necessidade de protagonismo das mulheres negras nas instâncias de poder da sociedade. Com um ano de ação, o projeto mobilizou mais de 600 mulheres negras envolvidas na produção de tecnologia e pautou discussões sobre representatividade nas cinco regiões brasileiras e em importantes fóruns internacionais.