Dor e o lado bom da vida. Opostos?

João Lucas

Por Thiago Marques

Não me lembro bem de como o texto intitulado “Bem-vindo à Holanda” chegou até mim. Se por indicação de alguém, se porque eu estava procurando algo na internet que gerasse algum conforto, enfim… Me lembro tão somente que o li poucos dias depois de termos ouvido falar, pela primeira vez, que o João Lucas estava no Transtorno do Espectro Autista (TEA).

O texto, na minha opinião, tem muito, muito, muito a ver com a aceitação do diagnóstico por parte dos pais (e vocês vão ler muito sobre aceitação aqui neste espaço porque, não tenho dúvidas, é algo extremamente — e elevado à quinta potência — intenso e desafiador).

A autoria seria de Emily Perl Kingsley.

O trecho que mais me marcou foi este: “E a dor que isso causa não irá embora nunca, jamais, porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa”.

Foi experimentar um verdadeiro misto de sentimentos ler algo assim. Uma montanha-russa de emoções com o carrinho em velocidade máxima. Ora eu achava que aquele trecho mostrava que “alguém me entendia”, que podia “mensurar a minha dor”, que “sabia o que eu estava passando”. Ora eu achava que aquilo representava uma “sentença” para toda a vida: “Como assim eu terei que viver com uma dor para sempre, assim, latejando?”

Mas com o tempo as coisas vão se encaixando. E aí a sensação é de que você deixa de lado a interpretação, digamos, “mais rasa e superficial” do texto e passa a lê-lo com outros olhos.

Hoje entendo da seguinte forma (e falo por mim, pautado pelas minhas convicções, no que acredito, no que sinto de verdade): há uma dor diante da “morte do filho idealizado” (em outro post explico isso melhor). Essa dor não pode ser negada, varrida para debaixo do tapete, camuflada. Encontramos, inevitavelmente, meios para suportá-la. E eu sempre dizia à Carla: prefiro vivê-la intensamente, com tudo o que ela significa e acarreta, porque creio que ela passará. E aí sim, estarei renovado para seguir em frente.

E nessa nova “interpretação” que faço deste texto, não acho que ele esteja errado quando diz que “…a dor que isso causa não irá embora nunca…”, embora eu tenha escrito, no parágrafo anterior, “…creio que ela passará.”

Explico melhor: é que vez ou outra temos, naturalmente, pensamentos do tipo “…e se fosse diferente?”. “E se ele não estivesse no espectro?”. “E se?”. Isso é absolutamente normal e compreensível, e não algo exclusivo de pais cujos filhos têm TEA. Tenho certeza de que pais que perderam seus filhos, ou que se sentiram frustrados por algo que os filhos fizeram ou deixaram de fazer teriam pensamentos semelhantes (principalmente por conta de planos feitos PELOS pais PARA seus filhos, sem sequer sabermos se eles terão a vontade de cumpri-los, rsrs).

Então hoje acho que esta “dor” dos tempos atuais tem mais a ver com pensamentos assim. E não uma dor que lateja em função do diagnóstico que foi dado lá atrás.

Há também os dias em que falta um pouco de paciência, que sobra irritabilidade, que há cansaço em demasia… E aí aparece a “dor” em questão. Por isso gostei tanto do trecho, porque não acho que devemos jamais mascará-la. O que temos aprendido, dia após dia — e isso é o “Lado Bom da Vida” -, é que a dor de agora, por mais que não suma, vai sempre tendo um tempinho de duração cada vez menor.

E a vida segue, então, seu curso!

P.S.: Me lembro também, na época em que achei o texto em questão, que havia uma certa polêmica em torno dele. Um “auê” por conta das comparações que eram feitas, enfim, toda uma celeuma que, na internet, como muitos de vocês já sabem, se amplifica muito. Quem topar ler o texto, sugiro que leia-o de forma despretensiosa, com o coração aberto, ciente de que se trata apenas de metáforas e que, como eu disse anteriormente, tem tudo a ver com aceitação.

BEM-VINDO À HOLANDA

“Freqüentemente sou solicitada a descrever a experiência de criar um filho portador de deficiência, para tentar ajudar as pessoas que nunca compartilharam dessa experiência única a entender, a imaginar como deve ser. É mais ou menos assim…

Quando você vai ter um bebê, é como planejar uma fabulosa viagem de férias — para a Itália. Você compra uma penca de guias de viagem e faz planos maravilhosos. O Coliseu. Davi, de Michelangelo. As gôndolas de Veneza. Você pode aprender algumas frases convenientes em italiano. É tudo muito empolgante.

Após meses de ansiosa expectativa, finalmente chega o dia. Você arruma suas malas e vai embora. Várias horas depois, o avião aterrissa. A comissária de bordo chega e diz: “Bem-vindos à Holanda”.

“Holanda?!? Você diz, “Como assim, Holanda? Eu escolhi a Itália. Toda a minha vida eu tenho sonhado em ir para a Itália.”

Mas houve uma mudança no plano de vôo. Eles aterrissaram na Holanda e é lá que você deve ficar.

O mais importante é que eles não te levaram para um lugar horrível, repulsivo, imundo, cheio de pestilências, inanição e doenças. É apenas um lugar diferente.

Então você deve sair e comprar novos guias de viagem. E você deve aprender todo um novo idioma. E você vai conhecer todo um novo grupo de pessoas que você nunca teria conhecido.

É apenas um lugar diferente. Tem um ritmo mais lento do que a Itália, é menos vistoso que a Itália. Mas depois de você estar lá por um tempo e respirar fundo, você olha ao redor e começa a perceber que a Holanda tem moinhos de vento, a Holanda tem tulipas, a Holanda tem até Rembrandts.

Mas todo mundo que você conhece está ocupado indo e voltando da Itália, e todos se gabam de quão maravilhosos foram os momentos que eles tiveram lá. E toda sua vida você vai dizer “Sim, era para onde eu deveria ter ido. É o que eu tinha planejado.”

E a dor que isso causa não irá embora nunca, jamais, porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa.

No entanto, se você passar sua vida de luto pelo fato de não ter chegado à Itália, você nunca estará livre para aproveitar as coisas muito especiais e absolutamente fascinantes da Holanda.”

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