O nó na garganta (acreditem, já é um avanço!)

Glauce Conti

Por Thiago Marques e Glauce Conti

Falo, neste caso, apenas por mim: não tem nada a ver com a música do Pablo, a tal “Homem não chora”. Acho (acho) que tem a ver com o termo que aprendi na Psicanálise, o tal “mecanismo de defesa”.

O fato é que desde a constatação de que o João Lucas estava no Espectro Autista, a sensação é de que as lágrimas secaram de uma vez (rolaram uma única vez, em segredo, enquanto dirigia pela Avenida Assis Chateubriand — mas isso conto em outro post).

Deve ser coisa de homem. Precisava correr atrás do que fosse melhor pra ele. Em meio a isso, o ritmo no trabalho era frenético. Logo, não havia tempo para choro. E, bem ou mal, vai ver prevaleceu lá no íntimo algum resquício da cultura em que fomos criados: meu caro Pablo, antes de você usar tal frase no ritmo do arrocha, eu já era ensinado, ainda no ventre da minha mãe, que homem não chora.

Pois bem. Eram 9 horas da última terça-feira, 13 de setembro, quando a Carla avisou em mensagem no Whatsapp. “Segure o coração com o que você vai ler a seguir”. E entre uma paradinha e outra em um dos vários sinaleiros da Avenida T-9, eu tentava concluir a leitura. Nas proximidades da Avenida Mutirão, consegui.

Estava sozinho no carro. Se estivesse falando com alguém, ou ao telefone, a voz estaria embargada. Mas o nó estava ali, na garganta, a me sufocar. Rapidamente (olhem o tal “mecanismo de defesa” aí novamente) troquei o que seria um “quase-choro” pela alegria.

Pôxa, que carinho ela demonstrava ter conosco. Isso era impagável.

Uma vez comentei que eu teria todos os motivos do mundo para “odiá-la”, pois foi ela que, após a constatação de um neuropediatra (autismo não se diagnostica por exames de imagem ou de sangue, por exemplo), “referendou”, dias depois do nosso primeiro encontro, o que o médico — coincidentemente ambos trabalham na mesma clínica — já havia dito.

Mas onde há gratidão, onde há carinho, onde há zelo e tantas outras coisas boas, não há como o tal “ódio” entrar. O amor tudo supera.

E é tudo isso que vocês verão no texto que ela mandou pra gente, intitulado “NOSSO ENCONTRO”, ainda na manhã daquela terça-feira.

Obrigado por amar o João Lucas, Dra. Glauce. Obrigado do fundo da nossa alma.

[P.S.: Sobre o tal choro represado? Ele ainda virá. Pra mim, tem muito a ver com o meu processo de aceitação. E à medida que este avança, ele virá de uma forma meio libertadora e, ao mesmo tempo, avassaladora. Não terá como pano de fundo a tristeza, a frustração, as idealizações e planos que se foram por água abaixo. Mas a alegria, o entusiasmo e a força de um relacionamento único, indissociável, entre pai e filho.]

“NOSSO ENCONTRO”

Era véspera de feriado de Páscoa, o consultório já não tinha muitas crianças como em dias normais, muitas famílias já se preparavam para as viagens. Eu já estava finalizando, era a última sessão de avaliação de uma criança, um menino, muito pequeno, talvez a criança mais nova que eu já tenha atendido. Uma criança amável, que tinha pais comunicativos, alegres, mas afoitos com o resultado da avaliação, com as minhas observações, com o tema que recentemente tinha entrado na vida deles. O autismo.

Nos despedimos e marcamos para nos encontrarmos na próxima semana para eu passar os resultados das minhas observações.

Foi quando um olhar aflito captou o meu olhar, até no momento sereno e tranquilo. Estávamos na escada, nos despendido. Mas, eis que uma pergunta surgiu da boca do pai:

- Dra, a senhora acha que ele é?

Era uma pergunta que eu já estava habituada a responder.

Há doze anos trabalho no consultório, exclusivamente com crianças com alguma alteração no desenvolvimento e predominantemente com avaliação. Mas essa pergunta gerou uma angústia e eu só pensava em prorrogar essa resposta.

A minha intenção era poupá-los.

Para explicar melhor o meu sentimento naquele momento, vou me referir a fábula escrita por Emily P. Kingsleye já citada nessa página, “As belezas da Holanda”.

Eu não tinha dúvidas de que eles iriam se virar bem na Holanda, que iriam aprender rapidamente todas as delícias de viver naquele país. Eu queria poupá-los de chegar em um país desconhecido sem nenhuma orientação, sem nenhum guia, sem saber quais eram os melhores restaurantes, os hotéis que eles deviam evitar, os passeios mais divertidos… enfim eu não podia.

Com um olhar imparcial, eu respondi:

- Vamos conversar na próxima sessão?

E foi assim que iniciamos o nosso caminhar. Foi assim que eu comecei a introduzir as belezas da Holanda a um casal que sonhava em viver na Itália.

Qualquer que seja o diagnóstico dado a uma criança no início do seu desenvolvimento é, para os pais, um momento muito difícil. Engana-se quem pensa que sofrem mais os pais de primeira viagem, ou os pais de crianças mais graves ou ainda os pais que já possuem um outro filho com diagnóstico.

É consensual. Todos os pais sofrem!

Cada casal da sua maneira. Muitos deixam de ser casal — isso ainda é muito comum. Também não é incomum perceber as fases enfrentadas por eles como um processo de luto.

Acredito que nesse primeiro momento de diagnóstico, os pais mereçam mais atenção do que a própria criança. Na minha prática clínica, algumas observações e experiências vivenciadas me fizeram concluir que eu deveria acolher os pais em primeiríssimo lugar.

E, aqui, seguem alguns pontos difíceis:

Não são todos os profissionais que trabalham com crianças que estão aptos a perceberem os sinais, às vezes muito sutis, especialmente nos bebês. Com isso, os pais enfrentam — o que pra mim é a primeira — dificuldade em encontrar algum profissional (seja ele pediatra, psicólogo, professor) que vá apontar esses sinais, ou que vá confirmar a percepção dos pais.

Assim, é rotineiro ouvir, nos relatos dos pais, a saga percorrida por vários profissionais até o diagnóstico.

No caso que relatei, os pais não percorreram vários profissionais. Eles tinham uma pediatra atenciosa que, nos primeiros sinais, já os alertou. Mas, principalmente, eles souberam ouvir da pediatra, aceitar que existiam sinais que apontavam que o desenvolvimento da criança não estava ocorrendo como devido e procuraram a confirmação do diagnóstico. Isso é muito importante!

Outra dificuldade enfrentada pelos pais é a necessidade que surge com a diagnóstico de TEA de descontruir a figura do filho desejado.

Aquele menino que adoraria jogar bola, como o pai, ou a menina que seria vaidosa como a mãe, ou que gostaria de cantar como os tios… e reconstruir a figura do novo filho.

Uma criança que de forma variada irá apresentar dificuldade na interação social, na comunicação, às vezes interesses restritos e comportamentos repetitivos. E ainda aceitar que deverá incluir uma adaptação à rotina terapêutica da criança, com sessão de fonoaudióloga, psicóloga, terapeutas para acompanhar o filho na escola…enfim, tudo aquilo que nenhum dos pais pensa quando descobre que o filho está a caminho.

Tudo isso misturado aos sentimentos e pensamento que insistem em vir assombrar cada um. De quem é a culpa? Será que foi por causa daquele ocorrido na gravidez? Será? Será? Será que ele vai casar? Vai ter filhos? Por que o meu filho?

Na semana seguinte, os pais retornaram, como combinado. Eram pais com muitas dúvidas e questionadores. Pelo nível das perguntas, me pareceu que tinham passado o período do feriado estudando sobre o assunto. Foram respondidas as dúvidas, algumas com segurança, outras com cuidado.

É um momento delicado também para o profissional, é um momento de orientar os pais e deixá-los ciente de tudo sobre o quadro, mas também é momento de motivá-los para que tenham disposição e força para buscarem tudo o que estão sendo orientados. 
 Mas com todas as particularidades desse momento, a minha intenção com esse depoimento foi descrever o nosso primeiro encontro! A família do João Lucas e eu!

Foi assim que nossa história começou… Foi assim que Deus permitiu, a mim, entrar nessa família. Sou muito grata!