Sobre vulnerabilidade e surpresas

Por Carla Lacerda
Sempre me questiono por que escrevo o que escrevo e, mais ainda, por que publico textos pessoais. Autocensura aqui é mato, viu?! Dra Jane já se cansou, acho, de ouvir essa velha ladainha no divã:
- A impressão que tenho é que vou me expor e, além disso, as pessoas podem interpretar algo como vitimização.
- A partir do momento que você escreve o texto, ele não é mais seu, é do leitor. O que as palavras causam não tem a ver com o autor, mas com a história de vida do receptor. As pessoas podem escrever algo formalmente perfeito e isso não tocar ninguém, ao passo que um material mediano pode ser extremamente bem aceito. Tudo depende de quem o interpreta.
Legal ouvir isso. Acho que tira um peso dos meus ombros, ou melhor, dos dedos que aqui digitam algumas linhas.
Mas a hesitação e a dúvida voltam. Será? Será? Continuo? E daí aparece um conselho de uma amiga:
- Tem tanta bobeira nas redes sociais, muito bom quando aparecem coisas que te acrescentam.
Tá, continuo, mas antes vou pra “caverna de Elias”, me fecho, me questiono, me entristeço às vezes. Daí depois de um tempo saio, respiro fundo, me empolgo, escrevo de novo, publico e …. volto pra “caverna de Elias”, me fecho, me questiono, me entristeço às vezes… há mais de 30 anos.
Há mais de 30 anos. Interessante é também se autoconhecer e, mais do que isso, se aceitar. Tô neste processo. Entre tudo o que poderia ser nesta vida, sou jornalista e sei que não por acaso. Entre tudo o que poderia escrever, gosto de retratar emoções, e hoje sei também que não por acaso. Vulnerabilidade. A compreensão deste termo, ao longo do tempo, se torna mais fácil:
“… as outras pessoas devem achar cura em (nossas) feridas… a vulnerabilidade liberta emocionalmente… quando nos abrimos, aliviamos a tensão e dissipamos nossos medos”. (Uma vida com propósitos, Rick Warren).
Por tudo o que escrevi até agora, já dá pra imaginar que a criação deste espaço, “O Lado Bom da Vida”, consumiu uma boa parcela da minha energia mental, de conversas com o Thiago e das minhas sessões com a Dra Jane. Mas ainda bem que o projeto saiu do papel. Ainda bem que, mesmo que não de forma constante, escrevo por aqui de vez em quando. Porque se assim não fosse, não teria o privilégio de conhecer pelas redes sociais a Helen Costa. Ela é da África do Sul, mas desde a adolescência vive em Portugal. Ela também tem um filho com autismo e, ao ler um dos posts do “O Lado Bom da Vida”, me mandou uma mensagem encorajadora e mais ainda: um exemplar do livro que lançou recentemente — “A vida é o que fazemos dela”.
28 de dezembro de 2016
Carla,
Minha amiga, há um oceano que nos separa, mas as mãos e os corações não conhecem fronteiras”.
Vulnerabilidade. Acho que vou continuar me arriscando a sair da “caverna de Elias”.
