Tem mas tá faltando

É estranho ser dessa geração quando se trata de comunicação porque vimos o mundo mudar em pouco tempo. Tudo hoje é feito de uma forma muito diferente e mais rápida do que era antes. A velocidade implica num monte de vantagens e em algumas desvantagens também. Sempre teve um milhão de coisas acontecendo no mundo, dizem, só que antes a gente não tinha oportunidade de saber (ou acompanhar em tempo real), mas a impressão que se tem é que tudo acontecia um pouco mais devagar. E hoje quando uma coisa acontece realmente devagar parece que está se arrastando. Como existe muito mais informação de muitas formas e fontes diferentes você se sente mais bem instruído e a sensação de estar “por dentro” é buscada com mais ansiedade. Ansiedade, inclusive, palavrinha que nunca foi tão presente. Tem que ler pelo menos o primeiro parágrafo do textão, né? Depois a gente se vira no meio da conversa (mas, dica, não tem e nem do textinho, nem o comentário). E o sentimento de “estou perdendo” esse assunto, quem consegue controlar?

Algumas cenas de hoje provavelmente não aconteceriam da mesma forma há alguns anos. A (talvez-coitada) Melania Trump passou dias sendo compartilhada numa infinidade de vídeos/gifs/fotos, aparentemente pedindo socorro com sua linguagem corporal na posse do marido. Essa repercussão, provavelmente, não seria possível antes. Não teriam tantas câmeras, nem tantas pessoas com câmeras (mais conhecidas hoje em dia como celulares), nem tantas pessoas com celulares e internet. E, mesmo que ela fosse flagrada em um desses momentos, seria por um ou outro jornalista sortudo e sairia em um ou outro portal, algumas pessoas veriam e mostrariam a uma ou outra pessoa. A velocidade e a mudança de hierarquia mudaram tudo.

A parte ruim é que as pessoas ainda não aprenderam a lidar com isso nem a escolher, talvez por fazerem parte da geração que está vendo as coisas mudarem enquanto tenta fazer as coisas direito e todo mundo sabe que fazer aprendendo não costuma gerar um resultado muito bom. No geral, as pessoas ainda não sabem em quê confiar, onde está seu nicho, o que ela quer e — mais importante de tudo — o que vale o tempo delas (é chocante a quantidade de reclamações sobre coisas que as pessoas podiam simplesmente não ler ou ver). A chance de alcançar quase tudo ainda não faz a gente alcançar muita coisa, principalmente coisas novas — é o já clássico algoritmo que controla tudo (e, por favor, não pense só no facebook). Olhando direito, esse dinamismo todo do mundo é muito limitado e as oportunidades acabam realmente passando, quem dera o mundo moderno fosse mesmo como o futuro projetado nos filmes dos anos 70.

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