Aonde vamos, mesmo?

Olbiano Silveira
Aug 23, 2017 · 2 min read

Os leitores certamente não acham legal fabricar cidadãos com um pedaço de papel e discursinhos amáveis. Faz algum sentido, agora lembro; serve pra justificar salários apetitosos de vereadores e deputados ainda carentes de projetos. Por ausência de vontade, preguiça ou de miolos na cabeça. E não seria nem um pouquinho justo eles embolsarem uma parte do dinheiro que pagamos de impostos só pela tarefa de ir e vir tomar cafézinho e jogar conversa fora nos buracos frios das casas legislativas.

Os títulos de cidadão pra fazer de conta que o agraciado é conterrâneo de quem achou bacana essa demonstração de amabilidade, ou por interesses ocultos, podem também ter utilidade. Sabe qual? Teoricamente podem ajudar candidatos a cargos eletivos.

Quando o cara começa a receber canudos de cidadão honorário, pode escrever e assinar embaixo: quer pedir votos mais adiante. Caso, agora, do prefeito-gari. É o bem diagramado João Doria, paulista engomadinho, proclamado esta semana cidadão potiguar. Ele não é tão alheio à vida e às coisas do estado quanto em princípio se pode pensar. O Doria-gari-cidadão-norteriograndense — também cidadão-baiano, cidadão-cearense — sabe que o Rio Grande do Norte fica no Nordeste, sabe que na Bahia nasceram Caimmi e Caetano; já ouviu dizer que Chico Anisio nasceu no Ceará. Pois bem. Ou, por mal. O prefeito- gari, de São Paulo, tá garimpando cidadanias Brasil a dentro. Por que será? Que vantagens podem oferecer a ele essas amabilidades de vereadores e deputados estaduais? Ele jura que não lhe passa pela cabeça trair seu padrinho Alkmin. Candidatura à presidência da República para ele, só faria sentido se o amado amigo desistisse, jogasse a toalha. Isso, óbvio, não acontecerá.

A nossa intenção aqui, de verdade, era e é falar sobre os anjos da sucessão de Bento Michel Carneiro. Não tá fácil. Tá tudo nublado: Alkmin não é, mas é; Doria será se Alkmin abandonar; Lula, ninguém sabe (talvez Moro e Gilmar Mendes saibam) se será impedido; o PMDB não abre mãode lançar candidato, topa até ir de Eduardo Cunha (preso); Luciano Huck, protótipo de estadista, ainda tá no terreno das reflexões; e Boçalbaro, vocês sabem, é Boçalnaro.

Assim, fiquemos na sombria expectativa de substituir um intrujão por um… um o quê, mesmo?

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